Escoriocracia: como a tecnologia coloca o pior da sociedade no poder

  Quase que só no âmbito jornalístico ou nos mais sofisticados ambientes intelectuais é que se discute no Brasil a crescente pressão do cenário político americano que é fruto de um fenômeno mediático e tecnológico. O evento das fake news é muito mais profundo do que a compra de anúncios no Facebook por indivíduos russo supostamente a mando de Vladimir Putin. Em questão no episódio está uma notória incapacidade do país mais rico do mundo em regular a própria mídia, seja por meio de agências reguladoras ou legislação, seja por instrumentos que uma sociedade civil bem desenvolvida obrigatoriamente deveria ter. Mais do que uma piada prevista pelo criador dos Simpsons  há mais de uma década, a ascensão de Trump é só uma pústula num ferimento muito mais sério que é a dissociação de imensas partes da sociedade americana de sua imprensa, de suas elites de do governo como um todo. A brilhante montagem da Economist na sua edição desta semana é uma charge que anda no limite entre o humor e o terror, extremamente precisa na sugestão que faz de como o negócio bilionário das mídias sociais foi fundamental no desvirtuamento de um ambiente democrático que já vinha apodrecendo. O papa Francisco disse que o mundo parece cada vez mais se dirigir à guerra. Todo papa sempre diz isso, mas por coincidência ou não, essa previsão do pontífice parece profética.

Como o vício em novidades está sangrando as indústrias de mídia e publicidade

Acompanhar qualquer coisa na mídia hoje é um exercídio frustrante de controle do FOMO, mas de vez em quando, algumas coisas fisgam você. Uma entrevista de um top exec de publicidade da Digiday teve esse efeito no meu media debriefing depois do post de um colega. O exec falava, sem meias palavras, como a  indústria da publicidade (e a de mídia, por tabela), têm um fetiche por novidades que é completamente irracional. Enquanto o sistema não encontrar alguns checks and balances, a situação vai só piorar.

Qual a questão aqui: bem, parte da coisa está no DNA de uma indústria que vive de previsões sobre mercados futuros. Mais do que qualquer outro setor, o nicho de tecnologia forçadamente avalia e aposta no que vai acontecer e até certo ponto ignora a realidade. A distorção da realidade, contudo, não está na característica especulativa natural do nicho, mas no hype desenfreado que a última década ampliou exponencialmente. A lógica de negocial que vale para todas as indústrias foi substituída por uma abordagem na qual o importante não é o que a coisa é, mas o que ela parece – e promete.

O milionário Warren Buffett, que se tornou o messias do investimento seguro depois da quebradeira de 2008 exatamente por sua cautela e eficiência nos investimentos tem um mantra: “Eu jamais coloco um centavo num negócio que eu não consiga entender como vai dar dinheiro”.

Em tese, essa é a voz do capitalismo encarnada. Negócios jamais têm uma finalidade que não seja a de obter o maior retorno possível. De Adam Smith até hoje, passando pela leitura de Karl Marx em Das Kapital, nenhum economista há de discordar. Mas no ambiente de tecnologia, os participantes sentem-se à vontade para colocar dinheiro no que não entendem (e às vezes, no que ninguém entende).

A avaliação de uma start-up (qualquer uma, não somente de media-tech niche) é feita em cima de valores concretos, sem que haja espaço para “achismos” (esse é um infográfico simples, mas funcional da coisa), mas a coisa desandou. Há três meses, o Tech Crunch fez um artigo abordando o exagero das avaliações de “unicórnios” que se encerra assim:

The bubble will not continue forever. Sectors that used to be super hot such, as cloud computing or mobile apps, are not disruptive anymore, and in a few years AI and automotive will also lose their shine. It will still take quite a few years for all these innovative companies to meet real infrastructure and cultural change, and the innovation industry is about to crunch. When that happens, consumers will realize they don’t need so many me-too products around them, and as the interest rates begin to rise again and VC vintages are over, we may see valuations turn the current game much more “interesting” — or perhaps even a much less friendly term. Continue...

