“Fake News”, o filho bastardo psicótico do jornalismo

Quando, na madrugada de 9 de Novembro,  Donald Trump fez seu pronunciamento já como presidente eleito, a América liberal (e o mundo) sentiu um frio na espinha digno de filmes de terror. Trump, numa excitação quase histérica, anunciava a capitulação democrata após um longo e sangrento combate diante de uma sociedade atônita. Naquela noite, o status quo do jornalismo americano, que dava a derrota de Trump como favas contadas, recebeu uma muqueta na boca e beijou a lona, entrando num estado confusionário na busca por respostas. Naquela noite,Trump fez o parto da entidade fake news como o culpado mais provável por uma eleição histórica. Juntamente com os termos “surreal” e“pós-verdade”,  as fake news podem representar uma oportunidade épica para o jornalismo – ou a pá de cal num moribundo em coma.

Todos os ano, o Google faz um wrap-up da faxina que faz no seu inventário de ads. No relatório deste ano, uma varredura que desse conta da vedete maligna das notícias inventadas era aguardada – e até aconteceu. Só que o core da fiscalização da empresa de Mountain View mirava em conteúdo falso destinado a bombar a venda de produtos, como pro exemplo, remédios falsos ou que enganam compradores. Sites destinados à criação de matérias do tipo “Papa Francisco choca o mundo ao anunciar apoio a Trump” continuaram a circular livremente, não sendo alvos primários da Inquisição algorítmica.

Investigações complexas têm surgido na mídia desde a eleição do midiático empresário buscando mostrar factualmente que a eleição foi fraudada. Gráficos, listas e análises (como essa da Digiday) são recorrentes e em alguns casos, até levantam pontos interessantes e revelam, justamente, um problema com atribuição de credibilidade à Internet que é relevante e preocupante, mas a trave está longe do lugar onde a bola foi. O alicerce do problema, ou melhor, o problema da imprensa é que os seus próprios alicerces estão  – muito – comprometidos.

(Falta de) Confiança do público

Jamais a mídia esteve tão descolada da audiência. Culpe o que você quiser – falência do modelo de negócios tradicional, impacto do digital, mídias sociais. O que sai no jornal não é mais verdade, pelo menos no que diz respeito aos leitores. A conclusão do dicionário Oxford de que o termo “pós-verdade” é a palavra do ano passa pela questão da confiança. Historicamente, dizer uma mentira (ou uma falsidade – entenda a diferença nas palavras do editor do Washington Post) era um recurso de curtíssimo prazo. Na atual conjuntura, definir “verdade” passou a ter um elemento opinativo e isso também ajudou a sangrar os jornais no longo prazo – e agora é a hora em que estamos vendo a poça de sangue no chão.

Num mundo onde o culto da personalidade ficou obscenamente profícuo, as aparições públicas (algo que todo mundo faz ao postar em qualquer plataforma aberta), por mais estúpido que seja, a importância de determinar a verdade diminuiu. A disputa acoplou a verdade ao sucesso no debate. Se você ganhou a briga, levou o prêmio, mesmo que tenha roubado. As discussões importantes do mundo se transformaram num Fla-Flu com árbitro ladrão, aliás, num Fla-Flu onde você não sobe a campo só com seu time, mas leva seu próprio árbitro. Uma vez que você ganhou o bate-boca, ninguém volta para ver se você está mentindo. O presidente americano Donald Trump é o maior representante da seita radical da pós-verdade opcional.

O debate acerca do assunto está fortemente ligado à eleição de Trump. A Era Trump foi quem deu nome à entidade fake news, embora ela sempre tenha existido, porque a América Liberal, especialmente judaico-cristã, precisava de um inimigo, um dybbuk, para expiar a culpa da eleição de um candidato que declarou guerra à essência do sonho americano. Trump é a síntese do que os EUA juraram não ser e ele chegou ao poder.   Então como agora, tal realidade não pode ser verdade – tem de ser mentira. A negação diante de tamanho horror segue a lógica de Theodore Adorno quando ele observou que a verdade no nazismo era tão desgraçada que não merecia ser chamada de “verdade”.

