Ruptura e consolidação do digital não virá sem fórceps

"Real Power can't be given. It must be taken".

O mundo é saudosista. As músicas das sua adolescência eram melhores que as de hoje; na sua época, as baladas eram mais legais e o futebol de 30 anos atrás era mais divertido do que o de hoje. Somos robôs de carbono programados para a saudade. O momento atual do jornalismo suscita a mesma nostalgia. Só que na realidade, todas as mazelas do jornalismo de hoje são erros de interpretação e não incapacidades. Ficar parado apreciando fotografias envelhecidas só dificultarão a decodificação do novo momento do jornalismo. Continue reading “Ruptura e consolidação do digital não virá sem fórceps”

A realidade filtrada ou por que você acha que está sempre certo

Uma democracia só se constrói com desacordo, discussão e confronto de ideias. Essa é uma das premissas em cima das quais uma imprensa forte e independente é fator sine quae non nas sociedades democráticas. Países que têm uma imprensa com origens estatais ou altamente dependente dos favores do Estado ou establishment estão acorrentados ao poço de lama fétida que é o autoritarismo mais ou menos explícito, com variações distintas indo de ditaduras absolutas (como a Arábia Saudita) até democracias disfuncionais como Brasil, Índia ou México. E a tendência é que o quadro piore com um recurso que raramente é visto como negativo – a personalização, ou como batizou o autor Eli Parisier, a “bolha de filtros” ou Filter Bubble. Talvez você ache que cada vez mais sua opinião é a mais sensata, mas provavelmente você simplesmente está tendo acesso à realidade na qual você gasta mais e fica mais satisfeito – e ela está incrivelmente longe da verdade.

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O tsunami Ninja

O que aconteceu quando os criadores da Mídia Ninja Bruno Torturra e Pablo Capilé foram ao Roda Viva, da TV Cultura? Várias coisas. Os jornalistas começaram a discutir a si mesmos e aos métodos ortodoxos de jornalismo. Apareceu também, pela primeira vez em muitíssimo tempo, um conceito de se reportar e produzir informação que rompe com o modelo da mídia tradicional. Além disso, os espectadores e os interessados no assunto começaram a ver que a Mídia Ninja, que se colocou como uma instituição ‘cool’ e integradora, tinha por trás de si uma górgona mantida por dinheiro público e falta de transparência, sobrevivendo com uma colaboração baseada num transe oligárquico quase messiânico de exploração, capitaneado pela figura exótica de seu ‘grande líder’ Capilé. Independente do que a Mídia Ninja vire, seu debut na pauta da mídia de massas não poderia ter sido mais bem-vindo.

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Incorporação das mídias sociais exige novo DNA da grande imprensa

No começo da década passada, o Scott Trust, espécie de fundação que é proprietária do diário britânico The Guardian e algumas outras propriedades, iniciou um debate que, à época, parecia sem lugar: como as empresas de mídia do grupo se posicionariam diante da Internet. A discussão parecia fora de hora porque a primeira bolha da Internet tinha acabado de estourar e todos os investidores de peso no meio tinham perdido centenas de milhões de dólares. Nem por isso, o Guardian desistiu e hoje colhe os louros da decisão. Continue reading “Incorporação das mídias sociais exige novo DNA da grande imprensa”

Hiperconectividade derruba cobertura vazia das TVs nos protestos

Trinta anos atrás, o Brasil assistiu a maior mobilização da sociedade pós-golpe com o pedido de eleições diretas para presidente. Naquela época, mesmo já trabalhando sem censura na prática, o país não teve a real noção da extensão do movimento. Já a maior emissora de TV do país, a Rede Globo maquiou a cobertura a ponto de seus profissionais serem ameaçados nas ruas e a empresa ter equipamento e veículos danificados pelos participantes dos comícios que eram sempre subdimensionados pela sua cobertura. Três décadas se passaram e a parcialidade jornalística voltou à tona em praticamente todas as emissoras, mostrando as passeatas que ocorrem pelo país primeiro com descaso e depois com um tom fortemente reprovatório, insistindo em chamar a atenção aos “baderneiros”.

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Mídia brasileira vive divórcio completo da realidade

Ontem, por volta das 21h, quem estivesse sintonizado no Sportv em algum lugar distante, sem contato com a Internet ou adjacências da Grande São Paulo, veria um cenário idilíaco: Galvão Bueno, a voz oficial do Brasil, recebendo convidados em seu programa “Bem Amigos”, num cenário montado nas piscinas de um luxuoso hotel em Fortaleza. Enquanto isso, São Paulo estava literalmente tomada por uma multidão protestando. O contraste é icônico. A mídia fala de uma sociedade que não existe para uma audiência entorpecida por anos de cabresto. Continue reading “Mídia brasileira vive divórcio completo da realidade”

