Criticism of GDPR is smelly – and it’s not good

Last month, at last, the most awaited piece of media legislation in history has hit the real world. The Global Data Protection Regulation is a 2016 law but gave two long years for publishers to comply – and it was not enough, so publishers restricted or blocked European users from using to avoid the risks that possible fines could come. An outrage was expected, as accusations of privacy breach is unavoidable, but a second one, I must say, surprised me: the allegation of the GDPR as the instrument of governments to create a “Splinternet”, a Web that is not equal for everyone. It may well be an issue here, but it seems much more of a well-done work of marketing, PR and legal teams of the tech giants to demonise a step ahead to protect privacy. The democracy attackers are no longer only fat white old males pulling the strings of monopolistic corporations. Now, trendy, cool, well-educated, liberal élites across the Western world are helping corporations and slices of government to gnaw individual rights unceasingly. Continue reading “Criticism of GDPR is smelly – and it’s not good”

Regulation, rants and reputation: the Facebook perfect storm

These are tough times for Facebook. The company has suffered many small upsets in the past two years but kept growing, which for the whole trade meant they were doing everything alright. Now that the Cambridge Analytica scandal not only came to the surface but also gave unequivocal proof that it’s just the tip of the iceberg, the Palo Alto behemoth should conclude that the last two years were delightful compared to the scrutiny, pressure and financial loss Facebook should experience from now on. But outside Palo Alto, one question that the whole trade should be doing itself is: is it surprising that an industry that lives and dies for the goals set by marketing and sales departments rips off any regulation and break rules that can restrict potential revenues? Continue reading “Regulation, rants and reputation: the Facebook perfect storm”

Get over: there is not going to be a tech Graal to save journalism

These days, the general feeling among the digital media observers in the world is a mix of fear, uncertainty and commiseration. The industry as we know is plainly sinking. Digital journalists are replacing the number of traditional media jobs at a scale of 20 to 1. The wages are plummeting (in America far less than anywhere else). Tech companies are showing signs that they are also set to jump away from the journalism boat after spending their entire existence pledging loyalty to “quality journalism”, whatever this may mean. Following this trend, the once media-darling digital-born operations are letting the mask fall and biting the dust with everyone else. Any schadenfreude is allowed here (although it is difficult to consider a loser someone who leaves richer than before). The technomodernpress was a disease with a staggering price. Continue reading “Get over: there is not going to be a tech Graal to save journalism”

Você vai ligar para privacidade quando perder a sua

“Quando o Facebook estava começando e alguém me dizia que não estava lá, eu dizia ‘Ok, você sabe que estará’. Eu não tinha ideia das consequências do que eu estava falando. [O Facebook] muda tudo na sua relação com a sociedade, com as pessoas. Interfere na produtividade em modos bizarros. Sabe Deus o que isso não faz com o cérebro das crianças”.

A frase acima não é de um ripongo bicho-grilo da contra-cultura que está na seca para queimar uma erva e se derreter no Santo Daime. Ela foi feita por Sean “Napster” Parker, o homem que levou a indústria fonográfica e cinematográfica para o ringue de luta livre dos torrents (através do Napster) e que depois resolver botar uma grana numa start-up promissora de um menino judeu fora da curva de Harvard chamada Facebook. O investimento mais certeiro da vida dele fez com que ele (e seus sucessores) não precisem trabalhar mais até o Sol se apagar, mas nem assim ele se sente grato. Ele tem medo e sabe do que tem.

Parker fala publicamente que o Facebook está longe de ser inofensivo. “Nossa obsessão era: ‘Como a gente pode gastar tanto seu tempo como possível?'”. Foi isso que levou à criação do botão de “Like”, segundo Parker, o equivalente a mais uma dose de dopamina na veia, um vício para levar as pessoas a compartilhar mais e mais coisas. Quem nunca se perguntou se não está exagerando ao compartilhar demais? Bem, é esse o problema. Quase ninguém se dá conta que está expondo até a traseira do pâncreas nas redes e vai levando o comportamento de nóia digital ao exagero supremo tentando resolver um problema de amor-próprio que deveria estar no divã de um analista em vez do celular de 2 bilhões de pessoas no mundo.

Há uma preocupação consistente nos países mais desenvolvidos acerca do tamanho do problema potencial, mas por ora, a extensão do dano ainda é só intelectual. Estudiosos e ativistas fazem um chamado da sociedade para o problema, mas ele ainda não faz ninguém perder dinheiro e os relativamente poucos prejudicados pelo problema não são suficientes para levar a uma reflexão mais profunda.