O meio é cada vez mais vital que a mensagem

O mercado de tecnologia está com uma febre alta – e há anos. Os preços de startups surgidas do nada explode e suas aquisições entram na contabilidade como investimentos simplesmente baseados na avaliação feita por ‘criatividade contábil’. Uma das febres mais agressivas é ao redor dos apps de mensagens, que gera quedas e elevações de ações simplesmente por artigos assinados em publicações de Wall Street ou tecnologia. Por baixo desse sandice financeira, os continentes estão definitivamente mudando, mas o ‘hype’ é grotescamente maior do que a realidade jamais permitirá.

A nova meta da notícia é encontrar o seu leitor

Houve um tempo, não muito distante, onde a modelação de conteúdo para uma publicação era mais simples: as matérias eram feitas segundo as convicções das redações e acontecimentos dos nichos abordados. As audiência iam atrás do que queriam ler. Mas isso acabou. A informação não segue mais o mesmo sentido nem obedece a formatos pré-estabelecidos. A produção de conteúdo ainda pode seguir padrões e critérios de qualidade, mas o mais importante é que ela consiga encontrar o seu leitor e não o inverso, que era o caminho anterior. Lidar com o novo ambiente é um desafio que ainda gera mais perguntas que respostas.

Ameaçada, indústria de notícias dá indícios de evolução

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Nesta semana, em Londres, o evento News:Rewired reuniu profissionais da área para discutir o futuro: jornais,  notícias, mídias sociais e variantes. Infelizmente eu não pude ir, mas um brilhante wrap-up do evento foi feito por um colega de trabalho, Simon Garner, o Head of News do Yahoo no Reino Unido. E sim, as corporações batem cabeça, sim, a maioria dos jornais está cavando a própria cova e sim, a luta contra o processo digital é a típica reação do velho fadado a sucumbir ao novo. Mas apesar de tudo isso, tudo indica que perspectivas entusiasmantes estão surgindo para a indústria e a sociedade só pode comemorar.

O que a queda do crescimento do Twitter quer dizer

E o crescimento do Twitter está caindo. Sim, é uma frase esquizofrênica em si só, porque alinhada com as expectativas desgovernadas de um capitalismo disfuncional. Contudo, a redução do passo do Twitter não é um sinal ruim para seus usuários e não deveria ser nem para investidores ou para o mercado como um todo. A desaceleração tem mais a ver com a maturidade da plataforma do que com um enfraquecimento da mesma (que sob o ponto de vista operacional é muito sólida. O equilíbrio do Twitter tem mais a ver com velocidade de cruzeiro do que com colapso nos motores. E essa não é o único ponto positivo do cenário.

Redes do futuro serão ilhas de conhecimento hiperconectadas

As empresas de tecnologia têm invariavelmente um tom libertário no seu marketing, especialmente quando estão na fase de crescimento exponencial (como o famoso anúncio da Apple no SuperBowl de 1984). Contudo – e cada vez mais – uma vez que assumem o papel de superpotências, tornam-se exageradamente protetoras de seus direitos. Não querem fazer concessões para competidores menores, espremem usuários que não têm alternativas e, mais recentemente, têm pouca cautela com a privacidade dos usuários ao mesmo tempo em que são radicais para evitar o compartilhamento dos dados que esses mesmos usuários disponibilizam. Isso não muda o fato de que trata-se de um adágio que não tem futuro a longo prazo. O futuro pertence às redes que mais viabilizem plataformas de conexão e compartilhamento de dados. Redes “fechadas” tendem a se isolar.

Valor da informação depende de princípios, modelos de negócio e tecnologia

Quem se importa com informação? A pergunta parece um tanto quanto inofensiva, mas ela está na base de como o mercado de notícias vai se estruturar no futuro. Em última instância, todos os argumentos que tratam do jornalismo como um bem social, um recurso valioso para o funcionamento da sociedade, são frágeis. A definição do futuro dos meios de comunicação será determinada – como todo o resto – pelas premissas econômicas. O que a sociedade precisa fazer é achar um modo de encaixar suas demandas por informação nessas premissas. Senão, vai acabar com discursos empolados e vazios como os que fazem os acadêmicos que vivem num mundo que não existe.