Como o vício em novidades está sangrando as indústrias de mídia e publicidade

Acompanhar qualquer coisa na mídia hoje é um exercídio frustrante de controle do FOMO, mas de vez em quando, algumas coisas fisgam você. Uma entrevista de um top exec de publicidade da Digiday teve esse efeito no meu media debriefing depois do post de um colega. O exec falava, sem meias palavras, como a  indústria da publicidade (e a de mídia, por tabela), têm um fetiche por novidades que é completamente irracional. Enquanto o sistema não encontrar alguns checks and balances, a situação vai só piorar.

Qual a questão aqui: bem, parte da coisa está no DNA de uma indústria que vive de previsões sobre mercados futuros. Mais do que qualquer outro setor, o nicho de tecnologia forçadamente avalia e aposta no que vai acontecer e até certo ponto ignora a realidade. A distorção da realidade, contudo, não está na característica especulativa natural do nicho, mas no hype desenfreado que a última década ampliou exponencialmente. A lógica de negocial que vale para todas as indústrias foi substituída por uma abordagem na qual o importante não é o que a coisa é, mas o que ela parece – e promete.

O milionário Warren Buffett, que se tornou o messias do investimento seguro depois da quebradeira de 2008 exatamente por sua cautela e eficiência nos investimentos tem um mantra: “Eu jamais coloco um centavo num negócio que eu não consiga entender como vai dar dinheiro”.

Em tese, essa é a voz do capitalismo encarnada. Negócios jamais têm uma finalidade que não seja a de obter o maior retorno possível. De Adam Smith até hoje, passando pela leitura de Karl Marx em Das Kapital, nenhum economista há de discordar. Mas no ambiente de tecnologia, os participantes sentem-se à vontade para colocar dinheiro no que não entendem (e às vezes, no que ninguém entende).

A avaliação de uma start-up (qualquer uma, não somente de media-tech niche) é feita em cima de valores concretos, sem que haja espaço para “achismos” (esse é um infográfico simples, mas funcional da coisa), mas a coisa desandou. Há três meses, o Tech Crunch fez um artigo abordando o exagero das avaliações de “unicórnios” que se encerra assim:

The bubble will not continue forever. Sectors that used to be super hot such, as cloud computing or mobile apps, are not disruptive anymore, and in a few years AI and automotive will also lose their shine. It will still take quite a few years for all these innovative companies to meet real infrastructure and cultural change, and the innovation industry is about to crunch. When that happens, consumers will realize they don’t need so many me-too products around them, and as the interest rates begin to rise again and VC vintages are over, we may see valuations turn the current game much more “interesting” — or perhaps even a much less friendly term.

Não parece animador, né? Mas é pior do que isso: o problema não é só que competidores num determinado nicho não vão sobreviver e mesmo empresas que obtenham sucesso surreal podem vir a ser bem menos lucrativas do que seus bem cuidados planos de negócios propunham. Basta pensar que o Twitter, que é de longe a ferramenta mais útil para a sociedade como um todo, fracassou em suas metas de receitas e acabou sendo vendida para a Disney, muito em parte da relação de um de seus fundadores no Conselho da maior empresa de entretenimento do mundo.

No fim de 2015, na sua primeira fala às redações de uma grande empresa de mídia, um conhecido nome do jornalismo americano desafiou seus próprios comandados ao determinar que eles deviam esquecer de querer fazer sucesso com as audiências de Manhattan e outros centros sofisticados para prestar atenção a famílias do Meio-Oeste americano, porque  (aqui, observação minha) 99.9% das operações amplas de mídia do mundo só têm chance de se sustentar quando voltadas para audiências massivas e não, elites trendy de bairros chiques.

Traduzindo: se você não quiser falar com um nicho, precisa conversar com todo mundo – e não com quem é cool. Um seleto grupo de vivaldinos middle-men está arrancando o couro de anunciantes e publicações vendendo soluções tecnológicas que são muito atraentes, mas que vendem pouco peixe no fim do dia. A a conta só fecha com o peixe vendido.

É bem verdade que é muito mais sedutor falar com quem é cool do que com “a galera”. Pega muito melhor ser o investidor de uma empresa que aposta na exploração de Júpiter do que num app de micropagamentos na África, mas o mundo real não faz concessões e antes de ir a Júpiter, o mercado precisa resolver o problema de micropagamentos na África. As valutações de empresas de tecnologia, com particular incidência nas de mídia, seguem se afastando da realidade mesmo depois de sintomas de que o vôo não é em céu de brigadeiro (como a readequação de previsão de receita anual do Buzzfeed pela metade).

Esse é um sintoma claro da “bolha” mencionada pelo Tech Crunch e é totalmente em harmonia com a leitura histórica de momentos pouco anteriores à implosão de mercados superaquecidos. Mas a gente não aprende, né? O momento irracional do mundo não é só no que elege Trump e “bomba” chances de Dória e Bolsonaro. Ele é sistêmico, e não localizado.

 

“Fake News”, o filho bastardo psicótico do jornalismo

Quando, na madrugada de 9 de Novembro,  Donald Trump fez seu pronunciamento já como presidente eleito, a América liberal (e o mundo) sentiu um frio na espinha digno de filmes de terror. Trump, numa excitação quase histérica, anunciava a capitulação democrata após um longo e sangrento combate diante de uma sociedade atônita. Naquela noite, o status quo do jornalismo americano, que dava a derrota de Trump como favas contadas, recebeu uma muqueta na boca e beijou a lona, entrando num estado confusionário na busca por respostas. Naquela noite,Trump fez o parto da entidade fake news como o culpado mais provável por uma eleição histórica. Juntamente com os termos “surreal” e“pós-verdade”,  as fake news podem representar uma oportunidade épica para o jornalismo – ou a pá de cal num moribundo em coma.