Em Maio passado, o Internet Lab (uma entidade similar em natureza à Eletronic Frontier Foundation), divulgou um trabalho que levava a duas conclusões (bastante óbvias). O primeiro é que, depois de termos dado origem ao Marco Civil da Internet (um documento progressista em comparação à média e razoável em relação ao ideal), nós não exigimos da cleptocracia congressista que legisle adequadamente a proteção da nossa privacidade. A segunda é que, como sempre no Brasil, se não tem lei, pode tudo (apesar de uma interpretação saudável do Código Civil já seria suficiente para proteger direitos que não são protegidos).  No caso do “pode tudo”, basta ver como o seu provedor de acesso rigorosamente não dá a menos pelota para seguir o certo.

Hoje, se assim o desejasse, uma entidade estatal séria conseguiria fazer um regime de vigilância quase-kafkiano. Talvez soe como enredo de Stranger Things, mas provavelmente na sua casa já existam aparelhos capazes de te colocar num Big Brother realista. TVs com serviços conectados à rede, babás eletrônicas e, naturalmente, celulares, quase nunca têm protocolos de segurança difíceis de se romper por uma razão simples: ninguém se importa. Desde os anos 50 os carros que circulavam no Brasil já tinham dispositivos de segurança, mas até o prefeito Paulo Maluf (sim, ele, o anticristo político pré-Lava Jato) decidir multar as pessoas que não usassem o cinto de segurança, 95% das pessoas não usavam. Somente quando confrontadas com as próprias perdas de posses ou direitos é que as pessoas reagem. Curioso ou não, o individualismo sempre prevalece em relação à solidariedade, como a filosofia vastamente observa.

O Brasil caminha para um momento histórico de autoritarismo e como sempre isso ocorre com a maior parte da massa de manobra cooptada pelos populistas caminha sorrindo para o cadafalso. Para cada rompante lunático de um dos candidatos que estão na ponta na pesquisa (de qualquer um dos lados), mais uma manada de gado eleitoral caminha para os extremos. Hoje, o estado policial ainda assedia somente pobres e negros no Brasil, mas o atual estado jurídico de coisas deixa o ambiente perfeito para uma desgraça qualquer no futuro.

Escoriocracia: como a tecnologia coloca o pior da sociedade no poder

 


Quase que só no âmbito jornalístico ou nos mais sofisticados ambientes intelectuais é que se discute no Brasil a crescente pressão do cenário político americano que é fruto de um fenômeno mediático e tecnológico. O evento das fake news é muito mais profundo do que a compra de anúncios no Facebook por indivíduos russo supostamente a mando de Vladimir Putin. Em questão no episódio está uma notória incapacidade do país mais rico do mundo em regular a própria mídia, seja por meio de agências reguladoras ou legislação, seja por instrumentos que uma sociedade civil bem desenvolvida obrigatoriamente deveria ter. Mais do que uma piada prevista pelo criador dos Simpsons  há mais de uma década, a ascensão de Trump é só uma pústula num ferimento muito mais sério que é a dissociação de imensas partes da sociedade americana de sua imprensa, de suas elites de do governo como um todo. A brilhante montagem da Economist na sua edição desta semana é uma charge que anda no limite entre o humor e o terror, extremamente precisa na sugestão que faz de como o negócio bilionário das mídias sociais foi fundamental no desvirtuamento de um ambiente democrático que já vinha apodrecendo. O papa Francisco disse que o mundo parece cada vez mais se dirigir à guerra. Todo papa sempre diz isso, mas por coincidência ou não, essa previsão do pontífice parece profética.

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Trumps, Brexits e Bolsonaro têm na mídia ‘progressista’ um cabo eleitoral

A história sempre avalia em retrospectiva e por conta de uma dinâmica cultural, tanto protagonistas quanto anônimos  raramente percebem o movimento que fazem em direção aos grandes acontecimentos que vêm a ser os divisores de águas segundo os quais a própria história se desenha. Não se trata de uma condenação (embora o desfecho deste texto seja bastante pessimista), mas de uma observação. A história não é decidida solitariamente pelas figuras que preenchem os livros, mas por bilhões de ações de centenas de participantes que, frequentemente, são vistos, equivocadamente, só como observadores. A narcisística obsessão com oa próprioa umbigo ada mídia  e da audiência “progressista” estão sistematicamente corroendo os pilares da democracia e desenhando lentamente o cenário de ruptura onde a sociedade se autoflagela, entregue a radicais, populistas, demagogos e criaturas adjacentes. Em outras palavras: eu, você e toda criatura que anda ou rasteja sobre a Terra colabora na tragédia sociopolítica que está sendo em gênese. Se continuarmos a cultura do confronto em vez de buscar o diálogo, nossas digitais estarão no mesmo curso da história que testemunhou desgraças periódicas causadas por intolerância, arrogância e ganância.

