Como o meio digital possibilitou “desertos” jornalísticos

É uma história que, se você for brasileiro, já conhece: cidade média, até com certo poder aquisitivo, tem um jornal pequeno (raramente mais de um), semiprofissional e que tem relacionamento próximo com as elites política e financeira locais. O resultado dessa equação, um jornalismo deficiente e alinhado com o poder local, criava grandes “desertos’ noticiosos, largas faixas de território onde a cobertura local era restrita e só a TV se impunha como fonte de informação. Uma combinação da evolução tecnológica e de costumes e uma recessão foram suficientes para os EUA também conhecerem a “desertificação”. Hoje é mais fácil saber o que acontece do outro lado do mundo do que na sua rua e não há uma solução em vista. Continue reading “Como o meio digital possibilitou “desertos” jornalísticos”

Mídia dos EUA tem uma bolha que logo explodirá

A evolução da economia digital das últimas duas décadas teve seu reflexo na mídia. Para cobrir um acúmulo de dinheiro massivo como o proporcionado pela Internet e derivações, a mídia especializada foi ampliada exponencialmente. Publicações sobre tecnologia (como o Tech Crunch, Mashable e Gizmodo) e empresas digitais independentes operando em modelos de negócio sem precedentes na mídia tradicional (Buzzfeed, Vice, Business Insider) estão recebendo investimentos descabidos. Há algo de podre no reino da Dinamarca e o cheiro não se restringe à economia. A mídia também ensaia uma colisão frontal com a realidade.

O ecossistema de mídia americano é o mais desenvolvido do planeta. O tamanho do mercado permite que se criem nichos capazes de sustentar várias publicações sobre um mesmo assunto. As grandes empresas injetam dinheiro em novos projetos e venture capitalists colocam há pelo menos uma década somas consistentes em iniciativas que à primeira vista soam inviáveis. O esquema gerou resultados fantásticos e até inesperados. Buzzfeed, Vice, Vox Media, Business Insider, Huffington Post, entre outros, são frutos da pujança deste modelo.

Há algo errado e não é difícil desconfiar

Apesar da riqueza de recursos e abundância, a mídia americana tem uma realidade completamente singular, onde há um componente de vaidade. A indústria tem elementos determinantes que não são regidos simplesmente pela lógica. O modo (e a aparência) de como um projeto se coloca no mercado vai aumentar ou diminuir as chances de buscar mais investimento. Avaliações fora da realidade, modelos econômicos nebulosos, produtos que não têm como se sustentar: o dia-a-dia da nova mídia americana é um palco, muito mais do que um mercado. Projetos, apostas, iniciativas e quase todas as medidas dessas novas empresas têm um caráter muito mais de visibilidade do que de negócio.

Por exemplo: o Business Insider, publicação de hard news/finanças comprado há dois meses tinha recebido um investimento de US$56 milhões antes da aquisição do título por pouco mais de US$442 mi. A Vox Media, que detém uma série de títulos muito relevantes, já conseguiu pais de US$300 milhões; o site de esportes Bleacher Report já tinha levantado US$40 milhões quando foi vendido para a Turner por US$170 mi. Vice e Vox, só para citar dois exemplos, têm valores de mercados que passam do bilhão de dólares.

Esses números não são diminutivos dessas marcas. Algumas delas podem de fato justificar tais investimentos. Por exemplo: a Turner pode transformar o Bleacher Report numa fonte de receita encaixando-o em operações que já detém. Contudo, esse tipo de faturamento com escala não é a regra.

Os números de receita da maioria das empresas com esse perfil não chega nem mesmo a pagar as próprias contas e todas elas contam com uma escalada de receita seguida de um crescimento não só em tráfego, mas também no desenvolvimento de produtos e audiências que sejam defensáveis e não-imitáveis. A lista das propriedades digitais mais valiosas feita pela ComScore é um sintoma disso. Das 50 marcas mais valiosas, somente duas são digitais independentes (ou seja: não atreladas a empresas de mídia tradicional nem a remanescentes do primeiro boom da Internet – Vox Media e Buzzfeed.