Todos os ano, o Google faz um wrap-up da faxina que faz no seu inventário de ads. No relatório deste ano, uma varredura que desse conta da vedete maligna das notícias inventadas era aguardada – e até aconteceu. Só que o core da fiscalização da empresa de Mountain View mirava em conteúdo falso destinado a bombar a venda de produtos, como pro exemplo, remédios falsos ou que enganam compradores. Sites destinados à criação de matérias do tipo “Papa Francisco choca o mundo ao anunciar apoio a Trump” continuaram a circular livremente, não sendo alvos primários da Inquisição algorítmica.

Investigações complexas têm surgido na mídia desde a eleição do midiático empresário buscando mostrar factualmente que a eleição foi fraudada. Gráficos, listas e análises (como essa da Digiday) são recorrentes e em alguns casos, até levantam pontos interessantes e revelam, justamente, um problema com atribuição de credibilidade à Internet que é relevante e preocupante, mas a trave está longe do lugar onde a bola foi. O alicerce do problema, ou melhor, o problema da imprensa é que os seus próprios alicerces estão  – muito – comprometidos.

(Falta de) Confiança do público

Jamais a mídia esteve tão descolada da audiência. Culpe o que você quiser – falência do modelo de negócios tradicional, impacto do digital, mídias sociais. O que sai no jornal não é mais verdade, pelo menos no que diz respeito aos leitores. A conclusão do dicionário Oxford de que o termo “pós-verdade” é a palavra do ano passa pela questão da confiança. Historicamente, dizer uma mentira (ou uma falsidade – entenda a diferença nas palavras do editor do Washington Post) era um recurso de curtíssimo prazo. Na atual conjuntura, definir “verdade” passou a ter um elemento opinativo e isso também ajudou a sangrar os jornais no longo prazo – e agora é a hora em que estamos vendo a poça de sangue no chão.

Num mundo onde o culto da personalidade ficou obscenamente profícuo, as aparições públicas (algo que todo mundo faz ao postar em qualquer plataforma aberta), por mais estúpido que seja, a importância de determinar a verdade diminuiu. A disputa acoplou a verdade ao sucesso no debate. Se você ganhou a briga, levou o prêmio, mesmo que tenha roubado. As discussões importantes do mundo se transformaram num Fla-Flu com árbitro ladrão, aliás, num Fla-Flu onde você não sobe a campo só com seu time, mas leva seu próprio árbitro. Uma vez que você ganhou o bate-boca, ninguém volta para ver se você está mentindo. O presidente americano Donald Trump é o maior representante da seita radical da pós-verdade opcional.

O debate acerca do assunto está fortemente ligado à eleição de Trump. A Era Trump foi quem deu nome à entidade fake news, embora ela sempre tenha existido, porque a América Liberal, especialmente judaico-cristã, precisava de um inimigo, um dybbuk, para expiar a culpa da eleição de um candidato que declarou guerra à essência do sonho americano. Trump é a síntese do que os EUA juraram não ser e ele chegou ao poder.   Então como agora, tal realidade não pode ser verdade – tem de ser mentira. A negação diante de tamanho horror segue a lógica de Theodore Adorno quando ele observou que a verdade no nazismo era tão desgraçada que não merecia ser chamada de “verdade”.

A Inquisição Digital (do “bem”)

Em 2017, a qualquer momento, 3 a cada 5 entre os artigos trending nas redes sociais são a respeito do apresentador do The Apprentice (10 a cada 12 se a categoria for de “Notícias”). Trump não teve incertezas ao nomear seu time de governo. Ele tem um cubano ligado aos anticastristas de Miami, um general aposentado com gosto por teoria da conspiração, um conselheiro que tem opiniões facilmente ligadas ao fascismo e outra que sugere que há “fatos alternativos” aos que a imprensa mostra, um porta-voz caricato que bate boca com jornalistas. Ou seja, Trump pariu os fake news e está apaixonadamente embalando-os com um time radical de preparo questionável que tem a mesma vocação para a política e diplomacia que Godzilla chegando em Tóquio.

O quadro surreal (termo escolhido por outro dicionário, o Merriam Webster, como a palavra do ano) foi a desculpa para se iniciar a maior ofensiva midiática contra um presidente já vista. Além do combate político óbvio, dadas as medidas de governo do governo Trump até aqui, mídia, ONGs, sociedade civil e empresas de tecnologia se sentiram na obrigação de abrir uma caça às fake news, supostamente o útero maligno que trouxe ao mundo um presidente em guerra com o próprio país. Ou melhor, parte do país, porque Trump não foi eleito por uma minoria racista, milionária, evangélico-judaica que odeia negros, hispânicos, estrangeiros, intelectuais. Mais de 60 milhões de pessoas decidiram sair de casa e votar nele (falei disso neste texto aqui).

Empresas de tecnologia, jornais, jornalistas e outros começaram uma cruzada para acabar com as fake news como se elas tivessem elegido Trump e não a circunstância de um momento no qual a elite intelectual e corporativa dos EUA negligenciaram os 99% que ocuparam Wall Street. Os sites de notícias sem ligação com a realidade jamais foram tão fortes e significativos. É com o se o Der Stürmer de Julian Streicher, o primeiro-jornalista do Terceiro Reich, tivesse ganhado o Buzzfeed de presente. A imprensa está em guerra aberta com Trump e não tem nem vergonha de dizer isso, porque considera a luta contra Trump o equivalente das Cruzadas para o catolicismo medieval.