Tomada 1) No ano passado, ao avaliar os primeiros meses da participação do New York Times com os então recém-lançados Live Videos do Facebook, Liz Spayd, uma editora do jornal fez uma significativa declaração sobre o papel do NYT com a nova plataforma:

Muitos não conseguem chegar aos padrões jornalísticos normalmente ligados do New York Times…O que realmente espero é que o NYT pause para se reorganizar e retome o rigor que define com precisão o excepcional e rejeita o que é de segunda categoria. Afinal, o mundo consome vídeo de segunda e não o que o NYT é capaz de fazer.

Tomada 2) na esteira da cascata de chorume que marca a discussão política nacional, onde só existe o espaço para o bom e o mau e todo mundo se enxerga como São Jorge no cavalo branco, um episódio corriqueiro ganhou ares de breaking news quando a Folha de São Paulo tentou ouvir o Le Pen tupiniquim, Jair Bolsonaro, e ouviu um espetáculo de xingamentos, acusações, relinchos e grasnidos em troca. A conseqüência foi uma infecção na Web com bolotas pululando em todo canto zurrando em defesa e contra o milico-wannabe fluminense.

Um dos artigos mais bem articulados que eu li foi o feito pelo colega Matheus Pichonelli, que conheci um pouco mais de perto trabalhando com ele como colaborador e que agora versa no The Intercept, versão português, site do britânico Glenn Greenwald, o homem por trás dos Arquivos Snowden. Nem tente procurar o lugar onde eu desanco o texto do Matheus. Ele não tem nada com o que eu não concorde quase totalmente. Ele retrata o caráter bufonesco de Bolsonaro e como o caldo cultural que transborda até a boca do deputado é um ranço primitivo calcado em preconceito, agressividade e fobias generalizadas. Eu iria até além: é pouco provável que meu voto e o dele nas últimas duas eleições tenham sido muito parecidos, com no máximo de uns 10% de diferença. Entre Pichonelli e eu, sob o ponto de vista do estabelecimento de valores, a diferença é pontual.

Onde está o problema então? Bem, o problema é que, de um certo modo, sem Pichonelli e Spayd, nós estamos ferrados. E aqui, por “nós”, eu trato a sociedade como um todo, incluindo até Bolsonaro que, por mais odioso, histriônico e ultrajante (o texto cita diversos momentos onde ele merecia o escárnio público), tem direitos políticos, e,  se não domesticado e mantido dentro do discurso democrático pode, aí sim, virar um daqueles fenômenos que ninguém entende antes de rolar e depois não há quem não -traumaticamente – conheça.

Desde a vitória dos Brexiters na Grã-Bretanha, o mundo busca um bode expiatório para eleger como o mal encarnado, responsável pela polarização que segue se expandindo, fruto de uma boa cultura judaico-cristã que não consegue enxergar o mundo sem certo e errado. Por exemplo: na Inglaterra, a classe média mais sofisticada e as elites jogaram a culpa do Brexit no racismo da classe trabalhadora branca que está envelhecendo mas não fez nenhum esforço para analisar outro ponto de vista. Há uma genuína incompreensão da frustração do eleitorado brexitiano que é claríssimo para os tais homens brancos de mais de 50 anos desempregados e com um welfare state sendo desmontado pelo governo conservador, ajudados por uma liderança trabalhista imbecil. Daniel Blake, o protagonista totalmente loachiano de I, Daniel Blake, não teria problema em entender o que os moradores de vizinhanças cool de Londres ainda não conseguiram pescar.

Aqui vem um espaço para o encaixe da primeira parte deste texto, sobre a autoanálise quase patologicamente arrogante da articulista do Times. Imagino que a ideia dela ao escrever o texto não era vomitar autofascinação em cima do leitor, especialmente do que não se alinha com a linha editorial do jornal. Um avaliador isento, iria até mais longe e não discordaria da capacidade excepcional que o NYT tem de produzir conteúdo premium, tanto por recursos como por uma cultura de excelência. Contudo, falando em primeira pessoa, o texto ficou irritantemente arrogante, especialmente se o leitor, em vez de estar no Highline novaiorquino, estivesse lendo-o em Trent, cidade no Michigan cuja série de desgraças certamente deve ter feito algum favor pela candidatura medieval de Donald Trump.