A Inquisição Digital (do “bem”)

Em 2017, a qualquer momento, 3 a cada 5 entre os artigos trending nas redes sociais são a respeito do apresentador do The Apprentice (10 a cada 12 se a categoria for de “Notícias”). Trump não teve incertezas ao nomear seu time de governo. Ele tem um cubano ligado aos anticastristas de Miami, um general aposentado com gosto por teoria da conspiração, um conselheiro que tem opiniões facilmente ligadas ao fascismo e outra que sugere que há “fatos alternativos” aos que a imprensa mostra, um porta-voz caricato que bate boca com jornalistas. Ou seja, Trump pariu os fake news e está apaixonadamente embalando-os com um time radical de preparo questionável que tem a mesma vocação para a política e diplomacia que Godzilla chegando em Tóquio.

O quadro surreal (termo escolhido por outro dicionário, o Merriam Webster, como a palavra do ano) foi a desculpa para se iniciar a maior ofensiva midiática contra um presidente já vista. Além do combate político óbvio, dadas as medidas de governo do governo Trump até aqui, mídia, ONGs, sociedade civil e empresas de tecnologia se sentiram na obrigação de abrir uma caça às fake news, supostamente o útero maligno que trouxe ao mundo um presidente em guerra com o próprio país. Ou melhor, parte do país, porque Trump não foi eleito por uma minoria racista, milionária, evangélico-judaica que odeia negros, hispânicos, estrangeiros, intelectuais. Mais de 60 milhões de pessoas decidiram sair de casa e votar nele (falei disso neste texto aqui).

Empresas de tecnologia, jornais, jornalistas e outros começaram uma cruzada para acabar com as fake news como se elas tivessem elegido Trump e não a circunstância de um momento no qual a elite intelectual e corporativa dos EUA negligenciaram os 99% que ocuparam Wall Street. Os sites de notícias sem ligação com a realidade jamais foram tão fortes e significativos. É com o se o Der Stürmer de Julian Streicher, o primeiro-jornalista do Terceiro Reich, tivesse ganhado o Buzzfeed de presente. A imprensa está em guerra aberta com Trump e não tem nem vergonha de dizer isso, porque considera a luta contra Trump o equivalente das Cruzadas para o catolicismo medieval.

Raiz do problema não é de hoje

O jornalismo e os jornais não foram obliterados pela consolidação trumpista dos sites que dizem que Hillary Clinton tem um clone diabólico ou qualquer outra coisa. Eles foram arrastados para a irrelevância pelo distanciamento que tomaram da sociedade, lentamente, enquanto deixaram que a administração Bush mudasse a confuguração geográfica dos distritos eleitorais dos EUA, compactuassem com a invasão do Iraque sob a desculpa das armas químicas, permitiram que nenhum dos banqueiros responsável pela crise de 2008 fosse preso, tergiversaram enquanto a administração Obama perseguiu ilegalmente seja Julian Assange quanto Edward Snowden et al.

Enquanto o impacto do digital corroía as contas dos grandes meios de comunicação, a elite intelectual jornalística se esquecia mais e mais de servir à sociedade a ponto de fazer todas as escolha citadas acima. Sim, houve uma transferência de poder das empresas de comunicação para as de tecnologia, mas, não, as responsabilidades pela degradação da relação entre jornalistas e sociedade não são só conseqüências desta migração. As notícias falsas surgiram na esteira da atmosfera venenosa, intransigente e intolerante que o mundo cultivou nos últimos vinte anos e não como sub-sintoma de um movimento para fraudar eleições. A Inquisição digital em curso se classifica como sendo “do bem” e de um modo geral, até é mesmo. Infelizmente ela não faz uma autocrítica para avaliar os erros que seus inquisidores cometeram e isso faz toda a a diferença.

Pouca gente nota, mas o tipo de conteúdo mais disseminado na Web – os discursos opinativos caça-likes que falam para as audiências mais amistosas – são uma variável sofisticada de fake news. Mesmo quando não há distorção de fatos (e mais sempre do que nunca, há), o rocambole de opinião com desqualificação de críticos e fatos que debilitaram o argumento tem um efeito devastador no cerne da democracia, a discussão de ideias como ferramenta darwinista de se chegar à conclusão mais positiva para a sociedade.

Em suma: ficar revoltadinho descendo o pau no seu desafeto para que seus amiguinhos curtam e compartilhem é adubar a terra para que as fake news se espalhem. A informação falsa não é somente factual. O “debate” acerca de um assunto entre pessoas de uma opinião só é tão ilegítimo quanto a postagem de um hoax. A infecção que essa falsa discussão causa é da mesma natureza que a notícia baseada numa mentira. As fake news são um filho bastardo do jornalismo, um filho cujo reconhecimento da paternidade é o primeiro passo para atacar as causas do problema.