Raiz do problema não é de hoje

O jornalismo e os jornais não foram obliterados pela consolidação trumpista dos sites que dizem que Hillary Clinton tem um clone diabólico ou qualquer outra coisa. Eles foram arrastados para a irrelevância pelo distanciamento que tomaram da sociedade, lentamente, enquanto deixaram que a administração Bush mudasse a confuguração geográfica dos distritos eleitorais dos EUA, compactuassem com a invasão do Iraque sob a desculpa das armas químicas, permitiram que nenhum dos banqueiros responsável pela crise de 2008 fosse preso, tergiversaram enquanto a administração Obama perseguiu ilegalmente seja Julian Assange quanto Edward Snowden et al.

Enquanto o impacto do digital corroía as contas dos grandes meios de comunicação, a elite intelectual jornalística se esquecia mais e mais de servir à sociedade a ponto de fazer todas as escolha citadas acima. Sim, houve uma transferência de poder das empresas de comunicação para as de tecnologia, mas, não, as responsabilidades pela degradação da relação entre jornalistas e sociedade não são só conseqüências desta migração. As notícias falsas surgiram na esteira da atmosfera venenosa, intransigente e intolerante que o mundo cultivou nos últimos vinte anos e não como sub-sintoma de um movimento para fraudar eleições. A Inquisição digital em curso se classifica como sendo “do bem” e de um modo geral, até é mesmo. Infelizmente ela não faz uma autocrítica para avaliar os erros que seus inquisidores cometeram e isso faz toda a a diferença.

Pouca gente nota, mas o tipo de conteúdo mais disseminado na Web – os discursos opinativos caça-likes que falam para as audiências mais amistosas – são uma variável sofisticada de fake news. Mesmo quando não há distorção de fatos (e mais sempre do que nunca, há), o rocambole de opinião com desqualificação de críticos e fatos que debilitaram o argumento tem um efeito devastador no cerne da democracia, a discussão de ideias como ferramenta darwinista de se chegar à conclusão mais positiva para a sociedade.

Em suma: ficar revoltadinho descendo o pau no seu desafeto para que seus amiguinhos curtam e compartilhem é adubar a terra para que as fake news se espalhem. A informação falsa não é somente factual. O “debate” acerca de um assunto entre pessoas de uma opinião só é tão ilegítimo quanto a postagem de um hoax. A infecção que essa falsa discussão causa é da mesma natureza que a notícia baseada numa mentira. As fake news são um filho bastardo do jornalismo, um filho cujo reconhecimento da paternidade é o primeiro passo para atacar as causas do problema.

Só agora, com um evento mais relevante como a eleição de um presidente dos EUA é que o fedor começa a sair do ralo, mas o esgoto está onde sempre esteve. As fake news não são uma oportunidade ou ameaça para o jornalismo. Elas são um sintoma de uma mudança de paradigma que os filósofos precisarão explicar. O ser humano aceitou abrir mão da verdade, conscientemente, para se sentir mais realizado. Num cenário assim, o jornalismo não está sobre ameaça – ele não faz mais sentido, porque sua própria natureza depende desta busca pela verdade que permeia a civilização. A mídia tradicional (digital ou não) permitiu que a audiência refletisse se quer ou não a verdade. E sem a verdade como pilar, os jornalistas não existem e a sociedade fica sem alicerce.

Foto de filipe ferreira

Receita em queda tem conserto, ‘burnout’ da marca, não

Na primeira vez que viajei à Europa, em 1997, me lembro de ter ficado fascinado com a possibilidade de ler a edição do dia de jornais de outros países. Os principais jornais europeus – The Times, El Pais, Frankfurter Allgemeine – estavam em qualquer banca de jornais um pouco maior e suas marcas eram inquestionáveis em termos de audiência e autoridade. Mas eram os diários esportivos que eu achava mais sensacionais. A Gazzetta Dello Sport se destacava até fisicamente (pela cor rósea de suas páginas) entre tantos outros títulos. Na última vez que visitei o continente, em janeiro, só encontrei a Gazzetta em duas de 32 bancas. A perda de receita é dramática para os jornais, mas teoricamente ao menos, remediável. A perda de relevância é fatal – e o desaparecimento das bancas é sintoma do que está acontecendo. Continue reading “Receita em queda tem conserto, ‘burnout’ da marca, não”

Trump: resultado da desconexão de mídia e elite com a sociedade

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A mídia se discutiu muito durante os 518 dias de campanha, mas não foi uma autoavaliação. Foi pugilato. Marcas famosas como o New York Times e Washington Post arreganharam os dentes para combater a Right-Wing Media que, por sua vez, diga-se de passagem, não teve vergonha de sugerir mentiras, indo da filiação de Obama a um partido comunista a uma demência que Hillary estaria escondendo. Não, o NYT, WaPo e outras publicações respeitadas não mentiram, mas fizeram uma cobertura cuja parcialidade não ficava muito distante da Fox News. A gênese do choque da eleição de Trump foi maciçamente forjada na mídia.

