Escoriocracia: como a tecnologia coloca o pior da sociedade no poder

 


Quase que só no âmbito jornalístico ou nos mais sofisticados ambientes intelectuais é que se discute no Brasil a crescente pressão do cenário político americano que é fruto de um fenômeno mediático e tecnológico. O evento das fake news é muito mais profundo do que a compra de anúncios no Facebook por indivíduos russo supostamente a mando de Vladimir Putin. Em questão no episódio está uma notória incapacidade do país mais rico do mundo em regular a própria mídia, seja por meio de agências reguladoras ou legislação, seja por instrumentos que uma sociedade civil bem desenvolvida obrigatoriamente deveria ter. Mais do que uma piada prevista pelo criador dos Simpsons  há mais de uma década, a ascensão de Trump é só uma pústula num ferimento muito mais sério que é a dissociação de imensas partes da sociedade americana de sua imprensa, de suas elites de do governo como um todo. A brilhante montagem da Economist na sua edição desta semana é uma charge que anda no limite entre o humor e o terror, extremamente precisa na sugestão que faz de como o negócio bilionário das mídias sociais foi fundamental no desvirtuamento de um ambiente democrático que já vinha apodrecendo. O papa Francisco disse que o mundo parece cada vez mais se dirigir à guerra. Todo papa sempre diz isso, mas por coincidência ou não, essa previsão do pontífice parece profética.

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Como o vício em novidades está sangrando as indústrias de mídia e publicidade

Acompanhar qualquer coisa na mídia hoje é um exercídio frustrante de controle do FOMO, mas de vez em quando, algumas coisas fisgam você. Uma entrevista de um top exec de publicidade da Digiday teve esse efeito no meu media debriefing depois do post de um colega. O exec falava, sem meias palavras, como a  indústria da publicidade (e a de mídia, por tabela), têm um fetiche por novidades que é completamente irracional. Enquanto o sistema não encontrar alguns checks and balances, a situação vai só piorar.

Qual a questão aqui: bem, parte da coisa está no DNA de uma indústria que vive de previsões sobre mercados futuros. Mais do que qualquer outro setor, o nicho de tecnologia forçadamente avalia e aposta no que vai acontecer e até certo ponto ignora a realidade. A distorção da realidade, contudo, não está na característica especulativa natural do nicho, mas no hype desenfreado que a última década ampliou exponencialmente. A lógica de negocial que vale para todas as indústrias foi substituída por uma abordagem na qual o importante não é o que a coisa é, mas o que ela parece – e promete.

O milionário Warren Buffett, que se tornou o messias do investimento seguro depois da quebradeira de 2008 exatamente por sua cautela e eficiência nos investimentos tem um mantra: “Eu jamais coloco um centavo num negócio que eu não consiga entender como vai dar dinheiro”.

Em tese, essa é a voz do capitalismo encarnada. Negócios jamais têm uma finalidade que não seja a de obter o maior retorno possível. De Adam Smith até hoje, passando pela leitura de Karl Marx em Das Kapital, nenhum economista há de discordar. Mas no ambiente de tecnologia, os participantes sentem-se à vontade para colocar dinheiro no que não entendem (e às vezes, no que ninguém entende).

A avaliação de uma start-up (qualquer uma, não somente de media-tech niche) é feita em cima de valores concretos, sem que haja espaço para “achismos” (esse é um infográfico simples, mas funcional da coisa), mas a coisa desandou. Há três meses, o Tech Crunch fez um artigo abordando o exagero das avaliações de “unicórnios” que se encerra assim:

The bubble will not continue forever. Sectors that used to be super hot such, as cloud computing or mobile apps, are not disruptive anymore, and in a few years AI and automotive will also lose their shine. It will still take quite a few years for all these innovative companies to meet real infrastructure and cultural change, and the innovation industry is about to crunch. When that happens, consumers will realize they don’t need so many me-too products around them, and as the interest rates begin to rise again and VC vintages are over, we may see valuations turn the current game much more “interesting” — or perhaps even a much less friendly term.

Não parece animador, né? Mas é pior do que isso: o problema não é só que competidores num determinado nicho não vão sobreviver e mesmo empresas que obtenham sucesso surreal podem vir a ser bem menos lucrativas do que seus bem cuidados planos de negócios propunham. Basta pensar que o Twitter, que é de longe a ferramenta mais útil para a sociedade como um todo, fracassou em suas metas de receitas e acabou sendo vendida para a Disney, muito em parte da relação de um de seus fundadores no Conselho da maior empresa de entretenimento do mundo.