Só agora, com um evento mais relevante como a eleição de um presidente dos EUA é que o fedor começa a sair do ralo, mas o esgoto está onde sempre esteve. As fake news não são uma oportunidade ou ameaça para o jornalismo. Elas são um sintoma de uma mudança de paradigma que os filósofos precisarão explicar. O ser humano aceitou abrir mão da verdade, conscientemente, para se sentir mais realizado. Num cenário assim, o jornalismo não está sobre ameaça – ele não faz mais sentido, porque sua própria natureza depende desta busca pela verdade que permeia a civilização. A mídia tradicional (digital ou não) permitiu que a audiência refletisse se quer ou não a verdade. E sem a verdade como pilar, os jornalistas não existem e a sociedade fica sem alicerce.

Foto de filipe ferreira

A jornalista do NYT que desvenda o Estado Islâmico [Wired]

Rukmini Callimachi é a jornalista mais ‘fodona’ do New York Times e não é só por estar na empresa jornalística mais icônica do Ocidente: ela cobre as andanças e peripécias doentias do Estado Islâmico e acompanha todos os desdobramentos da ação do grupo pelo mundo. Essa excelente entrevista da Wired traz Callimachi por si mesma e não “só” no que ela faz no jornalismo. Continue reading “A jornalista do NYT que desvenda o Estado Islâmico [Wired]”

Só ouvir o que quer vai te levar a duvidar até dos fatos [Poynter]

Estudos indicam que as redes sociais tiveram um forte impacto na discussão pública no mundo. Como os algoritmos tendem atender às preferências dos usuários, estes estão cada vez mais sendo expostos a opiniões semelhantes às dele e assim, impedindo a discussão que é a base da democracia. Essa matéria do Poynter Institute sugere que esse viés de confirmação está chegando ao ponto de as pessoas não acreditarem mais nem em #fatos comprovados, caso estes não estejam em sintonia com os próprios credos.

Reading lots of partisan news online makes you more likely to hold inaccurate beliefs even if you are aware of the prevailing evidence

Extinção de vagas pode migrar dos jornais para as agências [Contently]

Nos últimos dez anos, or jornais começaram a cortar mais e mais vagas em função do digital, mas uma nova tendência – a produção de #native ads nas redações, pode fazer com que jornais voltem a contratar e as demissões venham a acontecer nas agências de #publicidade.

68% das redações nos EUA usam jornalistas para criar conteúdos para native ads.

O inverno está chegando e ele vem num ‘ad blocker’

Um anticristo digital que dormia em silêncio há anos despertou e está impondo o terror nos domínios de largos setores da indústria de mídia. Os adblockers tinham alguns limitadores de funcionamento e alcance, mas eles foram basicamente dizimados pelas últimas versões do iOS e browsers. Assim, um  jato de terror atingiu a esfera das publicações e vai englobar também as agências de publicidade, os crupiês da maior parte da receita do setor de mídia. Um inverno se aproxima para publicações, publishers e agências. A única saída possível está em num mercado redesenhado, sem fraude, bots nem métricas mentirosas.

Hoje, nos EUA, somente cerca de 26% dos usuários têm bloqueadores de anúncio em algum dos seus dispositivos, mas essa quantia deve aumentar em 24% em 2017. O número, contudo, vai aumentar mais rápido nos países em que a conexão à Internet é inferior. Os ads exibidos numa página podem chegar a fantásticos 80% do peso da página ou aplicativo e esse número faz diferença.

A adoção de ad blockers pelos usuários é uma alforria da parte de uma audiência que jamais teve a oportunidade de ser consultada. Até aqui, marqueteiros e publicações decidiam o que fazer segundo suas próprias prioridades. Isso fez com que a tecnologia usada nos complexos mecanismos de rastreamento e retargeting tenha se desenvolvido sem preocupação com a experiência do usuário. O código das páginas é extremamente poluído com linhas de anúncio. Com o crescimento da quantidade de bloqueadores, publicações e agências estão querendo dizer “Me desculpe por não ter me preocupado com sua experiência, mas de agora em diante, levarei isso em conta”. Só que o usuário está respondendo “Agora, não quero mais saber. Vocês que se danem”.