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A mercadoria rara agora é você e não o que você consome

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“O cliente  tem sempre razão”. Na prática, é uma mentira na maioria das vezes. Em todas as indústrias, raramente o cliente não é visto com desdém. Parte da explicação era a sociedade de consumo, industrial, impessoal e desconectada. A combinação da consolidação digital com o derretimento da economia em 2008 criaram um cenário onde o conteúdo não perdeu somente a realeza – ele virou uma commodity rasteira. Quem era raro, virou mato e quem não tinha rosto, agora está no palco. A audiência tomou o lugar do conteúdo como moeda corrente e essa mudança de eixo é o cernhttp://www.sovrn.com/e de toda a turbulência na mídia de hoje. Continue reading “A mercadoria rara agora é você e não o que você consome”

Como o meio digital possibilitou “desertos” jornalísticos

É uma história que, se você for brasileiro, já conhece: cidade média, até com certo poder aquisitivo, tem um jornal pequeno (raramente mais de um), semiprofissional e que tem relacionamento próximo com as elites política e financeira locais. O resultado dessa equação, um jornalismo deficiente e alinhado com o poder local, criava grandes “desertos’ noticiosos, largas faixas de território onde a cobertura local era restrita e só a TV se impunha como fonte de informação. Uma combinação da evolução tecnológica e de costumes e uma recessão foram suficientes para os EUA também conhecerem a “desertificação”. Hoje é mais fácil saber o que acontece do outro lado do mundo do que na sua rua e não há uma solução em vista. Continue reading “Como o meio digital possibilitou “desertos” jornalísticos”

Mídia dos EUA tem uma bolha que logo explodirá

A evolução da economia digital das últimas duas décadas teve seu reflexo na mídia. Para cobrir um acúmulo de dinheiro massivo como o proporcionado pela Internet e derivações, a mídia especializada foi ampliada exponencialmente. Publicações sobre tecnologia (como o Tech Crunch, Mashable e Gizmodo) e empresas digitais independentes operando em modelos de negócio sem precedentes na mídia tradicional (Buzzfeed, Vice, Business Insider) estão recebendo investimentos descabidos. Há algo de podre no reino da Dinamarca e o cheiro não se restringe à economia. A mídia também ensaia uma colisão frontal com a realidade.

O ecossistema de mídia americano é o mais desenvolvido do planeta. O tamanho do mercado permite que se criem nichos capazes de sustentar várias publicações sobre um mesmo assunto. As grandes empresas injetam dinheiro em novos projetos e venture capitalists colocam há pelo menos uma década somas consistentes em iniciativas que à primeira vista soam inviáveis. O esquema gerou resultados fantásticos e até inesperados. Buzzfeed, Vice, Vox Media, Business Insider, Huffington Post, entre outros, são frutos da pujança deste modelo.

Há algo errado e não é difícil desconfiar

Apesar da riqueza de recursos e abundância, a mídia americana tem uma realidade completamente singular, onde há um componente de vaidade. A indústria tem elementos determinantes que não são regidos simplesmente pela lógica. O modo (e a aparência) de como um projeto se coloca no mercado vai aumentar ou diminuir as chances de buscar mais investimento. Avaliações fora da realidade, modelos econômicos nebulosos, produtos que não têm como se sustentar: o dia-a-dia da nova mídia americana é um palco, muito mais do que um mercado. Projetos, apostas, iniciativas e quase todas as medidas dessas novas empresas têm um caráter muito mais de visibilidade do que de negócio.

Por exemplo: o Business Insider, publicação de hard news/finanças comprado há dois meses tinha recebido um investimento de US$56 milhões antes da aquisição do título por pouco mais de US$442 mi. A Vox Media, que detém uma série de títulos muito relevantes, já conseguiu pais de US$300 milhões; o site de esportes Bleacher Report já tinha levantado US$40 milhões quando foi vendido para a Turner por US$170 mi. Vice e Vox, só para citar dois exemplos, têm valores de mercados que passam do bilhão de dólares.

Esses números não são diminutivos dessas marcas. Algumas delas podem de fato justificar tais investimentos. Por exemplo: a Turner pode transformar o Bleacher Report numa fonte de receita encaixando-o em operações que já detém. Contudo, esse tipo de faturamento com escala não é a regra.

Os números de receita da maioria das empresas com esse perfil não chega nem mesmo a pagar as próprias contas e todas elas contam com uma escalada de receita seguida de um crescimento não só em tráfego, mas também no desenvolvimento de produtos e audiências que sejam defensáveis e não-imitáveis. A lista das propriedades digitais mais valiosas feita pela ComScore é um sintoma disso. Das 50 marcas mais valiosas, somente duas são digitais independentes (ou seja: não atreladas a empresas de mídia tradicional nem a remanescentes do primeiro boom da Internet – Vox Media e Buzzfeed.

A liquidez no cenário de investimento em tecnologia dos EUA está diminuindo. Fundos de investimento estão tomando distância das novas rodadas das start-ups que ainda estejam longe da entrada na bolsa de valores. Não coincidentemente, a quantidade de IPOs de tecnologia está retrocedendo e a quantidade de empresas que estão fracassando em atingir as próprias metas vem aumentando sistematicamente, inclusive as publicações (como o Buzzfeed, a vaca sagrada do conteúdo digital).

Poucos analistas discordam de que há uma segunda bolha de tecnologia pronta para acontecer. A extensão, contudo, deve ser menos desastrosa, porque investidores e mercado tomaram mais precauções. Apesar da aparente postura descontraída dos líderes da tecnomídia, a colisão está em curso e todo mundo está procurando um lugar para se segurar. Este ano deve terminar com 500 mil demissões nas empresas de tecnologia. Quase todas as publicações e empresas de mídia fizeram layoffs neste ano e mesmo em starlets como Mashable e Vice, o machado cantou. O que isso significa?