A liquidez no cenário de investimento em tecnologia dos EUA está diminuindo. Fundos de investimento estão tomando distância das novas rodadas das start-ups que ainda estejam longe da entrada na bolsa de valores. Não coincidentemente, a quantidade de IPOs de tecnologia está retrocedendo e a quantidade de empresas que estão fracassando em atingir as próprias metas vem aumentando sistematicamente, inclusive as publicações (como o Buzzfeed, a vaca sagrada do conteúdo digital).

Poucos analistas discordam de que há uma segunda bolha de tecnologia pronta para acontecer. A extensão, contudo, deve ser menos desastrosa, porque investidores e mercado tomaram mais precauções. Apesar da aparente postura descontraída dos líderes da tecnomídia, a colisão está em curso e todo mundo está procurando um lugar para se segurar. Este ano deve terminar com 500 mil demissões nas empresas de tecnologia. Quase todas as publicações e empresas de mídia fizeram layoffs neste ano e mesmo em starlets como Mashable e Vice, o machado cantou. O que isso significa?

Para começar, que a dança das cadeiras está perto do fim. Algumas das empresas que sugaram recursos nos últimos anos estão chegando no prazo que tinham estipulado para si mesmas para sair do vermelho. Projetos novos terão mais dificuldade de buscar financiamentos grandes porque largas partes dos espaços vazios de consumidores já têm dono – em alguns casos, têm até donos demais. Mas a mais importante conclusão está em enfrentar um problema que é o nervo exposto do jornalismo digital: encontrar um modelo de produzir que use a tecnologia para reduzir drasticamente os custos sem que torne a cobertura numa commodity insossa.

E existe um jeito de fazer isso? Existe. As grandes adaptações da economia parecem óbvias em retrospectiva, mas impossíveis de adivinhar antecipadamente. Só os visionários conseguem fazer isso. E os visionários de hoje aparentemente são ruins em conseguir financiamento para seus projetos. Enquanto isso, se você é jornalista, segure-se. O sobe-e-desce deu lugar ao desce-e-desce para meios de comunicação. Crescimento via financiamento de venture capital é um dos caminhos que empresas de jornalismo/conteúdo poderão utilizar, mas um modo mais preciso (e honesto) de estipular receitas futuras é necessário. Claro, isso tudo, em sociedades mais desenvolvidas. No Brasil, a legislação quase inviabiliza tais iniciativas.

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Homepage e multimídia: por que seu site não é só ‘social & video’

A mídia é uma indústria que vive de trends ditados pelos seus líderes de mercado – como qualquer outra.  A conversão digital jogou para a cabine de controle duas empresas que são monopolistas na prática. Essa liderança deu origem à supervalorização de dois desses trends: vídeo e social. Apesar da preponderância dos dois quando se trata de estratégia digital, editores e publicações não devem perder de vista que o seu recurso mais valioso continua sendo uma velha (e subvalorizada) conhecida: a Homepage. Continue reading “Homepage e multimídia: por que seu site não é só ‘social & video’”

‘Cale a sua boca’ ou como os sites estão acabando com os comentários (e com os trolls)

“O cliente tem sempre razão”. A frase é um dos exercícios de relações pública mais forçados da história, porque todo mundo já esteve do lado do cliente para saber que ele não funciona na prática. No jornalismo, a máxima é ainda menos verdadeira porque a obrigação do jornalista é (supostamente) dizer a verdade, ainda que isso possa alienar a audiência. Quem não se aliena é a própria audiência, especialmente os ‘trolls’. Depois de anos de esquizofrenia digital, a área dos comentários dos sites começa a morrer. Não tem volta e, mais que isso, não vai ter ninguém derramando lágrimas pela mudança. Continue reading “‘Cale a sua boca’ ou como os sites estão acabando com os comentários (e com os trolls)”

O que pode impedir o digital de ser o Pac-Man da mídia?

Parece incrível, mas em bem pouco tempo, a TV vai deixar de ser a ricaça da mídia e você vai sentir isso. Aliás, tão pouco tempo quanto no ano que vem. No espaço de alguns poucos anos, a eficiência das ferramentas digitais atingiu níveis assustadores e os anunciantes estão mudando suas preferências. Esse processo trará consequências. Países em que a TV tem uma influência social maciça, como o Brasil (pense que as rodadas do campeonato de futebol são feitas para agradas a Rede Globo), vão atravessar momentos de grande transformação. Se você não tem uma emissora de TV, anime-se: esse período trará grandes oportunidades de negócio (ainda que com bastante atrito). Continue reading “O que pode impedir o digital de ser o Pac-Man da mídia?”