Spayd, Pichonelli e uma série de outros opinionistas que falam com o mesmo grupo demográfico de que eu (e provavelmente, você) faço parte: Upper Middle Class, branco, educado, que vê o desemprego passar ao longe quando a crise aperta mas, até por conta da nossa sofisticação intelectual, concebe que combater a desigualdade social é um misto de princípio com bom negócio. As chances de se pressionar governos corruptos sem eles são de poucas a inexistentes. As democracias quase sempre medem sua saúde pela situaçãoda classe média. Se a classe média de um país vai mal, o país vai mal. Sem formadores de opinião que estejam dispostos a sair do chorume social contemporâneo, a classe média não fica do lado certo da disputa. Traduzindo: gente como Spayd e Pichonelli articula o modo como os princípios que uma sociedade resolveu adotar (por exemplo, como o combate à corrupção) sejam de fato instrumentalizados pelos indivíduos. Se, por outro lado, esses formadores de opinião se entrincheiram em um dos lados, estamos perdidos. Eles são os propositores, os responsáveis por elabortar o diálogo, são os gatilhos que colocam em movimento as vastas discussões que todos têm em casa, com amigos, trabalho, etc. Sem eles, ninguém busca o consenso – só se busca o confronto.

A busca da verdade nas sociedades menos contaminadas pelo autoritarismo católica vêem na diferença de opiniões o único canal possível para que a sociedade chegue mais próxima da “verdade”. Jon Stuart Mill tinha uma oposição radical: todos, mesmos aqueles com opiniões que pudessem ser obscenas, infames, asquerosas, tinham de ser aceitos na discussão pública. Mill sugeria que os partidários das excrescências tinham uma função similar à de uma vacina. O desconforto infeccioso do primeiro embate garantia que, lá na frente, esse ponto de vista inominável não voltaria para assombrar. Nós, como os americanos, pulamos a etapa da vacinação, especialmente no que diz respeito à mídia “progressista”. As aspas aqui são propositais, porque a autodenominação esclarece parte do problema. Essa facção não quer discutir, por mais que diga que quer – ela quer subserviência. A posse de termos como “progressista”, “popular” e outros de conotação positiva já matam o diálogo na raiz, porque o embate já parte sendo do bem contra o mal. Em vez de conclamar opositores para o debate, a preocupação é a da vitória na tabela de “Likes” ganhos.

A questão aqui é delicada porque não setrata de um ato deliberado, mas de uma daquelas construções culturais que inexoravelmente arrasta multidões para uma histeria coletiva. A mídia “progressista” (merecendo ou não as aspas) é a única com recursos suficientes para engajar aquela parcela da população que define eleições. Nem Trump, nem Obama, ou Lula ou qualquer líder populista/popular é eleito pela elite, mas pela classe mais singela da sociedade. Quando um texto entra na esfera pública buscando o confronto em vez do entendimento, não há acordo possível. É como tentar fazer as pazes com um desafeto começando a conversa com um tapa na cara. Escárnio, ironias e esnobismos só pioram a coisa.

Bolsonaro, Trump e os retardados do UKIP que levaram a Grã-Bretanha ao Brexit não são, na sua maioria, reacionários fascistas, racistas, que deixaram aflorar seus preconceitos. São pessoas que não dispõem do repertório cultural necessário para entender que o discurso deles não faz sentido. Trump não vai resgatar a indústria automobilística americana aumentando impostos de importação; os trabalhadores britânicos com mais de 50 anos não terão uma tempestade de empregos com a saída da Uniãio Européia e Bolsonaro não conseguirá conter a violência com a pena de morte. Esses discursos são a expressão suprema de ignorância com um narcisismo sem vergonha que é comum a todos os malucos que chegaram ao poder. Em vez da crítica, os formadores de opinião têm de tentar entender o que se passa na cabeça dos apoiadores desses pesadelos políticos. Por mais singelos que sejam, os trabalhadores comuns, que não têm nem terão chance de disputar os melhores empregos, não são burros. Algo os incomoda, frustra e enraivece e não é algo à toa. Chamá-los de “racistas” ou “zenófobos” certamente não adianta.