Para começar, que a dança das cadeiras está perto do fim. Algumas das empresas que sugaram recursos nos últimos anos estão chegando no prazo que tinham estipulado para si mesmas para sair do vermelho. Projetos novos terão mais dificuldade de buscar financiamentos grandes porque largas partes dos espaços vazios de consumidores já têm dono – em alguns casos, têm até donos demais. Mas a mais importante conclusão está em enfrentar um problema que é o nervo exposto do jornalismo digital: encontrar um modelo de produzir que use a tecnologia para reduzir drasticamente os custos sem que torne a cobertura numa commodity insossa.

E existe um jeito de fazer isso? Existe. As grandes adaptações da economia parecem óbvias em retrospectiva, mas impossíveis de adivinhar antecipadamente. Só os visionários conseguem fazer isso. E os visionários de hoje aparentemente são ruins em conseguir financiamento para seus projetos. Enquanto isso, se você é jornalista, segure-se. O sobe-e-desce deu lugar ao desce-e-desce para meios de comunicação. Crescimento via financiamento de venture capital é um dos caminhos que empresas de jornalismo/conteúdo poderão utilizar, mas um modo mais preciso (e honesto) de estipular receitas futuras é necessário. Claro, isso tudo, em sociedades mais desenvolvidas. No Brasil, a legislação quase inviabiliza tais iniciativas.

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Como a ‘superstar economy’ pode ir para o lado negro da força

Pare um momento, feche os olhos, e pense no roteiro de um dia normal na sua vida. Se você mora numa cidade e tem acesso à Internet (o que é extremamente provável), é praticamente certo que você seja cliente de, no mínimo, duas das maiores empresas de tecnologia do mundo (Facebook e Google), tem uma boa chance de usar os serviços e produtos de uma terceira (Apple) e não é impossível de também usar serviços de outras duas (Amazon e Uber). Você não está sozinho: centenas de milhões de pessoas em praticamente todo o mundo fazem como você. Esses titãs, frutos simbólicos do triunfo do capitalismo, estão também se tornando uma ameaça a ele por conta da extensão de seus recursos e poder.

“Competition is for losers”. Já falei dessa frase aqui. Ela foi dita por Peter Thiel, um dois criadores do PayPal e o primeiro investidor de peso do Facebook. Essa frase é sintomática porque ele mesmo é um produto do supercapitalismo americano, mas que leva as máximas liberais de livre mercado às últimas conseqüências. ele acha que se um competidor oferece um produto muito melhor do que os concorrentes, a sociedade está melhor servida do que com produtos de fornecedores menos eficientes. Em suma: o investidor sugere que oligopólios são benéficos para a sociedade.

Thiel não é um causador do movimento pró-megacorporações, mas um sintoma desse movimento. A quarta geração das megaempresas de tecnologia está se consolidando e desenhando um novo perfil: companhias com receitas bilionárias, que empregam pouca gente proporcionalmente, que têm o capital majoritariamente trans-nacional e que têm uma gestão fiscal que, na melhor das hipóteses, pode ser chamada de “agressiva” (e na pior, de evasão fiscal pura e simples). Os novos titãs corporativos ganham muito, gastam pouco, investem muito em pesquisa e pagam pouquíssimo (ou nada) para o governo.

Para quem tem governos como o brasileiro, a sonegação pode ser encarada de maneira até jocosa – afinal, o dinheiro sumiria por conta da corrupção mesmo. Mas em democracias consolidadas onde os regimes não são cleptocracias, a redução do montante de dinheiro recolhido pelo governo gera não só problemas de ordem social, mas uma indignação generalizada. O cidadão comum está enjaulado num sistema no qual tem uma chance muito remota de sonegar imposto, mas as empresas multinacionais “apátridas” vêem os encargos fiscais quase como opcionais.

A acusação não vem de nenhum movimento social ou grupo de pesquisa ligado à entidades de esquerda. A revista britânica The Economist, um bastião do liberalismo econômico, na edição publicada no meio de Setembro, fez um especial falando do que chamou de “superstar economy”, ou seja, a economia baseada nas companhias da moda como Apple e Google. “Essas megaempresas são razão para preocupação ou celebração?”, diz o artigo introdutório. O especial não deixa dúvidas: a revista observa que, apesar das megacorporações de tecnologia representarem um sopro de modernidade e investimento em pesquisa, também sinalizam uma concentração econômica similar à que ocorreu na década de 20, com o crescimento de megacompanhias como Ford, General Electric e outras. Há 10 anos, somente uma empresa entre as seis que têm maior valor de mercado no mundo eram de tecnologia. Hoje, são cinco e elas vão cada vez mais para o topo da lista.Companhias de tecnologia entre as maiores do mundo

Máquinas de fazer dinheiro – com tecnologia

Antes de mais nada, é preciso reforçar a virtude dessa star economy. O oligopólio que nomes como Amazon e Google conseguiram é fruto direto de um investimento pesadíssimo em pesquisa e desenvolvimento. A Amazon investiu cerca de US$13 bilhões em pesquisa em 2015 (mais de 10% da receita bruta) e as cinco maiores investidoras em desenvolvimento no mundo são de tecnologia. A proporção de receita por funcionário no setor é imenso, cuja performance superam até mesmo os bancos e corretoras mais ricos do mundo. O desenvolvimento de nichos e a capacidade de escala que essas estrelas da economia têm são fantásticos e lhes renderam vantagens competitivas notáveis. Talvez até notáveis demais.