O inverno está chegando e ele vem num ‘ad blocker’

Um anticristo digital que dormia em silêncio há anos despertou e está impondo o terror nos domínios de largos setores da indústria de mídia. Os adblockers tinham alguns limitadores de funcionamento e alcance, mas eles foram basicamente dizimados pelas últimas versões do iOS e browsers. Assim, um  jato de terror atingiu a esfera das publicações e vai englobar também as agências de publicidade, os crupiês da maior parte da receita do setor de mídia. Um inverno se aproxima para publicações, publishers e agências. A única saída possível está em num mercado redesenhado, sem fraude, bots nem métricas mentirosas.

Hoje, nos EUA, somente cerca de 26% dos usuários têm bloqueadores de anúncio em algum dos seus dispositivos, mas essa quantia deve aumentar em 24% em 2017. O número, contudo, vai aumentar mais rápido nos países em que a conexão à Internet é inferior. Os ads exibidos numa página podem chegar a fantásticos 80% do peso da página ou aplicativo e esse número faz diferença.

A adoção de ad blockers pelos usuários é uma alforria da parte de uma audiência que jamais teve a oportunidade de ser consultada. Até aqui, marqueteiros e publicações decidiam o que fazer segundo suas próprias prioridades. Isso fez com que a tecnologia usada nos complexos mecanismos de rastreamento e retargeting tenha se desenvolvido sem preocupação com a experiência do usuário. O código das páginas é extremamente poluído com linhas de anúncio. Com o crescimento da quantidade de bloqueadores, publicações e agências estão querendo dizer “Me desculpe por não ter me preocupado com sua experiência, mas de agora em diante, levarei isso em conta”. Só que o usuário está respondendo “Agora, não quero mais saber. Vocês que se danem”.

A choradeira de uma indústria que tem o arrependimento do pecador antes de morrer vai adiantar pouco. O ritmo de adoção dos bloqueadores não vai diminuir. Se for mantida a taxa de 25% prevista para 2017, a próxima década terá esses dispositivos em quase todos os aparelhos e ao contrário de tendências que são opcionais ao consumo, é pouco provável que alguém venha a deixar de usá-los. Ou seja, não há um retorno previsto. É uma passagem só de ida.

A coisa piora quando você leva em consideração que esses bloqueadores de anúncios nos browsers são uma garoa diante do dilúvio que representam as possibilidades de hardware e serviços. Há tecnologia suficiente para permitir que operadoras de celular incluam ad blockers diretamente no serviço de dados, levando a exibição de anúncios a 100%. A mesma coisa vale para fabricantes de smartphones e tablets. Uma guinada do gênero poderia dizimar a indústria de publicidade em questão de apenas alguns anos, especialmente porque quanto mais jovem o público, mais propenso a não aceitar anúncios – especialmente aqueles que rastreiam você pela Web como um cão hidrófobo.

English: The new logo of Adblock Plus (an ad b...
O logo do Adblock Plus (ad blocker para Firefox, Chrome and K-Meleon). via adblockplus.org (Fonte: Wikipedia)

E não, não pára aí. Operadoras de serviço e fabricantes teriam condições de, se quisessem, liberassem “acesso” a seus assinantes e compradores somente a seus próprios provedores de conteúdo ou a provedores que quisessem pagar por isso. Sabe o braço de ferro entre Netflix e Verizon? Então – é a mesma coisa. Esse cenário é particularmente assustador. Primeiro, porque fere o conceito de neutralidade da Web e criaria uma competição desleal a favor dos grandes grupos de mídia (ou grupos de mídia pertencente aos donos das operadoras e fabricantes de smartphones). Segundo (e muito mais sério), a prática poderia ir muito além da concorrência desleal, porque daria a governos autoritários a possibilidade de promover censura diretamente nesses gargalos.

Voltando da rápida digressão sobre neutralidade de rede: o cerne do problema ao redor dos ad blockers é a ineficiência do modelo de receita do digital, que é uma transposição pura e simples do sistema que funcionava com a mídia tradicional. Prender à força a atenção do usuário não é mais uma alternativa (ou deixará de ser em breve). Pela primeira vez, o monólogo terá de virar um diálogo (isso, claro, supondo que a audiência não guarde mágoa e aceite dialogar).