No fim de 2015, na sua primeira fala às redações de uma grande empresa de mídia, um conhecido nome do jornalismo americano desafiou seus próprios comandados ao determinar que eles deviam esquecer de querer fazer sucesso com as audiências de Manhattan e outros centros sofisticados para prestar atenção a famílias do Meio-Oeste americano, porque  (aqui, observação minha) 99.9% das operações amplas de mídia do mundo só têm chance de se sustentar quando voltadas para audiências massivas e não, elites trendy de bairros chiques.

Traduzindo: se você não quiser falar com um nicho, precisa conversar com todo mundo – e não com quem é cool. Um seleto grupo de vivaldinos middle-men está arrancando o couro de anunciantes e publicações vendendo soluções tecnológicas que são muito atraentes, mas que vendem pouco peixe no fim do dia. A a conta só fecha com o peixe vendido.

É bem verdade que é muito mais sedutor falar com quem é cool do que com “a galera”. Pega muito melhor ser o investidor de uma empresa que aposta na exploração de Júpiter do que num app de micropagamentos na África, mas o mundo real não faz concessões e antes de ir a Júpiter, o mercado precisa resolver o problema de micropagamentos na África. As valutações de empresas de tecnologia, com particular incidência nas de mídia, seguem se afastando da realidade mesmo depois de sintomas de que o vôo não é em céu de brigadeiro (como a readequação de previsão de receita anual do Buzzfeed pela metade).

Esse é um sintoma claro da “bolha” mencionada pelo Tech Crunch e é totalmente em harmonia com a leitura histórica de momentos pouco anteriores à implosão de mercados superaquecidos. Mas a gente não aprende, né? O momento irracional do mundo não é só no que elege Trump e “bomba” chances de Dória e Bolsonaro. Ele é sistêmico, e não localizado.

 

Mídia dos EUA tem uma bolha que logo explodirá

A evolução da economia digital das últimas duas décadas teve seu reflexo na mídia. Para cobrir um acúmulo de dinheiro massivo como o proporcionado pela Internet e derivações, a mídia especializada foi ampliada exponencialmente. Publicações sobre tecnologia (como o Tech Crunch, Mashable e Gizmodo) e empresas digitais independentes operando em modelos de negócio sem precedentes na mídia tradicional (Buzzfeed, Vice, Business Insider) estão recebendo investimentos descabidos. Há algo de podre no reino da Dinamarca e o cheiro não se restringe à economia. A mídia também ensaia uma colisão frontal com a realidade.

O ecossistema de mídia americano é o mais desenvolvido do planeta. O tamanho do mercado permite que se criem nichos capazes de sustentar várias publicações sobre um mesmo assunto. As grandes empresas injetam dinheiro em novos projetos e venture capitalists colocam há pelo menos uma década somas consistentes em iniciativas que à primeira vista soam inviáveis. O esquema gerou resultados fantásticos e até inesperados. Buzzfeed, Vice, Vox Media, Business Insider, Huffington Post, entre outros, são frutos da pujança deste modelo.

Há algo errado e não é difícil desconfiar

Apesar da riqueza de recursos e abundância, a mídia americana tem uma realidade completamente singular, onde há um componente de vaidade. A indústria tem elementos determinantes que não são regidos simplesmente pela lógica. O modo (e a aparência) de como um projeto se coloca no mercado vai aumentar ou diminuir as chances de buscar mais investimento. Avaliações fora da realidade, modelos econômicos nebulosos, produtos que não têm como se sustentar: o dia-a-dia da nova mídia americana é um palco, muito mais do que um mercado. Projetos, apostas, iniciativas e quase todas as medidas dessas novas empresas têm um caráter muito mais de visibilidade do que de negócio.

Por exemplo: o Business Insider, publicação de hard news/finanças comprado há dois meses tinha recebido um investimento de US$56 milhões antes da aquisição do título por pouco mais de US$442 mi. A Vox Media, que detém uma série de títulos muito relevantes, já conseguiu pais de US$300 milhões; o site de esportes Bleacher Report já tinha levantado US$40 milhões quando foi vendido para a Turner por US$170 mi. Vice e Vox, só para citar dois exemplos, têm valores de mercados que passam do bilhão de dólares.