O atropelamento da mídia no #protestosp

Qualquer meio ou indivíduo fala para um público. Ninguém fala para as paredes. Na última semana, os meios no Brasil ficaram, sim, falando com a parede até que foram atropelados por uma avalanche digital. Não se tratava de jornalismo, mas de uma conversação pública que jamais tinha ocorrido. Depois de dias negando o inegável, uma após outra, as empresas começaram a ver que era melhor abandonar alianças convenientes porque o “outro lado” é basicamente a audiência toda. Datenas, Galvões, Biais, Schmidts, Estadões e variantes, provaram pela primeira vez a sensação de que eles não estão mais no controle. Numa comunidade inserida numa rede como a Internet, dominar um único grafo, por mais poderoso que ele seja, não significa nada. Continue reading “O atropelamento da mídia no #protestosp”

Escândalo do PRISM reitera necessidade de mídia multifragmentada

E ao que tudo indica, o governo “Yes, We can” de Barack Obama revela-se refém de um sistema de poder maior, que ignora partidos, eleições, eleitores e qualquer outro tipo de respaldo. Edward Snowden, um analista de dados do NSA, uma agência de segurança americana, revelou documentos que provam que o governo obtinha dados sigilosos de indivíduos da parte de praticamente todos os gigantes de tecnologia – indo de Apple a Facebook, sem deixar – quase – ninguém de fora. A denúncia marca a confirmação do inconfessável “Big Brother” que o mundo de hoje proporciona e as repercussões disso serão profundas. Mas não, apesar da brilhante cobertura do Guardian, NYT e Washington Post, não significa um comeback do jornalismo ou das empresas tradicionais. O que se prova é exatamente o contrário: que só estaremos mais seguros quando não dependermos só de meia dúzia de empresas. Continue reading “Escândalo do PRISM reitera necessidade de mídia multifragmentada”

Jornalismo precisa que academia se aproxime do mercado

Em nenhum momento da história da humanidade a comunicação teve um ritmo de mudança parecido com o atual. A eliminação da distância criou possibilidades para, pela primeira vez na história da humanidade, se pensar em sistemas de comunicação realmente universais. Contudo, tais mecanismos se desenvolvem, curiosamente, distantes dos centros de excelência de pesquisa das universidades – o que é uma verdadeira loucura. Nietzsche já alertava que a loucura no indivíduo é a exceção, mas nos grupos, é a regra. A academia se coloca à distância da procura para soluções no jornalismo num momento em que o jornalismo precisa desesperadamente da academia. Continue reading “Jornalismo precisa que academia se aproxime do mercado”

New Journalism precisa de reedição digital

“Ninguém vai pagar por um produto jornalístico que foi publicado também em mil outros lugares”. A observação óbvia é de um jornalista finlandês, feita num texto da OJR, uma revista online da University of Southern California. Por mais simples que pareça, o comentário está na raiz da incompreensão da migração digital do jornalismo. Mas não para aí. A prática do jornalismo, mesmo antes do digital, tinha sido reduzida à reprodução de matérias de agências, publicação de comunicados de imprensa e redução das redações para aumentar o lucro das empresas. Agora, como não há saída, a indústria pode aproveitar a mudança para tentar uma nova versão do New Journalism. Não há mais como evitar os riscos. Então, é melhor aproveitá-los bem. Continue readingNew Journalism precisa de reedição digital”

Mídias sociais causam mais caos em Boston – e arrastam o jornalismo

Para qualquer entusiasta das mídias sociais e seu uso no jornalismo, a semana passada foi uma tragédia. Ou melhor, uma tragédia dobrada. A tragédia em si foi o atentado sem sentido (cabendo a discussão sobre se algum atentado tem sentido) na maratona de Boston. Jornalisticamente, a devastação veio na cobertura da caça aos responsáveis, onde incompetentes bem-intencionados e oportunistas inescrupulosos se transformaram num exército de Brancaleone e onde a própria mídia tradicional não sabia se corria atrás do turbilhão digital ou se perdia audiência para informar direito. O episódio deixou claro que não existe “jornalismo-cidadão” e que, embora indispensáveis para a coleta de informação, as mídias sociais não bastam para substituir o jornalismo. A sociedade precisa de jornalistas e empresas adequados à nova realidade. Sem eles, haverá um preço a pagar. Continue reading “Mídias sociais causam mais caos em Boston – e arrastam o jornalismo”

Jornalismo em crise tem na tecnologia sua única saída

O jornalismo hoje vive um momento esquizofrênico. Apesar de viver de um modelo de negócios decadente, ter sido sucateado por décadas pelos executivos da indústria, e formar seus profissionais num sistema educacional falido, que não presta contas a ninguém e insiste em viver absolutamente distante da realidade, seu status quo berra contra mudanças tecnológicas que vão “diminuir o valor do jornalista”. Essa esquizofrenia conveniente e hipócrita simplesmente cria um atrito que tornará mais doloroso um processo inevitável.

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