Sem exagero, o horizonte que se desenha é de caos. Grandes corporações de mídia (exceção feita a Facebook e Google) e agências vão tentar de qualquer modo impedir que o sistema que lhes beneficia se derreta. Mas dois pontos sugerem que a essa era glacial que deve dizimar os dinossauros abra caminho para um ecossistema novo. O primeiro é que a verba de anunciantes não vai diminuir. O mundo fora da mídia segue seu curso normalmente. Um período turbulento para publishers deve vir, mas após uma certa acomodação, ele deve voltar a funcionar.

O segundo ponto é que as audiências não vão consumir somente gatinhos, fotos do churrasco da família, memes sem noção e afins. O tempo dedicado a conteúdo na verdade tende a crescer conforme a tecnologia se renova e o ponto de atrito entre produção e consumo de mídia – a monetização – terá de se resolver de alguma forma. O estrangulamento do modelo de exibição e receita de anúncios não afeta a disposição de tempo dedicado por parte de quem quer ler, ver, ouvir ou interagir. Isso não sugere que tempos róseos estão por vir. Anunciantes, mídia e público não vão desaparecer, mas serão alterados na essência. Períodos transformacionais são normalmente doloridos e traumáticos, mas novas, imensas oportunidades de negócio, aparecerão para quem se mantiver em pé e aborde sua audiência adequadamente. O tempo do “eu-falo-você-escuta”, acabou – para o bem e para o mal.

O momento de mobilização gerado pela incerteza pode ser usado positivamente. Em vez das métricas tradicionais como visualização de páginas, a indústria tem a chance de redesenhar a si mesma. Muitos dos modelos atuais são um conluio corrupto de todos os participantes. Anunciantes pagam valores irrisórios por vastas quantidades de mídia, que por sua vez são amplamente fraudulentas e nas quais a maioria das “visualizações” são ficções geradas por robôs e outras mutretas. Tudo isso supervisionado por intermediários que não têm nenhuma consideração com o consumidor final, empurrando-lhe garganta abaixo experiências ruins e formatos invasivos. Por mais dura que seja a transição, ela representa uma grande oportunidade. Quem a abraçar primeiro, deve pegar a maior parte do prêmio.

Quer ler mais? Então taí:

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O novo conteúdo: líquido, multiplataforma, onipresente

Capa e Homepage são a capa-e-espada do sistema de priorização do jornalismo. Desde a publicação do Relation aller Fürnemmen und gedenckwürdigen Historien, supostamente o primeiro jornal do Ocidente, as histórias mais relevantes (na opinião do editor) iam para o espaço nobre – a capa. O digital herdou o modelo, com a homepage herdando a mesma função.

A tecnologia, contudo, está lentamente enterrando esse processo. A curadoria está deixando de ser uma prerrogativa editorial para se transformar numa característica algorítmica. Você não procura mais o conteúdo – ele te acha onde você estiver e, para isso, ele está ficando líquido – adaptável a qualquer suporte. Escapar dessa busca implacável será impossível em bem pouco tempo. Continue reading “O novo conteúdo: líquido, multiplataforma, onipresente”

Você é uma mercadoria e seu valor vai aumentar (mas não muito)

Numa palestra em Stanford há alguns anos, o professor Paul Saffo descreveu a evolução da economia no século XX como indo da economia da escassez à economia do consumo. Segundo ele, com a crise de 2008, a economia do consumo atingiu seu pico e iniciou a transição para a economia da criação, que em última instância, é aquela decorrente da criação que você faz quando toma uma atitude tão simples quanto clicar num link. Exatamente por isso, você é parte relevante nesse mercado e seu “preço” vai subir – mas infelizmente, não muito para te sustentar. Continue reading “Você é uma mercadoria e seu valor vai aumentar (mas não muito)”