Esses números não são diminutivos dessas marcas. Algumas delas podem de fato justificar tais investimentos. Por exemplo: a Turner pode transformar o Bleacher Report numa fonte de receita encaixando-o em operações que já detém. Contudo, esse tipo de faturamento com escala não é a regra.

Os números de receita da maioria das empresas com esse perfil não chega nem mesmo a pagar as próprias contas e todas elas contam com uma escalada de receita seguida de um crescimento não só em tráfego, mas também no desenvolvimento de produtos e audiências que sejam defensáveis e não-imitáveis. A lista das propriedades digitais mais valiosas feita pela ComScore é um sintoma disso. Das 50 marcas mais valiosas, somente duas são digitais independentes (ou seja: não atreladas a empresas de mídia tradicional nem a remanescentes do primeiro boom da Internet – Vox Media e Buzzfeed.

A liquidez no cenário de investimento em tecnologia dos EUA está diminuindo. Fundos de investimento estão tomando distância das novas rodadas das start-ups que ainda estejam longe da entrada na bolsa de valores. Não coincidentemente, a quantidade de IPOs de tecnologia está retrocedendo e a quantidade de empresas que estão fracassando em atingir as próprias metas vem aumentando sistematicamente, inclusive as publicações (como o Buzzfeed, a vaca sagrada do conteúdo digital).

Poucos analistas discordam de que há uma segunda bolha de tecnologia pronta para acontecer. A extensão, contudo, deve ser menos desastrosa, porque investidores e mercado tomaram mais precauções. Apesar da aparente postura descontraída dos líderes da tecnomídia, a colisão está em curso e todo mundo está procurando um lugar para se segurar. Este ano deve terminar com 500 mil demissões nas empresas de tecnologia. Quase todas as publicações e empresas de mídia fizeram layoffs neste ano e mesmo em starlets como Mashable e Vice, o machado cantou. O que isso significa?

Para começar, que a dança das cadeiras está perto do fim. Algumas das empresas que sugaram recursos nos últimos anos estão chegando no prazo que tinham estipulado para si mesmas para sair do vermelho. Projetos novos terão mais dificuldade de buscar financiamentos grandes porque largas partes dos espaços vazios de consumidores já têm dono – em alguns casos, têm até donos demais. Mas a mais importante conclusão está em enfrentar um problema que é o nervo exposto do jornalismo digital: encontrar um modelo de produzir que use a tecnologia para reduzir drasticamente os custos sem que torne a cobertura numa commodity insossa.

E existe um jeito de fazer isso? Existe. As grandes adaptações da economia parecem óbvias em retrospectiva, mas impossíveis de adivinhar antecipadamente. Só os visionários conseguem fazer isso. E os visionários de hoje aparentemente são ruins em conseguir financiamento para seus projetos. Enquanto isso, se você é jornalista, segure-se. O sobe-e-desce deu lugar ao desce-e-desce para meios de comunicação. Crescimento via financiamento de venture capital é um dos caminhos que empresas de jornalismo/conteúdo poderão utilizar, mas um modo mais preciso (e honesto) de estipular receitas futuras é necessário. Claro, isso tudo, em sociedades mais desenvolvidas. No Brasil, a legislação quase inviabiliza tais iniciativas.

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Como a ‘superstar economy’ pode ir para o lado negro da força

Pare um momento, feche os olhos, e pense no roteiro de um dia normal na sua vida. Se você mora numa cidade e tem acesso à Internet (o que é extremamente provável), é praticamente certo que você seja cliente de, no mínimo, duas das maiores empresas de tecnologia do mundo (Facebook e Google), tem uma boa chance de usar os serviços e produtos de uma terceira (Apple) e não é impossível de também usar serviços de outras duas (Amazon e Uber). Você não está sozinho: centenas de milhões de pessoas em praticamente todo o mundo fazem como você. Esses titãs, frutos simbólicos do triunfo do capitalismo, estão também se tornando uma ameaça a ele por conta da extensão de seus recursos e poder.

“Competition is for losers”. Já falei dessa frase aqui. Ela foi dita por Peter Thiel, um dois criadores do PayPal e o primeiro investidor de peso do Facebook. Essa frase é sintomática porque ele mesmo é um produto do supercapitalismo americano, mas que leva as máximas liberais de livre mercado às últimas conseqüências. ele acha que se um competidor oferece um produto muito melhor do que os concorrentes, a sociedade está melhor servida do que com produtos de fornecedores menos eficientes. Em suma: o investidor sugere que oligopólios são benéficos para a sociedade.

