Escoriocracia: como a tecnologia coloca o pior da sociedade no poder

 


Quase que só no âmbito jornalístico ou nos mais sofisticados ambientes intelectuais é que se discute no Brasil a crescente pressão do cenário político americano que é fruto de um fenômeno mediático e tecnológico. O evento das fake news é muito mais profundo do que a compra de anúncios no Facebook por indivíduos russo supostamente a mando de Vladimir Putin. Em questão no episódio está uma notória incapacidade do país mais rico do mundo em regular a própria mídia, seja por meio de agências reguladoras ou legislação, seja por instrumentos que uma sociedade civil bem desenvolvida obrigatoriamente deveria ter. Mais do que uma piada prevista pelo criador dos Simpsons  há mais de uma década, a ascensão de Trump é só uma pústula num ferimento muito mais sério que é a dissociação de imensas partes da sociedade americana de sua imprensa, de suas elites de do governo como um todo. A brilhante montagem da Economist na sua edição desta semana é uma charge que anda no limite entre o humor e o terror, extremamente precisa na sugestão que faz de como o negócio bilionário das mídias sociais foi fundamental no desvirtuamento de um ambiente democrático que já vinha apodrecendo. O papa Francisco disse que o mundo parece cada vez mais se dirigir à guerra. Todo papa sempre diz isso, mas por coincidência ou não, essa previsão do pontífice parece profética.

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Já há informação em excesso – o desafio agora é como validá-la

odos os dias, um bilhão de posts são carregados no Facebook; 400 milhões de tweets são postados no Twitter e por mês, somente o WordPress publica cerca de 40 milhões de novos artigos. Não estamos atingindo a saturação agora – já a ultrapassamos há muito tempo, mas esses números só tendem a aumentar. Por isso, empresas jornalísticas que não querem ir parar empalhadas em museus de história natural devem mudar seu foco. Não é preciso criar mais informação nova, mas sim validar os feeds absurdamente grandes que já existem. Continue reading “Já há informação em excesso – o desafio agora é como validá-la”

Facebook + WhatsApp apontam novo setor que precisa de regulamentação

Poucos dias depois de assombrar o mundo e dividir opiniões comprando o WhatsApp por US$19 bilhões, Mark Zuckerberg deu um jantar na sua casa em Barcelona. Ele dividiu a mesa com os 20 executivos mais poderosos da indústria de telefonia e o prato do jantar foi o mercado global de SMS. O criador do Facebook quis acalmar os ânimos dos donos da indústria, que estima-se tenha deixado de faturar US$33 bilhões em 2013 com o dreno causado pelo WhatsApp. Mas quando Facebook e as maiores empresas de telefonia se encontram decidindo os interesses que basicamente afetam o mundo todo, dá para notar que a coisa está ganhando uma nova grandeza. O encontro das duas forças sugere um acúmulo de forças nas mãos de um  grupo pequeno de players a ponto de ser necessário começar a se pensar em regulamentação. O Estado não tem de entrar no mercado – só tem de garantir que ninguém o domine. Continue reading “Facebook + WhatsApp apontam novo setor que precisa de regulamentação”

Falência do ensino tradicional ameaça noção do valor do estudo

O modo pelo qual o mundo gera e acumula conhecimento segue um modelo de pouco menos de um milênio. O molde da pesquisa ainda se baseia num embrião que emergiu da escuridão da Igreja Católica medieval. Empirismo e teoria se condensaram através dos séculos para formar os profissionais que desembocaram o mercado de hoje. Entre as muitas coisas que a revolução digital pôs de cabeça para baixo está esse modelo. A lógica vale para muitas áreas, mas na comunicação é que o ciclone é sentido de forma mais arrasadora. O tempo que uma pesquisa leva para ser feita, redigida e publicada basicamente invalida a mesma em termos práticos. Na prática, trends e regras de conduta envelhecem em semanas com a adoção de um novo algoritmo, um script mais enxuto, a instalação de um novo módulo ou a nudança para uma nova linguagem ou tudo isso junto. A implacabilidade do digital vai exigir outra pesquisa ou a própria pesquisa vai ser deixada para trás. Continue reading “Falência do ensino tradicional ameaça noção do valor do estudo”

Hiperconectividade derruba cobertura vazia das TVs nos protestos

Trinta anos atrás, o Brasil assistiu a maior mobilização da sociedade pós-golpe com o pedido de eleições diretas para presidente. Naquela época, mesmo já trabalhando sem censura na prática, o país não teve a real noção da extensão do movimento. Já a maior emissora de TV do país, a Rede Globo maquiou a cobertura a ponto de seus profissionais serem ameaçados nas ruas e a empresa ter equipamento e veículos danificados pelos participantes dos comícios que eram sempre subdimensionados pela sua cobertura. Três décadas se passaram e a parcialidade jornalística voltou à tona em praticamente todas as emissoras, mostrando as passeatas que ocorrem pelo país primeiro com descaso e depois com um tom fortemente reprovatório, insistindo em chamar a atenção aos “baderneiros”.