Evidentemente a culpa não é de Spayd, Pichonelli ou nenhum outro jornalista. Eles se encaixam aqui mais como um exemplo de como mesmo o trabalho de bons jornalistas pode entrar num turbilhão social quando esse é forte o bastante para cegar a visão global e reforçar a pontual. Tanto o Brasil quanto os EUA (ou qualquer outra democracia aflita) só conseguirão dar um passo avante quando houver disponibilidade de ouvir, mais do que falar. Um outro artigo do Intercept (diga-se, publicação de um jornalista de renome, mas com uma disposição imensa para criticar os inimigos do PT e suave, quase carinhosa, com os petistas), de J. P. Cuenca, menciona que o país está surdo. Ele tem razão. A surdez seletiva, motivada em parte pelo culto messiânico de Lula e em parte pelo ódio atroz da classe média por Lula, está roendo a democracia. Não se enganem: se essa democracia for rompida, nós seremos diretamente culpados sim. Se os carrascos voluntários já serviram Hitler, porque não haveriam de servir outros demagogos?

The six worst hypocrisies of the copyright industry in the last decade

Copyright Monopoly: The copyright industry keeps pounding a simplistic message to legislators – that copyright law is simple and that nobody honest could ever break it, and that it’s easy to “tell right from wrong”. But when you look at the deeds of the copyright industry instead of their words, they don’t seem very eager to follow their own rules themselves – if nothing else, demonstrating in deed that those rules are outdated, silly, or both.

Fonte: The six worst hypocrisies of the copyright industry in the last decade

Como o vício em novidades está sangrando as indústrias de mídia e publicidade

Acompanhar qualquer coisa na mídia hoje é um exercídio frustrante de controle do FOMO, mas de vez em quando, algumas coisas fisgam você. Uma entrevista de um top exec de publicidade da Digiday teve esse efeito no meu media debriefing depois do post de um colega. O exec falava, sem meias palavras, como a  indústria da publicidade (e a de mídia, por tabela), têm um fetiche por novidades que é completamente irracional. Enquanto o sistema não encontrar alguns checks and balances, a situação vai só piorar.

Qual a questão aqui: bem, parte da coisa está no DNA de uma indústria que vive de previsões sobre mercados futuros. Mais do que qualquer outro setor, o nicho de tecnologia forçadamente avalia e aposta no que vai acontecer e até certo ponto ignora a realidade. A distorção da realidade, contudo, não está na característica especulativa natural do nicho, mas no hype desenfreado que a última década ampliou exponencialmente. A lógica de negocial que vale para todas as indústrias foi substituída por uma abordagem na qual o importante não é o que a coisa é, mas o que ela parece – e promete.

O milionário Warren Buffett, que se tornou o messias do investimento seguro depois da quebradeira de 2008 exatamente por sua cautela e eficiência nos investimentos tem um mantra: “Eu jamais coloco um centavo num negócio que eu não consiga entender como vai dar dinheiro”.

Em tese, essa é a voz do capitalismo encarnada. Negócios jamais têm uma finalidade que não seja a de obter o maior retorno possível. De Adam Smith até hoje, passando pela leitura de Karl Marx em Das Kapital, nenhum economista há de discordar. Mas no ambiente de tecnologia, os participantes sentem-se à vontade para colocar dinheiro no que não entendem (e às vezes, no que ninguém entende).

A avaliação de uma start-up (qualquer uma, não somente de media-tech niche) é feita em cima de valores concretos, sem que haja espaço para “achismos” (esse é um infográfico simples, mas funcional da coisa), mas a coisa desandou. Há três meses, o Tech Crunch fez um artigo abordando o exagero das avaliações de “unicórnios” que se encerra assim:

The bubble will not continue forever. Sectors that used to be super hot such, as cloud computing or mobile apps, are not disruptive anymore, and in a few years AI and automotive will also lose their shine. It will still take quite a few years for all these innovative companies to meet real infrastructure and cultural change, and the innovation industry is about to crunch. When that happens, consumers will realize they don’t need so many me-too products around them, and as the interest rates begin to rise again and VC vintages are over, we may see valuations turn the current game much more “interesting” — or perhaps even a much less friendly term.

Não parece animador, né? Mas é pior do que isso: o problema não é só que competidores num determinado nicho não vão sobreviver e mesmo empresas que obtenham sucesso surreal podem vir a ser bem menos lucrativas do que seus bem cuidados planos de negócios propunham. Basta pensar que o Twitter, que é de longe a ferramenta mais útil para a sociedade como um todo, fracassou em suas metas de receitas e acabou sendo vendida para a Disney, muito em parte da relação de um de seus fundadores no Conselho da maior empresa de entretenimento do mundo.