A choradeira de uma indústria que tem o arrependimento do pecador antes de morrer vai adiantar pouco. O ritmo de adoção dos bloqueadores não vai diminuir. Se for mantida a taxa de 25% prevista para 2017, a próxima década terá esses dispositivos em quase todos os aparelhos e ao contrário de tendências que são opcionais ao consumo, é pouco provável que alguém venha a deixar de usá-los. Ou seja, não há um retorno previsto. É uma passagem só de ida.

A coisa piora quando você leva em consideração que esses bloqueadores de anúncios nos browsers são uma garoa diante do dilúvio que representam as possibilidades de hardware e serviços. Há tecnologia suficiente para permitir que operadoras de celular incluam ad blockers diretamente no serviço de dados, levando a exibição de anúncios a 100%. A mesma coisa vale para fabricantes de smartphones e tablets. Uma guinada do gênero poderia dizimar a indústria de publicidade em questão de apenas alguns anos, especialmente porque quanto mais jovem o público, mais propenso a não aceitar anúncios – especialmente aqueles que rastreiam você pela Web como um cão hidrófobo.

English: The new logo of Adblock Plus (an ad b...
O logo do Adblock Plus (ad blocker para Firefox, Chrome and K-Meleon). via adblockplus.org (Fonte: Wikipedia)

E não, não pára aí. Operadoras de serviço e fabricantes teriam condições de, se quisessem, liberassem “acesso” a seus assinantes e compradores somente a seus próprios provedores de conteúdo ou a provedores que quisessem pagar por isso. Sabe o braço de ferro entre Netflix e Verizon? Então – é a mesma coisa. Esse cenário é particularmente assustador. Primeiro, porque fere o conceito de neutralidade da Web e criaria uma competição desleal a favor dos grandes grupos de mídia (ou grupos de mídia pertencente aos donos das operadoras e fabricantes de smartphones). Segundo (e muito mais sério), a prática poderia ir muito além da concorrência desleal, porque daria a governos autoritários a possibilidade de promover censura diretamente nesses gargalos.

Voltando da rápida digressão sobre neutralidade de rede: o cerne do problema ao redor dos ad blockers é a ineficiência do modelo de receita do digital, que é uma transposição pura e simples do sistema que funcionava com a mídia tradicional. Prender à força a atenção do usuário não é mais uma alternativa (ou deixará de ser em breve). Pela primeira vez, o monólogo terá de virar um diálogo (isso, claro, supondo que a audiência não guarde mágoa e aceite dialogar).

Sem exagero, o horizonte que se desenha é de caos. Grandes corporações de mídia (exceção feita a Facebook e Google) e agências vão tentar de qualquer modo impedir que o sistema que lhes beneficia se derreta. Mas dois pontos sugerem que a essa era glacial que deve dizimar os dinossauros abra caminho para um ecossistema novo. O primeiro é que a verba de anunciantes não vai diminuir. O mundo fora da mídia segue seu curso normalmente. Um período turbulento para publishers deve vir, mas após uma certa acomodação, ele deve voltar a funcionar.

O segundo ponto é que as audiências não vão consumir somente gatinhos, fotos do churrasco da família, memes sem noção e afins. O tempo dedicado a conteúdo na verdade tende a crescer conforme a tecnologia se renova e o ponto de atrito entre produção e consumo de mídia – a monetização – terá de se resolver de alguma forma. O estrangulamento do modelo de exibição e receita de anúncios não afeta a disposição de tempo dedicado por parte de quem quer ler, ver, ouvir ou interagir. Isso não sugere que tempos róseos estão por vir. Anunciantes, mídia e público não vão desaparecer, mas serão alterados na essência. Períodos transformacionais são normalmente doloridos e traumáticos, mas novas, imensas oportunidades de negócio, aparecerão para quem se mantiver em pé e aborde sua audiência adequadamente. O tempo do “eu-falo-você-escuta”, acabou – para o bem e para o mal.