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Mídia brasileira vive divórcio completo da realidade

Ontem, por volta das 21h, quem estivesse sintonizado no Sportv em algum lugar distante, sem contato com a Internet ou adjacências da Grande São Paulo, veria um cenário idilíaco: Galvão Bueno, a voz oficial do Brasil, recebendo convidados em seu programa “Bem Amigos”, num cenário montado nas piscinas de um luxuoso hotel em Fortaleza. Enquanto isso, São Paulo estava literalmente tomada por uma multidão protestando. O contraste é icônico. A mídia fala de uma sociedade que não existe para uma audiência entorpecida por anos de cabresto. Continue reading “Mídia brasileira vive divórcio completo da realidade”

O atropelamento da mídia no #protestosp

Qualquer meio ou indivíduo fala para um público. Ninguém fala para as paredes. Na última semana, os meios no Brasil ficaram, sim, falando com a parede até que foram atropelados por uma avalanche digital. Não se tratava de jornalismo, mas de uma conversação pública que jamais tinha ocorrido. Depois de dias negando o inegável, uma após outra, as empresas começaram a ver que era melhor abandonar alianças convenientes porque o “outro lado” é basicamente a audiência toda. Datenas, Galvões, Biais, Schmidts, Estadões e variantes, provaram pela primeira vez a sensação de que eles não estão mais no controle. Numa comunidade inserida numa rede como a Internet, dominar um único grafo, por mais poderoso que ele seja, não significa nada. Continue reading “O atropelamento da mídia no #protestosp”

Partidos Piratas são primeiro movimento genuinamente pan-europeu

Sob o ponto de vista da sociedade, não existe uma coisa chamada “Europa”. Esse tem sido o grande desafio dos políticos pró-União Européia. O continente é dividido demais em raças, línguas e credos para que se consiga estabelecer um elemento forte de união entre os cerca de 800 milhões de habitantes que vão da Grã-Bretanha até os Montes Urais ou o Estreito de Bósforo. Os britânicos, não surpreendentemente chamam os demais habitantes do continente de “os europeus”. Mas na política europeia um fenômeno recente está ganhando força: a ascensão de partidos cuja preocupação primordial são a liberdade de expressão e a neutralidade da web – os Partidos Piratas. Continue reading “Partidos Piratas são primeiro movimento genuinamente pan-europeu”

Mídias sociais causam mais caos em Boston – e arrastam o jornalismo

Para qualquer entusiasta das mídias sociais e seu uso no jornalismo, a semana passada foi uma tragédia. Ou melhor, uma tragédia dobrada. A tragédia em si foi o atentado sem sentido (cabendo a discussão sobre se algum atentado tem sentido) na maratona de Boston. Jornalisticamente, a devastação veio na cobertura da caça aos responsáveis, onde incompetentes bem-intencionados e oportunistas inescrupulosos se transformaram num exército de Brancaleone e onde a própria mídia tradicional não sabia se corria atrás do turbilhão digital ou se perdia audiência para informar direito. O episódio deixou claro que não existe “jornalismo-cidadão” e que, embora indispensáveis para a coleta de informação, as mídias sociais não bastam para substituir o jornalismo. A sociedade precisa de jornalistas e empresas adequados à nova realidade. Sem eles, haverá um preço a pagar. Continue reading “Mídias sociais causam mais caos em Boston – e arrastam o jornalismo”

O cerco fecha e Internet tem cada vez menos liberdade

A ideia de que a Internet é um livre parlatório da sociedade é freqüentemente tida como verdadeira. A ideia de uma ágora virtual é agradável e catalisa os entusiastas da geração informacional que entrou na vida adulta com a web fora de seu período embrionário. Só que essa liberdade é muito mais frágil do que possa parecer. E os mocinhos da história podem perfeitamente virar vilões de uma hora para a outra. Continue reading “O cerco fecha e Internet tem cada vez menos liberdade”

Disputa teórica dificulta novos formatos de jornalismo

Não há jornalismo sem jornalistas. A máxima parece óbvia, mas não é. Em particular para dois grupos: professores de jornalismo que ainda discutem a Teoria da Seringa Hipodérmica e profissionais que ainda conseguem distinguir jornalistas e “jornalistas” (a aspa serve para diferenciar os “profissionais” dos “amadores”). De uma discussão inexistente criou-se uma disputa radical sobre quem é dono do jornalismo do futuro. E enquanto se briga pelas sombras da caverna, perde-se de vista o realmente relevante – quais são os modelos de negócio e formatos do jornalismo de amanhã. Continue reading “Disputa teórica dificulta novos formatos de jornalismo”

Jornalismo e TI são as funções das publicações do futuro

Um dia, o papel do jornalista foi informar e o do jornal, publicar essa informação. Provavelmente os primeiros periódicos a rodar sob as então recentes prensas idealizadas por Gutenberg. Pouco mais de quatro séculos depois , o jornalismo está mergulhado em sua maior reformulação estrutural e essa distinção das funções  de ambos ficou borrada. Publicações e jornalistas foram submetidos a uma mutação estrutural que vai deixar pelo caminho quem não quiser se adequar. Continue reading “Jornalismo e TI são as funções das publicações do futuro”