Escoriocracia: como a tecnologia coloca o pior da sociedade no poder

 


Quase que só no âmbito jornalístico ou nos mais sofisticados ambientes intelectuais é que se discute no Brasil a crescente pressão do cenário político americano que é fruto de um fenômeno mediático e tecnológico. O evento das fake news é muito mais profundo do que a compra de anúncios no Facebook por indivíduos russo supostamente a mando de Vladimir Putin. Em questão no episódio está uma notória incapacidade do país mais rico do mundo em regular a própria mídia, seja por meio de agências reguladoras ou legislação, seja por instrumentos que uma sociedade civil bem desenvolvida obrigatoriamente deveria ter. Mais do que uma piada prevista pelo criador dos Simpsons  há mais de uma década, a ascensão de Trump é só uma pústula num ferimento muito mais sério que é a dissociação de imensas partes da sociedade americana de sua imprensa, de suas elites de do governo como um todo. A brilhante montagem da Economist na sua edição desta semana é uma charge que anda no limite entre o humor e o terror, extremamente precisa na sugestão que faz de como o negócio bilionário das mídias sociais foi fundamental no desvirtuamento de um ambiente democrático que já vinha apodrecendo. O papa Francisco disse que o mundo parece cada vez mais se dirigir à guerra. Todo papa sempre diz isso, mas por coincidência ou não, essa previsão do pontífice parece profética.


Periodicamente, a humanidade atinge estágios nos quais a instabilidade chega a um nível tão grande que provoca um desarranjo sistêmico no qual o establishment é trazido ao chão pelas suas entranhas e se não implode imediatamente, inicia seu processo de deterioração. Apesar de quase sempre trágicos e quase sempre acompanhados de milhares (ou milhões) de mortes, historicamente, esses ciclos são o mecanismo social de desenvolvimento onde uma estrutura social não mais adequada se desintegra para a consolidação da seguinte. A radicalização dos modos de debate das democracias ocidentais não deixa dúvidas em relação à aproximação de um desses pontos de instabilidade anteriores a mudanças maciças. Por conta de alterações causadas por shifts tecnológicos que redesenharam setores e processos quase que instantaneamente, a maioria das sociedades desaprendeu a interagir saudavelmente e é quase que certo que o preço a pagar será incrivelmente alto – como quase sempre foi o caso.

 


 

Não combinaram com os russos


A ligação de Trump com a cleptocracia de Vladimir Putin soa extremamente fantasiosa, mas tudo leva a crer que de fato exista. Não é, contudo, a. razão pela qual o empresário ganhou uma estadia de quatro anos no Oval Office. Trump está no poder em grande parte porque soube capitalizar com a insatisfação no trabalhador americano que vê bancos e corporações só aumentarem seus lucros, enquanto a maior parte da capacidade industrial do país tenha migrado para a Ásia junto com os empregos que fizeram parte do sonho americano. Ainda que repleto de mentiras, o discurso de proximidade com o povo colou, graças à adesão de um fenômeno relativamente recente, o da Alt-Right, que deu a Trump e ao “Trumpismo” uma verdadeira milícia mediática, capaz de disseminar qualquer invenção como verdade cristalina. E ali se fez, provavelmente, uma ameaça maior do que qualquer inimigo externo jamais tenha representado na sua história.


O gráfico acima, também da Economist deixa claro como a opinião política individual se polarizou na última década. As eleições nos EUA nunca foram vencidas por republicanos ou democrata convictos, mas pela flutuação da maioria da população entre os dois partidos. Isso fazia com que candidatos e vencedores não deixassem de prestar atenção nos eleitores que não fizessem parte da sua própria base política. O novo cenário impede esse hábito. Na nova realidade da economia da atenção, políticos e a mídia são premiados ao assumir posições radicais, porque o confronto e o ataque rendem muito mais dividendos do que o debate e a mediação. O modelo de negócios das grandes empresas de mídia e tecnologia é baseado em cima do engajamento – seja ele positivo ou negativo e elas não estão dispostas a abrir mão dele até que venham a ser obrigadas. Apesar da declarada disposição das empresas em colaborar (particularmente o Facebook), é impossível que se consiga fazer alguma alteração abrangente o suficiente sem regulação. Atreladas à avaliação implacável do mercado financeiro, as gigantes da tecnologia e mídia não têm como cortar na própria carne sem provocar uma rebelião entre seus maiores acionistas.

E no ano que vem, o Brasil

No nosso quintal, a banda na escoriocracia não toca no mesmo volume, mas não é por um mérito do Brasil. Quase 40% dos brasileiros não têm acesso à Internet (nos EUA, somente 12% ficam de fora) e enquanto a taxa de analfabetismo americana é só nominal, no Brasil, quase 30% não sabe ler nem escrever. Há ainda a questão da infraestrutura: o Brasil tem uma velocidade média equivalente a 25% da americana. Por conta disso, a polarização da discussão no país é amplamente um fenômeno urbano e presente no Sul e Sudeste. Tudo isso orbita ainda ao redor de um ambiente de mídia cuja história tem uma ligação histórica com o establishment. Mesmo assim, é nítido que o ódio online também é o pano de fundo do embate apoplético entre coxinhas e petralhas.


A venenopatia dogital não se é um fenômeno de um único país ou região. É a abertura de portas da tecnologia à sordidez e baixeza da humanidade liberada sem nenhum tipo de amarra. As pessoas não se tornaram mais ou menos baixas porque têm uma conta numa rede social, mas simplesmente sentem-se livres para fazer qualquer coisa porque não são mais coibidas pela sociedade. É a sociedade – e não o governo – que deve provar que tem capacidade e e disposição de devolver às masmorras da escuridão os personagens que escrevem o roteiro de horror que estamos vivendo. Sim, regulamentação do mercado é uma das ferramentas para tanto e ela virá do governo – mas só se os indivíduos que não fazem parte dessa escoriocracia provarem que são a maioria e que não aceitam esse tipo de comportamento. Por ora, nenhuma das duas coisas demonstrou ser verdadeira.

About Cassiano Gobbet

Cassiano Gobbet is a professional with a BA in what used to be called "journalism". Following the digital tsunami that rebooted the industry, he is now interested in the possibilities that digitalisation brought to fill the information gap that society desperately needs.