O momento de mobilização gerado pela incerteza pode ser usado positivamente. Em vez das métricas tradicionais como visualização de páginas, a indústria tem a chance de redesenhar a si mesma. Muitos dos modelos atuais são um conluio corrupto de todos os participantes. Anunciantes pagam valores irrisórios por vastas quantidades de mídia, que por sua vez são amplamente fraudulentas e nas quais a maioria das “visualizações” são ficções geradas por robôs e outras mutretas. Tudo isso supervisionado por intermediários que não têm nenhuma consideração com o consumidor final, empurrando-lhe garganta abaixo experiências ruins e formatos invasivos. Por mais dura que seja a transição, ela representa uma grande oportunidade. Quem a abraçar primeiro, deve pegar a maior parte do prêmio.

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Quer ainda mais? Então ouve o podcast aí:

Crise no jornalismo no Brasil é ‘convite forçado’ à inovação

No Brasil de hoje, qual carreira ou função está “mais” no fundo do poço? Se a avaliação de pisos salariais revela alguma coisa, o jornalismo tem uma robusta argumentação para pleitear o título. Para poder trabalhar como jornalista, teoricamente, é preciso ter um diploma que se consegue num curso de 4 anos. Todos os anos, cerca de 20 mil pessoas preenchem essas condições e entram no mercado com esse título. Elas vão disputar um mercado que tem como pisos valores mais baixos do que os pagos a profissões que não exigem treinamento formal como gari e pedreiro. A hora de resetar o sistema já passou. Ele não vai melhorar.

A lista de pisos salariais da Fenaj não é a lista dos menores valores pagos a jornalistas – há quem pague menos que isso – mas ela serve como guia da desertificação no setor. Ela mostra valores que vão de pouco mais de R$1 mil a R$2.300. Alguns valores passam um pouco disso, chegando  R$4 mil em algumas cidades. Segundo a Catho, o valor-base para um pedreiro parte de R$1,470. Gari, no RJ, tem um salário de cerca de R$1100 que chega a pouco menos de R$2.200 com benefícios. Só professores têm situações ainda mais dramáticas como categoria, com salários tão baixos quanto R$400 mensais.

A equiparação com profissões de treinamento não-formal ou nenhum levanta o óbvio – não há futuro possível para o sistema. Não se trata mais de uma situação que vá melhorar com um novo ciclo econômico de crescimento, venha ele quando vier. Tecnicamente, as maiores empresas de comunicação do Brasil não têm capacidade de investimento em inovação nem crescimento – exceção feita às organizações Globo e Grupo Folha – e vão funcionar nesse purgatório disfuncional indefinidamente.

Há um elemento fiscal forte na degradação do mercado, mas ele não se explica sozinho. A carga tributária que o governo impõe às empresas não é mais baixo em outros setores. O ponto é que a longa transição para o digital, que começou no fim dos anos 80 com a massificação das primeiras tecnologias que facilitavam transmissão eletrônica de informação, foi completamente ignorada pela maioria esmagadora das empresas, que em vez de abraçarem a digitalização antes, foram arremessadas contra o muro digital, pouco antes ou depois da primeira bolha das pontocom, no começo deste século.

O Brasil não difere muito de outros mercados nessa miopia em enxergar a digitalização, exceto por duas razões: a vocação governista da mídia, uma vez que o grande cliente sempre foi o governo e a pequena relevância em termos financeiros dos players de mídia aqui são as bases desse desastre. Segundo a ANJ, a circulação de jornais atingiu seu ápice no Brasil há não muito tempo atrás (2012), quando pouco mais de 8 milhões de cópias eram vendidas por dia, enquanto nos EUA, a circulação passou dos 60 milhões no começo dos anos 90. Nos últimos 30 anos, os EUA perderam cerca de 400 jornais diários, mas ainda têm o dobro de jornais, sendo que 98 deles com tiragem maior do que 100 mil diários, contra 8 daqui.

A deterioração do cenário de notícias no Brasil concentrou a circulação e a receita em queda nas mãos de poucos grupos de mídia e com parte da receita indo para as mídias digitais. Apesar da previsão de crescimento do investimento em mídia ser de cerca de 7% ao ano até 2018, a mídia impressa deve, na melhor das hipóteses, ver sua receita estagnar, enquanto o montante reservado para publicidade no digital deve aumentar num ritmo de 21% nos próximos três anos (especialmente em dispositivos móveis, onde o crescimento passa os 50% anuais até 2018). Aqui, o dramático é que a sangria do impresso tem um vampiro digital de fora da indústria de notícias. Facebook e Google retém 64% da grana jogada no digital. O “ralo” do dinheiro que escoa para as duas empresas de tecnologia não deixa dúvidas de quais as perspectivas: o ecossistema noticioso herdado do período offline não se recuperará em nenhum momento.