O movimento das empresas de tecnologia no cenário econômico mundial é natural e não inédito. Novas tecnologias criam possibilidades que viabilizam fontes de receita impossíveis até então. Em certa medida, o movimento se repete periodicamente, com alguns picos, como o que veio com a Internet. O desenvolvimento dos features de geolocalização tornaram o Uber possível, assim como na década de 80, o modelo de negócios da Microsoft foi responsável pela explosão no uso de computadores. Mas há alguns ruídos aí que não são positivos. Empresas como a Apple e a Amazon têm hoje uma capacidade de investimento de tal ordem que podem obstruir a entrada de concorrentes e sufocar (ou comprar) start-ups que esbocem alguma possibilidade de ameaça. O historiador de economia americano Alfred Chandler disse que o capitalismo no país no século XX teve “dez anos de competição e 90 de oligopólio”. Alguns fatos como a queda do número de entradas de empresas na bolsa de valores de tecnologia pode ser um sinal de que a visão de Chandler encontra eco na realidade de hoje.

No nível de conexão dessas empresas com a sociedade também vê movimento. O capital sempre teve uma vocação multinacional, mas ele está ficando cada vez mais radical. As maiores empresas do mundo moveram suas operações para lugares que vão da China à Irlanda buscando salários menores e isenção fiscal maior. A quantidade de empregos também encolhe. Segundo a Economist, no seu auge, as três maiores montadoras de carros nos EUA eram as maiores empresas do país e empregavam 1.2 milhão de pessoas, produzindo US$250 bilhões anuais e representando um valor de mercado de US$36bi. Hoje, somadas, Alphabet (a empresa que controla o Google), Facebook e Microsoft empregam menos de 140 mil pessoas, geram uma receita semelhante à tríade e têm uma avaliação de mercado de US$1 trilhão.

Gigantes em tudo – para o bem e para o mal

Além do gigantismo, as star companies se inclinam a também desenvolver uma maior vocação para, digamos, arranjos fiscais mais criativos. Várias empresas mudaram sua sede para países como Irlanda, Holanda e Luxemburgo. Algumas manobras financeiras – que são legais – fazem com que dezenas de bilhões de dólares deixem de ir para a conta de vários governos e turbinem os balancetes dessas companhias, gerando lucros estratosféricos e subidas vertiginosas nos valores de suas ações. Isso não é bom para a imagem das empresas e do empresariado como um todo. Nunca na história dos EUA a sociedade teve as empresas em tão baixa avaliação, com cerca de 80% dizendo que não confiam nos maiores nomes da economia privada. Não que algum investidor se preocupe com relações públicas, mas essa percepção ruim tem impacto na economia. Basta ver que Hillary e Trump prometem endurecer a vida do capital e das empresas que levaram empregos americanos que foram para o exterior.

O poderio que essas empresas geraram geram milhares de teorias da conspiração, mas nenhuma delas faz sentido. Por mais que os teóricos da conspiração se esforcem, basta ler a biografia de qualquer uma dessas companhias para notar que os comportamentos monopolistas e menos transparentes delas são criados pelo tamanho colossal que esses conglomerados atingem. Sim, há decisões claramente contrárias ao que a sociedade quer, mas esse não é um feature da indústria de tecnologia.

Em nenhum momento da história uma ou mais empresas afetariam bilhões de pessoas de uma vez, mas agora, isso ocorre até com certa freqüência. Uma simples decisão no algoritmo do Google pode condenar à morte um nicho de mercado inteiro; um novo produto da Amazon pode dizimar a concorrência a ponto de virar um monopólio.; uma mudança numa política de privacidade do Facebook pode tornar públicos os dados de centenas de milhões de pessoas. Em suma: sim, há empresas concentrando tanto poder a níveis potencialmente catastróficos, mesmo quando elas estão somente tentando entregar o melhor produto possível. Mesmo pressupondo 100% de boas intenções, problemas sérios podem acontecer – e acontecerão,  porque para operar na escala dos bilhões, é impossível impedi-los.

Construção de oligopólio ou otimização de eficiência?

As empresas mais importantes da Internet recriaram a economia em vários formatos. A capacidade de se crescer a quantidade de clientes de alguns milhares para centenas de milhões num curto espaço de tempo levou a novos paradigmas de gerenciamento e estipularam metas de produtividade que não podiam ser conseguidas antes. Empresas como o Google estabeleceram novas regras em indústrias tão diferentes como construção de data centers até transmissão de dados em fibra ótica. Essa superprodutividade levou ao cenário que a Economist desenha como potencialmente perigoso. Em questão de anos, companhias podem passar de start-ups a gigantes corporativos, cuja influência no mercado e na política pode ser inalcançável. Lobby em cima de diversos governos, transferências de dinheiro entre offshores que não recolhem impostos, aquisições que criam oligopólios e que desestabilizam as leis dos mercados. Empresas com valor de mercado bilionário produzem cerca de 60% do PIB americano e essa concentração está se acentuando.