Thiel não é um causador do movimento pró-megacorporações, mas um sintoma desse movimento. A quarta geração das megaempresas de tecnologia está se consolidando e desenhando um novo perfil: companhias com receitas bilionárias, que empregam pouca gente proporcionalmente, que têm o capital majoritariamente trans-nacional e que têm uma gestão fiscal que, na melhor das hipóteses, pode ser chamada de “agressiva” (e na pior, de evasão fiscal pura e simples). Os novos titãs corporativos ganham muito, gastam pouco, investem muito em pesquisa e pagam pouquíssimo (ou nada) para o governo.

Para quem tem governos como o brasileiro, a sonegação pode ser encarada de maneira até jocosa – afinal, o dinheiro sumiria por conta da corrupção mesmo. Mas em democracias consolidadas onde os regimes não são cleptocracias, a redução do montante de dinheiro recolhido pelo governo gera não só problemas de ordem social, mas uma indignação generalizada. O cidadão comum está enjaulado num sistema no qual tem uma chance muito remota de sonegar imposto, mas as empresas multinacionais “apátridas” vêem os encargos fiscais quase como opcionais.

A acusação não vem de nenhum movimento social ou grupo de pesquisa ligado à entidades de esquerda. A revista britânica The Economist, um bastião do liberalismo econômico, na edição publicada no meio de Setembro, fez um especial falando do que chamou de “superstar economy”, ou seja, a economia baseada nas companhias da moda como Apple e Google. “Essas megaempresas são razão para preocupação ou celebração?”, diz o artigo introdutório. O especial não deixa dúvidas: a revista observa que, apesar das megacorporações de tecnologia representarem um sopro de modernidade e investimento em pesquisa, também sinalizam uma concentração econômica similar à que ocorreu na década de 20, com o crescimento de megacompanhias como Ford, General Electric e outras. Há 10 anos, somente uma empresa entre as seis que têm maior valor de mercado no mundo eram de tecnologia. Hoje, são cinco e elas vão cada vez mais para o topo da lista.Companhias de tecnologia entre as maiores do mundo

Máquinas de fazer dinheiro – com tecnologia

Antes de mais nada, é preciso reforçar a virtude dessa star economy. O oligopólio que nomes como Amazon e Google conseguiram é fruto direto de um investimento pesadíssimo em pesquisa e desenvolvimento. A Amazon investiu cerca de US$13 bilhões em pesquisa em 2015 (mais de 10% da receita bruta) e as cinco maiores investidoras em desenvolvimento no mundo são de tecnologia. A proporção de receita por funcionário no setor é imenso, cuja performance superam até mesmo os bancos e corretoras mais ricos do mundo. O desenvolvimento de nichos e a capacidade de escala que essas estrelas da economia têm são fantásticos e lhes renderam vantagens competitivas notáveis. Talvez até notáveis demais.

O movimento das empresas de tecnologia no cenário econômico mundial é natural e não inédito. Novas tecnologias criam possibilidades que viabilizam fontes de receita impossíveis até então. Em certa medida, o movimento se repete periodicamente, com alguns picos, como o que veio com a Internet. O desenvolvimento dos features de geolocalização tornaram o Uber possível, assim como na década de 80, o modelo de negócios da Microsoft foi responsável pela explosão no uso de computadores. Mas há alguns ruídos aí que não são positivos. Empresas como a Apple e a Amazon têm hoje uma capacidade de investimento de tal ordem que podem obstruir a entrada de concorrentes e sufocar (ou comprar) start-ups que esbocem alguma possibilidade de ameaça. O historiador de economia americano Alfred Chandler disse que o capitalismo no país no século XX teve “dez anos de competição e 90 de oligopólio”. Alguns fatos como a queda do número de entradas de empresas na bolsa de valores de tecnologia pode ser um sinal de que a visão de Chandler encontra eco na realidade de hoje.

No nível de conexão dessas empresas com a sociedade também vê movimento. O capital sempre teve uma vocação multinacional, mas ele está ficando cada vez mais radical. As maiores empresas do mundo moveram suas operações para lugares que vão da China à Irlanda buscando salários menores e isenção fiscal maior. A quantidade de empregos também encolhe. Segundo a Economist, no seu auge, as três maiores montadoras de carros nos EUA eram as maiores empresas do país e empregavam 1.2 milhão de pessoas, produzindo US$250 bilhões anuais e representando um valor de mercado de US$36bi. Hoje, somadas, Alphabet (a empresa que controla o Google), Facebook e Microsoft empregam menos de 140 mil pessoas, geram uma receita semelhante à tríade e têm uma avaliação de mercado de US$1 trilhão.