Onde está a saída?

Ainda não está claro qual é o desenho e quais as fundações do novo modelo de negócio do jornalismo  – nem no Brasil nem em nenhum outro lugar. Mas é possível dizer o que não dá certo. Por exemplo: nenhuma start-up digital conseguirá sair do vermelho com um modelo de negócio baseado em anúncios. O inventário infinito que joga os preços no chão, somado ao buraco negro criado pelo “Googlebook” e seus 64% de market share assegura que não haverá tração vinda daí porque o resto da indústria não se sustenta dividindo os outros 26% (especialmente porque Globo e UOL engolem a maior parte desse resto).

Fonte: Akamai

Em cima disso tudo, há um sistema educacional falido e em metástase, que não só não produz jornalistas capacitados, graças a diretrizes arcaicas e ricas de um academicismo feudal, mas também mantém a maior parte da população num percentual educacional inferior ao mínimo necessário para o consumo de um jornalismo ativo. É um quadro bastante desanimador.

Para piorar, o fator Brasil infecciona os caminhos mais prováveis. O regime fiscal vigente impede que os veículos digitais cresçam além de um determinado tamanho. Apesar da inclusão do trabalho jornalístico no Simples Nacional em 2014, as alíquotas reservadas para a função ainda são muito altas, chegando a quase três vezes maior do que outras categorias incluídas no mesmo regime. O Brasil do governo cleptocrático também tem uma infraestrutura patética para o mundo digital. Com uma velocidade média de 3Mbps, 40% a menos do que a média global, o país está na 89a. colocação.  Só 2% das conexões no Brasil têm velocidade média superior a 10Mbps e só uma em cada 200 rodam com mais de 15 Mbps.

O único caminho é para frente

Isto posto, há pistas sobre o rascunho de um futuro funcional para o jornalismo digital (que, no longo prazo, é o jornalismo em si). Provavelmente o futuro 2.0 do digital rodará em cima das plataformas móveis em vez dos computadores de mesa (vide o crescimento de 50% anuais das receitas “móveis” até 2018). O DNA social já é indispensável para se substituir a Homepage. O uso de material produzido por usuários também é central, assim como recursos de ferramentas eletrônicas como geofencing, geolocalização, big data e o foco na experiência em vez do tráfego.

Crises têm fim e normalmente, após uma crise, um ambiente mais forte, resistente e viável se estabelece. O momento posterior ao offline ainda engatinha, e hábitos, comportamentos, receitas e oportunidades surgirão aguardando para serem explorados.  Não há muitas alternativas a médio e longo prazo além dessa inovação compulsória. E essa inovação necessária não virá empacotada. Será preciso de parcerias com profissionais de áreas afins como programadores, designers, infografistas e outros mais, além de técnicos que fazem parte de qualquer negócio (que cuidem de vendas,recursos humanos, etc). É bem provável também que esse novo momento deixe de funcionar nos moldes tradicionais de horário-das-9-às-17. A sharing economy que está revolucionando transporte urbano e hotelaria (vide Uber e AirB’n’B) certamente terá seu papel e taxações fiscais mais razoáveis serão necessárias.

Nenhum obstáculo citado é completamente fora do alcance. Mesmo coisas impossíveis como tirar a classe política da sua preguiça sórdida, tóxica e hostil, para ter regimes fiscais mais funcionais só acontecerão quando a sociedade se mobilizar – e neste caso, os jornalistas. Tem de haver iniciativa. No último sábado, dezenas de profissionais, professores e estudantes se reuniram num encontro organizado pela ONA Brasil – a filial brasileira da Online News Association – para começar a debater o que fazer. Havia uma clara determinação de tomar as rédeas do processo em vez de só observar. Essa determinação é o início de tudo.

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Foto por: Mystico972

Os estudantes de jornalismo não sabem onde se meteram [Quartz]

O jornalismo ainda carrega um aura de coragem e defesa da sociedade. Erica Berger, uma ex-jornalista da Economist, fala de como o ofício virou um “moedor de carne” onde os preceitos básicos da profissão são solenemente ignorados, nesse ótimo texto do Quartz.