Sexo, liberdade de imprensa e Hulk Hogan: o Gawker vai à lona

Pouco se falou sobre o assunto aqui, mas na semana passada, um evento na mídia americana foi fundo em algumas das mais profundas crenças americanas: tecnologia, capitalismo, liberdade de expressão, privacidade, abuso de poder, ícones trash: o provável velório de uma das start-ups de mídia mais faladas da América é um colosso de reflexões. Continue reading “Sexo, liberdade de imprensa e Hulk Hogan: o Gawker vai à lona”

Crise no jornalismo no Brasil é ‘convite forçado’ à inovação

No Brasil de hoje, qual carreira ou função está “mais” no fundo do poço? Se a avaliação de pisos salariais revela alguma coisa, o jornalismo tem uma robusta argumentação para pleitear o título. Para poder trabalhar como jornalista, teoricamente, é preciso ter um diploma que se consegue num curso de 4 anos. Todos os anos, cerca de 20 mil pessoas preenchem essas condições e entram no mercado com esse título. Elas vão disputar um mercado que tem como pisos valores mais baixos do que os pagos a profissões que não exigem treinamento formal como gari e pedreiro. A hora de resetar o sistema já passou. Ele não vai melhorar.

A lista de pisos salariais da Fenaj não é a lista dos menores valores pagos a jornalistas – há quem pague menos que isso – mas ela serve como guia da desertificação no setor. Ela mostra valores que vão de pouco mais de R$1 mil a R$2.300. Alguns valores passam um pouco disso, chegando  R$4 mil em algumas cidades. Segundo a Catho, o valor-base para um pedreiro parte de R$1,470. Gari, no RJ, tem um salário de cerca de R$1100 que chega a pouco menos de R$2.200 com benefícios. Só professores têm situações ainda mais dramáticas como categoria, com salários tão baixos quanto R$400 mensais.

A equiparação com profissões de treinamento não-formal ou nenhum levanta o óbvio – não há futuro possível para o sistema. Não se trata mais de uma situação que vá melhorar com um novo ciclo econômico de crescimento, venha ele quando vier. Tecnicamente, as maiores empresas de comunicação do Brasil não têm capacidade de investimento em inovação nem crescimento – exceção feita às organizações Globo e Grupo Folha – e vão funcionar nesse purgatório disfuncional indefinidamente.

Há um elemento fiscal forte na degradação do mercado, mas ele não se explica sozinho. A carga tributária que o governo impõe às empresas não é mais baixo em outros setores. O ponto é que a longa transição para o digital, que começou no fim dos anos 80 com a massificação das primeiras tecnologias que facilitavam transmissão eletrônica de informação, foi completamente ignorada pela maioria esmagadora das empresas, que em vez de abraçarem a digitalização antes, foram arremessadas contra o muro digital, pouco antes ou depois da primeira bolha das pontocom, no começo deste século.

O Brasil não difere muito de outros mercados nessa miopia em enxergar a digitalização, exceto por duas razões: a vocação governista da mídia, uma vez que o grande cliente sempre foi o governo e a pequena relevância em termos financeiros dos players de mídia aqui são as bases desse desastre. Segundo a ANJ, a circulação de jornais atingiu seu ápice no Brasil há não muito tempo atrás (2012), quando pouco mais de 8 milhões de cópias eram vendidas por dia, enquanto nos EUA, a circulação passou dos 60 milhões no começo dos anos 90. Nos últimos 30 anos, os EUA perderam cerca de 400 jornais diários, mas ainda têm o dobro de jornais, sendo que 98 deles com tiragem maior do que 100 mil diários, contra 8 daqui.

A deterioração do cenário de notícias no Brasil concentrou a circulação e a receita em queda nas mãos de poucos grupos de mídia e com parte da receita indo para as mídias digitais. Apesar da previsão de crescimento do investimento em mídia ser de cerca de 7% ao ano até 2018, a mídia impressa deve, na melhor das hipóteses, ver sua receita estagnar, enquanto o montante reservado para publicidade no digital deve aumentar num ritmo de 21% nos próximos três anos (especialmente em dispositivos móveis, onde o crescimento passa os 50% anuais até 2018). Aqui, o dramático é que a sangria do impresso tem um vampiro digital de fora da indústria de notícias. Facebook e Google retém 64% da grana jogada no digital. O “ralo” do dinheiro que escoa para as duas empresas de tecnologia não deixa dúvidas de quais as perspectivas: o ecossistema noticioso herdado do período offline não se recuperará em nenhum momento.