Gigantes em tudo – para o bem e para o mal

Além do gigantismo, as star companies se inclinam a também desenvolver uma maior vocação para, digamos, arranjos fiscais mais criativos. Várias empresas mudaram sua sede para países como Irlanda, Holanda e Luxemburgo. Algumas manobras financeiras – que são legais – fazem com que dezenas de bilhões de dólares deixem de ir para a conta de vários governos e turbinem os balancetes dessas companhias, gerando lucros estratosféricos e subidas vertiginosas nos valores de suas ações. Isso não é bom para a imagem das empresas e do empresariado como um todo. Nunca na história dos EUA a sociedade teve as empresas em tão baixa avaliação, com cerca de 80% dizendo que não confiam nos maiores nomes da economia privada. Não que algum investidor se preocupe com relações públicas, mas essa percepção ruim tem impacto na economia. Basta ver que Hillary e Trump prometem endurecer a vida do capital e das empresas que levaram empregos americanos que foram para o exterior.

O poderio que essas empresas geraram geram milhares de teorias da conspiração, mas nenhuma delas faz sentido. Por mais que os teóricos da conspiração se esforcem, basta ler a biografia de qualquer uma dessas companhias para notar que os comportamentos monopolistas e menos transparentes delas são criados pelo tamanho colossal que esses conglomerados atingem. Sim, há decisões claramente contrárias ao que a sociedade quer, mas esse não é um feature da indústria de tecnologia.

Em nenhum momento da história uma ou mais empresas afetariam bilhões de pessoas de uma vez, mas agora, isso ocorre até com certa freqüência. Uma simples decisão no algoritmo do Google pode condenar à morte um nicho de mercado inteiro; um novo produto da Amazon pode dizimar a concorrência a ponto de virar um monopólio.; uma mudança numa política de privacidade do Facebook pode tornar públicos os dados de centenas de milhões de pessoas. Em suma: sim, há empresas concentrando tanto poder a níveis potencialmente catastróficos, mesmo quando elas estão somente tentando entregar o melhor produto possível. Mesmo pressupondo 100% de boas intenções, problemas sérios podem acontecer – e acontecerão,  porque para operar na escala dos bilhões, é impossível impedi-los.

Construção de oligopólio ou otimização de eficiência?

As empresas mais importantes da Internet recriaram a economia em vários formatos. A capacidade de se crescer a quantidade de clientes de alguns milhares para centenas de milhões num curto espaço de tempo levou a novos paradigmas de gerenciamento e estipularam metas de produtividade que não podiam ser conseguidas antes. Empresas como o Google estabeleceram novas regras em indústrias tão diferentes como construção de data centers até transmissão de dados em fibra ótica. Essa superprodutividade levou ao cenário que a Economist desenha como potencialmente perigoso. Em questão de anos, companhias podem passar de start-ups a gigantes corporativos, cuja influência no mercado e na política pode ser inalcançável. Lobby em cima de diversos governos, transferências de dinheiro entre offshores que não recolhem impostos, aquisições que criam oligopólios e que desestabilizam as leis dos mercados. Empresas com valor de mercado bilionário produzem cerca de 60% do PIB americano e essa concentração está se acentuando.

Quanto cada companhia de tecnologia faz anualmente por funcionário

O modelo das start-ups, responsável pela criação do sucesso e eficiência do mercado de tecnologia tem cada vez menos impacto na livre concorrência. 90% das empresas que começam nas garagens e dormitórios de universidades na costa Oeste americana não chegam a virar empresas, sendo adquiridas antes por corporações que assimilam os talentos e cortam uma possível competição futura logo na raiz. Há quem diga que o modelo das start-ups é uma espécie de terceirização dos departamentos de pesquisa e desenvolvimento. Em vez de manter um departamento de R&D, as empresas compram projetos que tenham se tornado viáveis. Não é um argumento tolo, mas viciado. Gigantes como os tecnopólios americanos também matam a concorrência antes que ela apareça e o usuário fica com menos opções. Segundo as leis do mercado, quanto menos concorrência, pior o produto oferecido. Pode ser que Peter Thiel esteja certo e a competição seja uma coisa para “perdedores”. O que ele não leva em conta é que entre os perdedores estão todos que não sejam os donos ou acionistas dessas empresas.