Quanto cada companhia de tecnologia faz anualmente por funcionário

O modelo das start-ups, responsável pela criação do sucesso e eficiência do mercado de tecnologia tem cada vez menos impacto na livre concorrência. 90% das empresas que começam nas garagens e dormitórios de universidades na costa Oeste americana não chegam a virar empresas, sendo adquiridas antes por corporações que assimilam os talentos e cortam uma possível competição futura logo na raiz. Há quem diga que o modelo das start-ups é uma espécie de terceirização dos departamentos de pesquisa e desenvolvimento. Em vez de manter um departamento de R&D, as empresas compram projetos que tenham se tornado viáveis. Não é um argumento tolo, mas viciado. Gigantes como os tecnopólios americanos também matam a concorrência antes que ela apareça e o usuário fica com menos opções. Segundo as leis do mercado, quanto menos concorrência, pior o produto oferecido. Pode ser que Peter Thiel esteja certo e a competição seja uma coisa para “perdedores”. O que ele não leva em conta é que entre os perdedores estão todos que não sejam os donos ou acionistas dessas empresas.

Tecnologia está ajudando a repaginar 2016 como um 1933 moderno

Depois de uma crise econômica que somente os muito ricos não sentiram, ocorreu uma radicalização política que trouxe de volta à mesa temas que a calmaria política havia afastado: imigração, inflação, pobreza, desemprego, incerteza. Desse cenário, emergiu um personagem populista, demagogo, com amplas lacunas de ignorância, que liderou pesquisas com um diálogo de xenofobia, intolerância, militarista e intervencionista. Você pode ver esse estado de coisas nos EUA com Donald Trump, no ‘Brexit’, na evolução da direita na França e Alemanha, mas a descrição acima não é atual – é a da ascensão do nazismo e fascismo antes da II Guerra. E agora como antes, a tragédia parecia improvável até que ela aconteceu.

Hitler não tinha uma rede social quanto bolou um golpe militar numa cervejaria uma década antes de subir a poder, mas se pudesse, ele certamente teria querido uma. Em certos cenários, as mídias sociais podem ser máquinas de produzir ódio e teorias da conspiração que levam, na sua maioria, a uma ira venenosa, que indispõe as pessoas ao diálogo. A caixa de autoreverberação de um Facebook ou Twitter, por exemplo, é um experimento sem paralelo, que criou hubs de raiva, normalmente nas mãos de quem é mais extremado.

Nenhuma das redes se propõe a isso, claro, mas isso não importa. Trolls e recalcados adoram microcosmos onde eles possam sair da sua insignificância. O discurso racional não é atraente para o algoritmo e vomitórios hidrofóbicos se alastram exponencialmente por conta do funcionamento das redes viabilizados pelas mídias sociais. Extremistas e extremados se enterram na própria razão porque não vêem mais opiniões contrárias dentro do seu círculo imediato porque a Internet esconde o que você não quer ver. Lentamente, os hidrófobos vão aumentando a certeza de suas ideias e perdendo a capacidade de debater – que é o cerne da civilização. Em resumo, ninguém mais quer ser feliz – todo mundo só quer ter razão.

Qual o papel da mídia nesse cenário? A mídia parece ter esquecido da sua função de checar a realidade. A máxima vale para a maioria dos regimes democráticos. Mesmo empresas com padrões altíssimos de protocolo e qualidade como o New York Times, foram tragados para dentro da guerra ideológica desse momento de radicalização. A verdade é que avanços tecnológicos comumente vêm com uma tragédia embutida. O desenvolvimento da química tornou a I Guerra Mundial numa chacina desumano com o uso de armas químicas; o aperfeiçoamento dos aviões fez o mesmo na II Guerra e assim por diante. A tecnologia não é boa nem ruim – mas seu uso pode ir do sublime ao catastrófico.

Donald Trump é uma grosseira armação escatológica reacionária, prova cabal de que a democracia fracassa frequentemente, mas ele recebe sem dúvida um tratamento mais agressivo por parte da mídia “liberal” (entre aspas, porque, o termo no Brasil tem uma conotação diferente do que no resto do mundo). Sim, ele provoca esse tratamento, e até lucra com ele (estima-se que sua campanha tenha gerado o equivalente a US$2 bilhões em mídia gratuita até aqui), mas o buraco é mais embaixo. Ficou praticamente provado que o partido Democrata fraudou a candidatura de Hillary Clinton porque acreditava que numa disputa polarizada entre Bernie Sanders e Trump, o resultado seria mais incerto.  Por essa aparente armação, a candidata quanto o partido foram submetidos a uma crítica que corresponde a uma fração do que deveria. Como dizia Getúlio Vargas, “para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei”.

Cobertura “imparcial” é uma invenção delirante de autores de manual de redação. Nada humano é imparcial. A variação é que podem haver coberturas bem-feitas ou mal-feitas. Toda cobertura é originada com viés porque é um traço irresistível do comportamento humano.

Aqui cabe a pergunta: se uma publicação, por melhor que seja, sabe que um político disse uma mentira e que seus seguidores acreditarão naquela mentida de qualquer jeito (uma vez que vivem imersos em teorias da conspiração), a publicação (ou rede social) pode, de maneira ética, omiti-la? No caso do Facebook, houve ou não má-fé quando os seus editores “limitavam” o alcance de artigos/discussões claramente republicanas? Eles realmente limitavam ou simplesmente reagiam segundo seus princípios e credos? Dá para se despir de todo o seu preconceito?

Uma mentira dita mil vezes…

Na última conferência da Online News Association, a diretora de produto do Facebook, Fidji Fimo, disse que a empresa leva muito a sério o alastramento de notícias falsas. Provavelmente a política da empresa seja essa mesma. O modelo de negócios do Facebook está sentado em cima da confiança dos usuários e manipulações deliberadas seriam um tiro no pé, algo que sua direção raramente faz. A empresa ja deu provas que tem essa preocupação. No episódio da suposta manipulação dos Trending Topics por editores, a resposta veio rápida, com a demissão e desmontagem do time que cuidava da ferramenta e a algoritmos para escolher os temas mais discutidos.

