Escoriocracia: como a tecnologia coloca o pior da sociedade no poder

  Quase que só no âmbito jornalístico ou nos mais sofisticados ambientes intelectuais é que se discute no Brasil a crescente pressão do cenário político americano que é fruto de um fenômeno mediático e tecnológico. O evento das fake news é muito mais profundo do que a compra de anúncios no Facebook por indivíduos russo supostamente a mando de Vladimir Putin. Em questão no episódio está uma notória incapacidade do país mais rico do mundo em regular a própria mídia, seja por meio de agências reguladoras ou legislação, seja por instrumentos que uma sociedade civil bem desenvolvida obrigatoriamente deveria ter. Mais do que uma piada prevista pelo criador dos Simpsons  há mais de uma década, a ascensão de Trump é só uma pústula num ferimento muito mais sério que é a dissociação de imensas partes da sociedade americana de sua imprensa, de suas elites de do governo como um todo. A brilhante montagem da Economist na sua edição desta semana é uma charge que anda no limite entre o humor e o terror, extremamente precisa na sugestão que faz de como o negócio bilionário das mídias sociais foi fundamental no desvirtuamento de um ambiente democrático que já vinha apodrecendo. O papa Francisco disse que o mundo parece cada vez mais se dirigir à guerra. Todo papa sempre diz isso, mas por coincidência ou não, essa previsão do pontífice parece profética.

‘Direito de ser esquecido’ carrega dilema fundamental do digital

O Google anunciou uma série de palestras em vários países para discutir a validade ética e legal da decisão da Suprema Corte Europeia a respeito do “Direito a ser Esquecido”, que determina que a empresa tem a obrigação de tirar de seus resultados de busca os links para artigos que sejam “inadequados, irrelevantes ou que tenham deixado de ser relevantes” quando membros do público assim desejarem. Segundo a decisão, um político acusado de corrupção pode pedir que o Google não mostre artigos abordando a acusação. A sentença pretende respeitar o direito à privacidade, mas abre um precedente perigoso: como decidir o que o público precisa saber? No equilíbrio entre privacidade e liberdade de expressão reside o dilema fundamental do digital. Se a balança pender para um dos lados, a sociedade está fadada a pagar por isso.

Ataques à liberdade na Internet voltam em tons mais sutis

Na Europa, uma decisão da Suprema Corte Européia decidiu que os motores de busca (leia-se, o Google, que detêm 90% do mercado europeu)  terão de retirar resultados que os usuários acharem “irrelevantes” sobre eles mesmos; nos EUA, um juiz deu ganho de causa aos provedores de acesso à Internet para eles cobrarem valores extras de “grandes consumidores de banda” (Netflix, Hulu, Aereo, etc). As duas decisões claramente vão contra a liberdade de expressão, asseguradas nos EUA pela primeira emenda e na Europa pela Declaração de Direitos Humanos do continente. Entre liberdade de expressão, neutralidade da rede e privacidade, qual direito individual tem mais força legal?

2017, o último ano do século XX

Imprensa e o poder político sempre andam juntos. Mesmo em países nos quais os meios de comunicação têm mais independência, o relacionamento precisa ser estreito. Afinal, rádios e TVs dependem de concessão governamental. Por isso, 2017 é o último ano do século XX no que diz respeito à mídia. As projeções de analistas apontam o ano seguinte como o primeiro no qual a maior parte da receita vai para meios que não dependem do governo. Essa configuração sugere uma emancipação desses meios, mas ela não  vai ocorrer necessariamente.

Já há informação em excesso – o desafio agora é como validá-la

odos os dias, um bilhão de posts são carregados no Facebook; 400 milhões de tweets são postados no Twitter e por mês, somente o WordPress publica cerca de 40 milhões de novos artigos. Não estamos atingindo a saturação agora – já a ultrapassamos há muito tempo, mas esses números só tendem a aumentar. Por isso, empresas jornalísticas que não querem ir parar empalhadas em museus de história natural devem mudar seu foco. Não é preciso criar mais informação nova, mas sim validar os feeds absurdamente grandes que já existem.

Sem neutralidade da web, Brasil condena a liberdade de expressão

As empresas de telecomunicação querem, com a colaboração do PMDB, acabar com a neutralidade da web no Brasil. As empresas de tecnologia são contra, junto com a Rede Globo. Aprovada como as Teles querem, lei garante que as empresas que fornecem acesso à Internet não possam cobrar mais de você se você assiste mais vídeos no YouTube, joga mais GTA5 online ou se gosta de acessar sites pornográficos. Se o PMDB e as teles levarem a melhor, você será censurado ou privado dos programas que gosta muito antes de conhecê-los pela primeira vez – além de ficar à mercê da chantagem financeira dos provedores de serviço, que passarão a ser “flanelinhas” digitais.