Tecnologia está ajudando a repaginar 2016 como um 1933 moderno

Depois de uma crise econômica que somente os muito ricos não sentiram, ocorreu uma radicalização política que trouxe de volta à mesa temas que a calmaria política havia afastado: imigração, inflação, pobreza, desemprego, incerteza. Desse cenário, emergiu um personagem populista, demagogo, com amplas lacunas de ignorância, que liderou pesquisas com um diálogo de xenofobia, intolerância, militarista e intervencionista. Você pode ver esse estado de coisas nos EUA com Donald Trump, no ‘Brexit’, na evolução da direita na França e Alemanha, mas a descrição acima não é atual – é a da ascensão do nazismo e fascismo antes da II Guerra. E agora como antes, a tragédia parecia improvável até que ela aconteceu.

Hitler não tinha uma rede social quanto bolou um golpe militar numa cervejaria uma década antes de subir a poder, mas se pudesse, ele certamente teria querido uma. Em certos cenários, as mídias sociais podem ser máquinas de produzir ódio e teorias da conspiração que levam, na sua maioria, a uma ira venenosa, que indispõe as pessoas ao diálogo. A caixa de autoreverberação de um Facebook ou Twitter, por exemplo, é um experimento sem paralelo, que criou hubs de raiva, normalmente nas mãos de quem é mais extremado.

Nenhuma das redes se propõe a isso, claro, mas isso não importa. Trolls e recalcados adoram microcosmos onde eles possam sair da sua insignificância. O discurso racional não é atraente para o algoritmo e vomitórios hidrofóbicos se alastram exponencialmente por conta do funcionamento das redes viabilizados pelas mídias sociais. Extremistas e extremados se enterram na própria razão porque não vêem mais opiniões contrárias dentro do seu círculo imediato porque a Internet esconde o que você não quer ver. Lentamente, os hidrófobos vão aumentando a certeza de suas ideias e perdendo a capacidade de debater – que é o cerne da civilização. Em resumo, ninguém mais quer ser feliz – todo mundo só quer ter razão.

Qual o papel da mídia nesse cenário? A mídia parece ter esquecido da sua função de checar a realidade. A máxima vale para a maioria dos regimes democráticos. Mesmo empresas com padrões altíssimos de protocolo e qualidade como o New York Times, foram tragados para dentro da guerra ideológica desse momento de radicalização. A verdade é que avanços tecnológicos comumente vêm com uma tragédia embutida. O desenvolvimento da química tornou a I Guerra Mundial numa chacina desumano com o uso de armas químicas; o aperfeiçoamento dos aviões fez o mesmo na II Guerra e assim por diante. A tecnologia não é boa nem ruim – mas seu uso pode ir do sublime ao catastrófico.

Donald Trump é uma grosseira armação escatológica reacionária, prova cabal de que a democracia fracassa frequentemente, mas ele recebe sem dúvida um tratamento mais agressivo por parte da mídia “liberal” (entre aspas, porque, o termo no Brasil tem uma conotação diferente do que no resto do mundo). Sim, ele provoca esse tratamento, e até lucra com ele (estima-se que sua campanha tenha gerado o equivalente a US$2 bilhões em mídia gratuita até aqui), mas o buraco é mais embaixo. Ficou praticamente provado que o partido Democrata fraudou a candidatura de Hillary Clinton porque acreditava que numa disputa polarizada entre Bernie Sanders e Trump, o resultado seria mais incerto.  Por essa aparente armação, a candidata quanto o partido foram submetidos a uma crítica que corresponde a uma fração do que deveria. Como dizia Getúlio Vargas, “para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei”.

Cobertura “imparcial” é uma invenção delirante de autores de manual de redação. Nada humano é imparcial. A variação é que podem haver coberturas bem-feitas ou mal-feitas. Toda cobertura é originada com viés porque é um traço irresistível do comportamento humano.

Aqui cabe a pergunta: se uma publicação, por melhor que seja, sabe que um político disse uma mentira e que seus seguidores acreditarão naquela mentida de qualquer jeito (uma vez que vivem imersos em teorias da conspiração), a publicação (ou rede social) pode, de maneira ética, omiti-la? No caso do Facebook, houve ou não má-fé quando os seus editores “limitavam” o alcance de artigos/discussões claramente republicanas? Eles realmente limitavam ou simplesmente reagiam segundo seus princípios e credos? Dá para se despir de todo o seu preconceito?