Mas e se o Facebook (e outras empresas que tiram lucros surreais desta gestão de informação) não puderem fazer nada a esse respeito? E se podem/puderem, devem ser os únicos a ter essa responsabilidade? Como a digitalização das relações interpessoais alterou o desenho das mesmas?

Este é o cerne do problema das bolhas de informação. Aliás, “The Filter Bubbles”, é o título de um livro sobre o assunto. Eli Pariser, o autor, basicamente argumenta que os algoritmos, ao filtrarem incessantemente a informação que chega até nós, neutralizam qualquer possibilidade de exposição a novas idéias, opiniões diferentes, discussão. Sabe aquele seu amigo malinha que vive te dando alfinetadas no Facebook? No mundo virtual das redes, frequentemente esse é o único contato que você tem com pessoas que discordam de você.

Os titãs informacionais americanos não provocam o surgimento das bolhas em si, mas o modelo de negócios deles é favorável a isso. Grosso modo, redes sociais ajudam você a se conectar com as pessoas com quem você concorda. O Facebook quer que você fique feliz e é muito mais fácil deixar você contente te mostrando opiniões parecidas com as suas. Você feliz é um cliente muito mais afável e propenso a comprar coisas oferecidas pelos anunciantes, que por sua vez, pagam rios de dinheiro para colocar a carinha deles no meio da sua felicidade.

Ninguém em sã consciência discorda que o meio digital redesenhou a economia global. Há estudos sobre isso e basicamente nenhuma controvérsia. As relações não-financeiras entre pessoas sofreram uma mutação radical também. Os contatos entre conhecidos e menos conhecidos passaram a ter sua gênese nos cálculos que os complexos algoritmos de gerentes da nossa vida digital e isso tem implicações. Um estudo de um pesquisador canadense tem um argumento consistente: se algoritmos determinam boa parte da vida das pessoas, não seria justo pensar que eles não pudessem ser caixas-pretas, como os usados por Facebook, Google e outros gerentes da nossa vida digital? E por outro lado, seria justo que as empresas revelem segredos comerciais em cima de uma percepção da realidade que é totalmente opinativa?

Entre 1922 e 1936, preconceitos e intolerância que estavam latentes na Europa fizeram com que sete países (Itália, União Soviética, Áustria, Alemanha, Portugal, Espanha e Grécia) ganhassem líderes extremistas cujos motes eram exatamente iguais aos defendidos por Trump, Le Pen e afins. A retórica beligerante que ganhou um sensível espaço depois do solavanco econômico de 2008 é preocupantemente similar à do início do século passado. No período anterior à II Guerra,a  tecnologia não teve um papel relevante da radicalização do cenário político-social tão preponderante quanto hoje.

Democracias consolidadas como EUA, França e Inglaterra, hoje vêem discursos beligerantes ganharem relevância eleitoral. Essa intolerância nasce, creia ou não, na sua reação ao seu amigo malinha te dando alfinetadas por conta de credos políticos divergentes numa rede social. Da próxima vez que essas provocações infantis começarem, procure-o(a) e tente entender o ponto de vista dele, explicando o seu. Mais do que evitar de perder um amigo, esse gesto pode ajudar a desinfetar uma sociedade que cada vez mais está infeccionada.

 

 

A jornalista do NYT que desvenda o Estado Islâmico [Wired]

Rukmini Callimachi é a jornalista mais ‘fodona’ do New York Times e não é só por estar na empresa jornalística mais icônica do Ocidente: ela cobre as andanças e peripécias doentias do Estado Islâmico e acompanha todos os desdobramentos da ação do grupo pelo mundo. Essa excelente entrevista da Wired traz Callimachi por si mesma e não “só” no que ela faz no jornalismo. Continue reading “A jornalista do NYT que desvenda o Estado Islâmico [Wired]”

Homepage e multimídia: por que seu site não é só ‘social & video’

A mídia é uma indústria que vive de trends ditados pelos seus líderes de mercado – como qualquer outra.  A conversão digital jogou para a cabine de controle duas empresas que são monopolistas na prática. Essa liderança deu origem à supervalorização de dois desses trends: vídeo e social. Apesar da preponderância dos dois quando se trata de estratégia digital, editores e publicações não devem perder de vista que o seu recurso mais valioso continua sendo uma velha (e subvalorizada) conhecida: a Homepage. Continue reading “Homepage e multimídia: por que seu site não é só ‘social & video’”

‘Cale a sua boca’ ou como os sites estão acabando com os comentários (e com os trolls)

“O cliente tem sempre razão”. A frase é um dos exercícios de relações pública mais forçados da história, porque todo mundo já esteve do lado do cliente para saber que ele não funciona na prática. No jornalismo, a máxima é ainda menos verdadeira porque a obrigação do jornalista é (supostamente) dizer a verdade, ainda que isso possa alienar a audiência. Quem não se aliena é a própria audiência, especialmente os ‘trolls’. Depois de anos de esquizofrenia digital, a área dos comentários dos sites começa a morrer. Não tem volta e, mais que isso, não vai ter ninguém derramando lágrimas pela mudança. Continue reading “‘Cale a sua boca’ ou como os sites estão acabando com os comentários (e com os trolls)”