A diferença se torna mais relevante quando a lei é aplicada noutro sentido: as empresas não podem cobrar de sites para que o acesso a eles seja mais rápido. Imagine que você tenha um blog muito visitado. Sem a neutralidade da web, a provedora de Internet do seu leitor pode chegar para você e exigir que você pague a ela para que seu leitor possa acessá-lo com mais rapidez. Se você não aceitar pagar, quando seu leitor tentar acessar seu blog ou site, a velocidade da conexão cairá e ele muito provavelmente irá embora (o visitante médio decide ir ou ficar num site em três segundos)., o equivalente a ter de pagar para o flanelinha para parar o carro na rua.

Do lado dos provedores de conteúdo, só teriam acesso a toda a audiência as empresas com porte financeiro para poder se acordar com as provedoras de Internet. Você, como usuário, só teria acesso uniforme a todos os sites se pagasse pelo acesso “premium”. Graças à chantagem do PMDB (cujo conhecimento da matéria é equivalente à contribuição do mesmo à sociedade – nada),

o governo adiou a votação do Marco Civil da Internet para este ano Continue...

Pressão exagerada de investidores ameaça grandes produtos

Nem sempre uma boa ideia vira um bom produto. As sementes dos bons produtos, na verdade, na maioria das vezes acaba não dando em nada. Timing, investimento, bom senso e trabalho duro estão por trás de qualquer sucesso em qualquer indústria. Quando um grande produto vem à tona e consegue levantar a cabeça para fora d’água, uma grande combinação de fatores ocorreu. Assim, se uma economia que não se importa em sacrificar a existência desses fenômenos por causa de um lucro imediato maior, ela tem algo fundamentalmente distorcido, porque a economia é uma instituição da sociedade e tem de servi-la em alguma medida. E, diga-se, a economia tem algo fundamentalmente distorcido.

Suspeita de Princeton sobre Facebook pode não ser tão absurda

Dois pesquisadores da Universidade de Princeton levantaram uma certa polêmica nesta semana ao publicar um estudo (pdf) que aposta numa queda de 80% na base de usuários do Facebook num prazo curto (entre um e três anos). A rede social de Mark Zuckerberg tirou um sarro da pesquisa (de modo até bem-humorado, dizendo que Princeton não terá mais nenhum aluno até 2021), mas a leitura do estudo suscita uma ideia interessante e mesmo que a previsão seja catastrofista demais (para o Facebook, claro), carrega indicadores que apontam um caminho no qual o futuro seja mais nicho e hiperconexão do que massa e plataformas fechadas.

Por que a espionagem americana na web interessa a você

De longe, todo político é democrata. Todo mundo chegou ao poder pelos braços do povo, todo mundo é transparente e todo mundo é a favor da lei. Contudo, a ascensão ao poder transforma os poucos políticos bem-intencionados em políticos ‘clássicos’. Esta é a primeira razão pela qual você deve, sim, se preocupar com a espionagem em massa que o governo norte-americano está fazendo com a NSA. Em tempos de paz, ninguém se preocupa com o destino que aquele formulário com o seu endereço terá. Em tempos de guerra, pode levar a tragédias inomináveis.

So video does it – um sinal concreto da videomania

A comunicação digital é um meio efêmero – talvez o mais efêmero de todos. Todos os dias, um “novo Facebook” ou “novo Google” aparece na análise de um especialista. A fantástica velocidade da tecnologia, a ansiedade dos analistas em apontar tendências e a quantidade de espertalhões tentando vender gato por lebre formam esse quadro. E assim, um dos muitos “next big thing” da última década é o vídeo. Mas ao contrário das outras apostas, o vídeo finalmente se mostrou um formato com potencial viável – pois o vídeo realmente vende. De tantas apostas, a videomania é uma das poucas que vai se consolidar. E não será pouco.

YouTube, o marco zero do novo direito autoral digital

Quando o Google começou a negociar para comprar o YouTube no começo de 2006, os media moguls de todo o mundo anunciavam que o gigante de busca estava para cometer seu primeiro grande erro. A avaliação do YouTube estava na casa da centena de milhões de dólares e o valor seria um mico para a empresa de Mountain View por conta do sem-número de processos que se seguiria à aquisição, com os detentores de tudo quanto é produto digital exigindo remuneração por conta do uso de conteúdos com direitos registrados. No final do mesmo ano, o Google pagou cerca de 15 vezes mais do que os valores inicialmente atribuídos ao YouTube. Passados sete anos, bateu a casa do faturamento cinco vezes maior do que o valor pago naquele ano. E assim,  todo o rationale por trás da lógica de direitos autorais em mídias tradicionais começou a ser desfeito, num processo que ainda não acabou.