Uma mentira dita mil vezes…

Na última conferência da Online News Association, a diretora de produto do Facebook, Fidji Fimo, disse que a empresa leva muito a sério o alastramento de notícias falsas. Provavelmente a política da empresa seja essa mesma. O modelo de negócios do Facebook está sentado em cima da confiança dos usuários e manipulações deliberadas seriam um tiro no pé, algo que sua direção raramente faz. A empresa ja deu provas que tem essa preocupação. No episódio da suposta manipulação dos Trending Topics por editores, a resposta veio rápida, com a demissão e desmontagem do time que cuidava da ferramenta e a algoritmos para escolher os temas mais discutidos.

Mas e se o Facebook (e outras empresas que tiram lucros surreais desta gestão de informação) não puderem fazer nada a esse respeito? E se podem/puderem, devem ser os únicos a ter essa responsabilidade? Como a digitalização das relações interpessoais alterou o desenho das mesmas?

Este é o cerne do problema das bolhas de informação. Aliás, “The Filter Bubbles”, é o título de um livro sobre o assunto. Eli Pariser, o autor, basicamente argumenta que os algoritmos, ao filtrarem incessantemente a informação que chega até nós, neutralizam qualquer possibilidade de exposição a novas idéias, opiniões diferentes, discussão. Sabe aquele seu amigo malinha que vive te dando alfinetadas no Facebook? No mundo virtual das redes, frequentemente esse é o único contato que você tem com pessoas que discordam de você.

Os titãs informacionais americanos não provocam o surgimento das bolhas em si, mas o modelo de negócios deles é favorável a isso. Grosso modo, redes sociais ajudam você a se conectar com as pessoas com quem você concorda. O Facebook quer que você fique feliz e é muito mais fácil deixar você contente te mostrando opiniões parecidas com as suas. Você feliz é um cliente muito mais afável e propenso a comprar coisas oferecidas pelos anunciantes, que por sua vez, pagam rios de dinheiro para colocar a carinha deles no meio da sua felicidade.

Ninguém em sã consciência discorda que o meio digital redesenhou a economia global. Há estudos sobre isso e basicamente nenhuma controvérsia. As relações não-financeiras entre pessoas sofreram uma mutação radical também. Os contatos entre conhecidos e menos conhecidos passaram a ter sua gênese nos cálculos que os complexos algoritmos de gerentes da nossa vida digital e isso tem implicações. Um estudo de um pesquisador canadense tem um argumento consistente: se algoritmos determinam boa parte da vida das pessoas, não seria justo pensar que eles não pudessem ser caixas-pretas, como os usados por Facebook, Google e outros gerentes da nossa vida digital? E por outro lado, seria justo que as empresas revelem segredos comerciais em cima de uma percepção da realidade que é totalmente opinativa?

Entre 1922 e 1936, preconceitos e intolerância que estavam latentes na Europa fizeram com que sete países (Itália, União Soviética, Áustria, Alemanha, Portugal, Espanha e Grécia) ganhassem líderes extremistas cujos motes eram exatamente iguais aos defendidos por Trump, Le Pen e afins. A retórica beligerante que ganhou um sensível espaço depois do solavanco econômico de 2008 é preocupantemente similar à do início do século passado. No período anterior à II Guerra,a  tecnologia não teve um papel relevante da radicalização do cenário político-social tão preponderante quanto hoje.

Democracias consolidadas como EUA, França e Inglaterra, hoje vêem discursos beligerantes ganharem relevância eleitoral. Essa intolerância nasce, creia ou não, na sua reação ao seu amigo malinha te dando alfinetadas por conta de credos políticos divergentes numa rede social. Da próxima vez que essas provocações infantis começarem, procure-o(a) e tente entender o ponto de vista dele, explicando o seu. Mais do que evitar de perder um amigo, esse gesto pode ajudar a desinfetar uma sociedade que cada vez mais está infeccionada.