In the 1950s, M. King Hubbard devised an economic theory about what would happen when humans hit our peak oil extraction point. Several decades later, I think Hubbard’s theory, with a little tweaking, makes for a pretty good descriptor of the current media landscape. Or, as I like to call it, “peak content.”

Most of the time, when we talk about journalism and media, we talk about ad dollars, circulation revenue, and attention (let’s be real—clicks) from the audience. I’m not the first to write about the decline in the quality of editorial content or ad dollars. But it is rare that we discuss what online media in particular is doing to journalists, writers, and editors in the fast-moving digital age.

Essentially, many newsroom writers and editors feel that they are bumping up against their maximum output, even as their bosses demand ever-more productivity.

The next generation of journalism students has no idea what they’re getting into – Quartz.

Source: Os estudantes de jornalismo não sabem onde estão se metendo [Quartz]

Foto por:Anfuehrer

A nova meta da notícia é encontrar o seu leitor

Houve um tempo, não muito distante, onde a modelação de conteúdo para uma publicação era mais simples: as matérias eram feitas segundo as convicções das redações e acontecimentos dos nichos abordados. As audiência iam atrás do que queriam ler. Mas isso acabou. A informação não segue mais o mesmo sentido nem obedece a formatos pré-estabelecidos. A produção de conteúdo ainda pode seguir padrões e critérios de qualidade, mas o mais importante é que ela consiga encontrar o seu leitor e não o inverso, que era o caminho anterior. Lidar com o novo ambiente é um desafio que ainda gera mais perguntas que respostas. Continue reading “A nova meta da notícia é encontrar o seu leitor”

Ameaçada, indústria de notícias dá indícios de evolução

Nesta semana, em Londres, o evento News:Rewired reuniu profissionais da área para discutir o futuro: jornais,  notícias, mídias sociais e variantes. Infelizmente eu não pude ir, mas um brilhante wrap-up do evento foi feito por um colega de trabalho, Simon Garner, o Head of News do Yahoo no Reino Unido. E sim, as corporações batem cabeça, sim, a maioria dos jornais está cavando a própria cova e sim, a luta contra o processo digital é a típica reação do velho fadado a sucumbir ao novo. Mas apesar de tudo isso, tudo indica que perspectivas entusiasmantes estão surgindo para a indústria e a sociedade só pode comemorar. Continue reading “Ameaçada, indústria de notícias dá indícios de evolução”

Já há informação em excesso – o desafio agora é como validá-la

odos os dias, um bilhão de posts são carregados no Facebook; 400 milhões de tweets são postados no Twitter e por mês, somente o WordPress publica cerca de 40 milhões de novos artigos. Não estamos atingindo a saturação agora – já a ultrapassamos há muito tempo, mas esses números só tendem a aumentar. Por isso, empresas jornalísticas que não querem ir parar empalhadas em museus de história natural devem mudar seu foco. Não é preciso criar mais informação nova, mas sim validar os feeds absurdamente grandes que já existem. Continue reading “Já há informação em excesso – o desafio agora é como validá-la”

Valor da informação depende de princípios, modelos de negócio e tecnologia

Quem se importa com informação? A pergunta parece um tanto quanto inofensiva, mas ela está na base de como o mercado de notícias vai se estruturar no futuro. Em última instância, todos os argumentos que tratam do jornalismo como um bem social, um recurso valioso para o funcionamento da sociedade, são frágeis. A definição do futuro dos meios de comunicação será determinada – como todo o resto – pelas premissas econômicas. O que a sociedade precisa fazer é achar um modo de encaixar suas demandas por informação nessas premissas. Senão, vai acabar com discursos empolados e vazios como os que fazem os acadêmicos que vivem num mundo que não existe. Continue reading “Valor da informação depende de princípios, modelos de negócio e tecnologia”

Escala, a palavra de ordem do novo jornalismo

Os elementos usados na busca da melhoria da qualidade do jornalismo são basicamente os mesmos desde que ele apareceu na história pós-gutemberguiana. Modos de apuração, definição de fontes, os cinco W’s, isenção, ética, etc. Como já observei noutro post, nenhum deles perdeu a validade (embora alguns tenham mudado radicalmente). Mas sendo, em última instância o jornalismo um processo de produção de conteúdo, um novo critério passou a  ser o mais importante: a capacidade de produção em grandes quantidades. Continue reading “Escala, a palavra de ordem do novo jornalismo”