No fim de 2015, na sua primeira fala às redações de uma grande empresa de mídia, um conhecido nome do jornalismo americano desafiou seus próprios comandados ao determinar que eles deviam esquecer de querer fazer sucesso com as audiências de Manhattan e outros centros sofisticados para prestar atenção a famílias do Meio-Oeste americano, porque  (aqui, observação minha) 99.9% das operações amplas de mídia do mundo só têm chance de se sustentar quando voltadas para audiências massivas e não, elites trendy de bairros chiques.

Traduzindo: se você não quiser falar com um nicho, precisa conversar com todo mundo – e não com quem é cool. Um seleto grupo de vivaldinos middle-men está arrancando o couro de anunciantes e publicações vendendo soluções tecnológicas que são muito atraentes, mas que vendem pouco peixe no fim do dia. A a conta só fecha com o peixe vendido.

É bem verdade que é muito mais sedutor falar com quem é cool do que com “a galera”. Pega muito melhor ser o investidor de uma empresa que aposta na exploração de Júpiter do que num app de micropagamentos na África, mas o mundo real não faz concessões e antes de ir a Júpiter, o mercado precisa resolver o problema de micropagamentos na África. As valutações de empresas de tecnologia, com particular incidência nas de mídia, seguem se afastando da realidade mesmo depois de sintomas de que o vôo não é em céu de brigadeiro (como a readequação de previsão de receita anual do Buzzfeed pela metade).

Esse é um sintoma claro da “bolha” mencionada pelo Tech Crunch e é totalmente em harmonia com a leitura histórica de momentos pouco anteriores à implosão de mercados superaquecidos. Mas a gente não aprende, né? O momento irracional do mundo não é só no que elege Trump e “bomba” chances de Dória e Bolsonaro. Ele é sistêmico, e não localizado.

 

Receita em queda tem conserto, ‘burnout’ da marca, não

Na primeira vez que viajei à Europa, em 1997, me lembro de ter ficado fascinado com a possibilidade de ler a edição do dia de jornais de outros países. Os principais jornais europeus – The Times, El Pais, Frankfurter Allgemeine – estavam em qualquer banca de jornais um pouco maior e suas marcas eram inquestionáveis em termos de audiência e autoridade. Mas eram os diários esportivos que eu achava mais sensacionais. A Gazzetta Dello Sport se destacava até fisicamente (pela cor rósea de suas páginas) entre tantos outros títulos. Na última vez que visitei o continente, em janeiro, só encontrei a Gazzetta em duas de 32 bancas. A perda de receita é dramática para os jornais, mas teoricamente ao menos, remediável. A perda de relevância é fatal – e o desaparecimento das bancas é sintoma do que está acontecendo. Continue reading “Receita em queda tem conserto, ‘burnout’ da marca, não”

Trump: resultado da desconexão de mídia e elite com a sociedade

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A mídia se discutiu muito durante os 518 dias de campanha, mas não foi uma autoavaliação. Foi pugilato. Marcas famosas como o New York Times e Washington Post arreganharam os dentes para combater a Right-Wing Media que, por sua vez, diga-se de passagem, não teve vergonha de sugerir mentiras, indo da filiação de Obama a um partido comunista a uma demência que Hillary estaria escondendo. Não, o NYT, WaPo e outras publicações respeitadas não mentiram, mas fizeram uma cobertura cuja parcialidade não ficava muito distante da Fox News. A gênese do choque da eleição de Trump foi maciçamente forjada na mídia.

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A mercadoria rara agora é você e não o que você consome

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“O cliente  tem sempre razão”. Na prática, é uma mentira na maioria das vezes. Em todas as indústrias, raramente o cliente não é visto com desdém. Parte da explicação era a sociedade de consumo, industrial, impessoal e desconectada. A combinação da consolidação digital com o derretimento da economia em 2008 criaram um cenário onde o conteúdo não perdeu somente a realeza – ele virou uma commodity rasteira. Quem era raro, virou mato e quem não tinha rosto, agora está no palco. A audiência tomou o lugar do conteúdo como moeda corrente e essa mudança de eixo é o cernhttp://www.sovrn.com/e de toda a turbulência na mídia de hoje. Continue reading “A mercadoria rara agora é você e não o que você consome”