 

 

O meio é cada vez mais vital que a mensagem

O mercado de tecnologia está com uma febre alta – e há anos. Os preços de startups surgidas do nada explode e suas aquisições entram na contabilidade como investimentos simplesmente baseados na avaliação feita por ‘criatividade contábil’. Uma das febres mais agressivas é ao redor dos apps de mensagens, que gera quedas e elevações de ações simplesmente por artigos assinados em publicações de Wall Street ou tecnologia. Por baixo desse sandice financeira, os continentes estão definitivamente mudando, mas o ‘hype’ é grotescamente maior do que a realidade jamais permitirá. Continue reading “O meio é cada vez mais vital que a mensagem”

A nova meta da notícia é encontrar o seu leitor

Houve um tempo, não muito distante, onde a modelação de conteúdo para uma publicação era mais simples: as matérias eram feitas segundo as convicções das redações e acontecimentos dos nichos abordados. As audiência iam atrás do que queriam ler. Mas isso acabou. A informação não segue mais o mesmo sentido nem obedece a formatos pré-estabelecidos. A produção de conteúdo ainda pode seguir padrões e critérios de qualidade, mas o mais importante é que ela consiga encontrar o seu leitor e não o inverso, que era o caminho anterior. Lidar com o novo ambiente é um desafio que ainda gera mais perguntas que respostas. Continue reading “A nova meta da notícia é encontrar o seu leitor”

Ameaçada, indústria de notícias dá indícios de evolução

Nesta semana, em Londres, o evento News:Rewired reuniu profissionais da área para discutir o futuro: jornais,  notícias, mídias sociais e variantes. Infelizmente eu não pude ir, mas um brilhante wrap-up do evento foi feito por um colega de trabalho, Simon Garner, o Head of News do Yahoo no Reino Unido. E sim, as corporações batem cabeça, sim, a maioria dos jornais está cavando a própria cova e sim, a luta contra o processo digital é a típica reação do velho fadado a sucumbir ao novo. Mas apesar de tudo isso, tudo indica que perspectivas entusiasmantes estão surgindo para a indústria e a sociedade só pode comemorar. Continue reading “Ameaçada, indústria de notícias dá indícios de evolução”

O que a queda do crescimento do Twitter quer dizer

E o crescimento do Twitter está caindo. Sim, é uma frase esquizofrênica em si só, porque alinhada com as expectativas desgovernadas de um capitalismo disfuncional. Contudo, a redução do passo do Twitter não é um sinal ruim para seus usuários e não deveria ser nem para investidores ou para o mercado como um todo. A desaceleração tem mais a ver com a maturidade da plataforma do que com um enfraquecimento da mesma (que sob o ponto de vista operacional é muito sólida. O equilíbrio do Twitter tem mais a ver com velocidade de cruzeiro do que com colapso nos motores. E essa não é o único ponto positivo do cenário. Continue reading “O que a queda do crescimento do Twitter quer dizer”

Redes do futuro serão ilhas de conhecimento hiperconectadas

As empresas de tecnologia têm invariavelmente um tom libertário no seu marketing, especialmente quando estão na fase de crescimento exponencial (como o famoso anúncio da Apple no SuperBowl de 1984). Contudo – e cada vez mais – uma vez que assumem o papel de superpotências, tornam-se exageradamente protetoras de seus direitos. Não querem fazer concessões para competidores menores, espremem usuários que não têm alternativas e, mais recentemente, têm pouca cautela com a privacidade dos usuários ao mesmo tempo em que são radicais para evitar o compartilhamento dos dados que esses mesmos usuários disponibilizam. Isso não muda o fato de que trata-se de um adágio que não tem futuro a longo prazo. O futuro pertence às redes que mais viabilizem plataformas de conexão e compartilhamento de dados. Redes “fechadas” tendem a se isolar. Continue reading “Redes do futuro serão ilhas de conhecimento hiperconectadas”

Valor da informação depende de princípios, modelos de negócio e tecnologia

Quem se importa com informação? A pergunta parece um tanto quanto inofensiva, mas ela está na base de como o mercado de notícias vai se estruturar no futuro. Em última instância, todos os argumentos que tratam do jornalismo como um bem social, um recurso valioso para o funcionamento da sociedade, são frágeis. A definição do futuro dos meios de comunicação será determinada – como todo o resto – pelas premissas econômicas. O que a sociedade precisa fazer é achar um modo de encaixar suas demandas por informação nessas premissas. Senão, vai acabar com discursos empolados e vazios como os que fazem os acadêmicos que vivem num mundo que não existe. Continue reading “Valor da informação depende de princípios, modelos de negócio e tecnologia”