Onde está a saída?

Ainda não está claro qual é o desenho e quais as fundações do novo modelo de negócio do jornalismo  – nem no Brasil nem em nenhum outro lugar. Mas é possível dizer o que não dá certo. Por exemplo: nenhuma start-up digital conseguirá sair do vermelho com um modelo de negócio baseado em anúncios. O inventário infinito que joga os preços no chão, somado ao buraco negro criado pelo “Googlebook” e seus 64% de market share assegura que não haverá tração vinda daí porque o resto da indústria não se sustenta dividindo os outros 26% (especialmente porque Globo e UOL engolem a maior parte desse resto).

Fonte: Akamai

Em cima disso tudo, há um sistema educacional falido e em metástase, que não só não produz jornalistas capacitados, graças a diretrizes arcaicas e ricas de um academicismo feudal, mas também mantém a maior parte da população num percentual educacional inferior ao mínimo necessário para o consumo de um jornalismo ativo. É um quadro bastante desanimador.

Para piorar, o fator Brasil infecciona os caminhos mais prováveis. O regime fiscal vigente impede que os veículos digitais cresçam além de um determinado tamanho. Apesar da inclusão do trabalho jornalístico no Simples Nacional em 2014, as alíquotas reservadas para a função ainda são muito altas, chegando a quase três vezes maior do que outras categorias incluídas no mesmo regime. O Brasil do governo cleptocrático também tem uma infraestrutura patética para o mundo digital. Com uma velocidade média de 3Mbps, 40% a menos do que a média global, o país está na 89a. colocação.  Só 2% das conexões no Brasil têm velocidade média superior a 10Mbps e só uma em cada 200 rodam com mais de 15 Mbps.

O único caminho é para frente

Isto posto, há pistas sobre o rascunho de um futuro funcional para o jornalismo digital (que, no longo prazo, é o jornalismo em si). Provavelmente o futuro 2.0 do digital rodará em cima das plataformas móveis em vez dos computadores de mesa (vide o crescimento de 50% anuais das receitas “móveis” até 2018). O DNA social já é indispensável para se substituir a Homepage. O uso de material produzido por usuários também é central, assim como recursos de ferramentas eletrônicas como geofencing, geolocalização, big data e o foco na experiência em vez do tráfego.

Crises têm fim e normalmente, após uma crise, um ambiente mais forte, resistente e viável se estabelece. O momento posterior ao offline ainda engatinha, e hábitos, comportamentos, receitas e oportunidades surgirão aguardando para serem explorados.  Não há muitas alternativas a médio e longo prazo além dessa inovação compulsória. E essa inovação necessária não virá empacotada. Será preciso de parcerias com profissionais de áreas afins como programadores, designers, infografistas e outros mais, além de técnicos que fazem parte de qualquer negócio (que cuidem de vendas,recursos humanos, etc). É bem provável também que esse novo momento deixe de funcionar nos moldes tradicionais de horário-das-9-às-17. A sharing economy que está revolucionando transporte urbano e hotelaria (vide Uber e AirB’n’B) certamente terá seu papel e taxações fiscais mais razoáveis serão necessárias.

Nenhum obstáculo citado é completamente fora do alcance. Mesmo coisas impossíveis como tirar a classe política da sua preguiça sórdida, tóxica e hostil, para ter regimes fiscais mais funcionais só acontecerão quando a sociedade se mobilizar – e neste caso, os jornalistas. Tem de haver iniciativa. No último sábado, dezenas de profissionais, professores e estudantes se reuniram num encontro organizado pela ONA Brasil – a filial brasileira da Online News Association – para começar a debater o que fazer. Havia uma clara determinação de tomar as rédeas do processo em vez de só observar. Essa determinação é o início de tudo.

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Foto por: Mystico972

Lei da I Guerra ainda funciona para calar denúncias contra o poder

Num vídeo muito simples, a ACLU (American Civil Liberties Union) levanta a aberração: uma lei de 100 anos ainda é usada para que o establishment possa processar quem denuncia aberrações como a NSA sob a acusação de espionagem. Se você ainda não viu esse vídeo, assista e o compartilhe. O assunto é nos EUA, mas é diretamente ligado à sociedade de todos os países.

Foto por: AK Rockefeller