Trumps, Brexits e Bolsonaro têm na mídia ‘progressista’ um cabo eleitoral

A história sempre avalia em retrospectiva e por conta de uma dinâmica cultural, tanto protagonistas quanto anônimos  raramente percebem o movimento que fazem em direção aos grandes acontecimentos que vêm a ser os divisores de águas segundo os quais a própria história se desenha. Não se trata de uma condenação (embora o desfecho deste texto seja bastante pessimista), mas de uma observação. A história não é decidida solitariamente pelas figuras que preenchem os livros, mas por bilhões de ações de centenas de participantes que, frequentemente, são vistos, equivocadamente, só como observadores. A narcisística obsessão com oa próprioa umbigo ada mídia  e da audiência “progressista” estão sistematicamente corroendo os pilares da democracia e desenhando lentamente o cenário de ruptura onde a sociedade se autoflagela, entregue a radicais, populistas, demagogos e criaturas adjacentes. Em outras palavras: eu, você e toda criatura que anda ou rasteja sobre a Terra colabora na tragédia sociopolítica que está sendo em gênese. Se continuarmos a cultura do confronto em vez de buscar o diálogo, nossas digitais estarão no mesmo curso da história que testemunhou desgraças periódicas causadas por intolerância, arrogância e ganância.

Tomada 1) No ano passado, ao avaliar os primeiros meses da participação do New York Times com os então recém-lançados Live Videos do Facebook, Liz Spayd, uma editora do jornal fez uma significativa declaração sobre o papel do NYT com a nova plataforma:

Muitos não conseguem chegar aos padrões jornalísticos normalmente ligados do New York Times…O que realmente espero é que o NYT pause para se reorganizar e retome o rigor que define com precisão o excepcional e rejeita o que é de segunda categoria. Afinal, o mundo consome vídeo de segunda e não o que o NYT é capaz de fazer.

Tomada 2) na esteira da cascata de chorume que marca a discussão política nacional, onde só existe o espaço para o bom e o mau e todo mundo se enxerga como São Jorge no cavalo branco, um episódio corriqueiro ganhou ares de breaking news quando a Folha de São Paulo tentou ouvir o Le Pen tupiniquim, Jair Bolsonaro, e ouviu um espetáculo de xingamentos, acusações, relinchos e grasnidos em troca. A conseqüência foi uma infecção na Web com bolotas pululando em todo canto zurrando em defesa e contra o milico-wannabe fluminense.

Um dos artigos mais bem articulados que eu li foi o feito pelo colega Matheus Pichonelli, que conheci um pouco mais de perto trabalhando com ele como colaborador e que agora versa no The Intercept, versão português, site do britânico Glenn Greenwald, o homem por trás dos Arquivos Snowden. Nem tente procurar o lugar onde eu desanco o texto do Matheus. Ele não tem nada com o que eu não concorde quase totalmente. Ele retrata o caráter bufonesco de Bolsonaro e como o caldo cultural que transborda até a boca do deputado é um ranço primitivo calcado em preconceito, agressividade e fobias generalizadas. Eu iria até além: é pouco provável que meu voto e o dele nas últimas duas eleições tenham sido muito parecidos, com no máximo de uns 10% de diferença. Entre Pichonelli e eu, sob o ponto de vista do estabelecimento de valores, a diferença é pontual.

Onde está o problema então? Bem, o problema é que, de um certo modo, sem Pichonelli e Spayd, nós estamos ferrados. E aqui, por “nós”, eu trato a sociedade como um todo, incluindo até Bolsonaro que, por mais odioso, histriônico e ultrajante (o texto cita diversos momentos onde ele merecia o escárnio público), tem direitos políticos, e,  se não domesticado e mantido dentro do discurso democrático pode, aí sim, virar um daqueles fenômenos que ninguém entende antes de rolar e depois não há quem não -traumaticamente – conheça.

Desde a vitória dos Brexiters na Grã-Bretanha, o mundo busca um bode expiatório para eleger como o mal encarnado, responsável pela polarização que segue se expandindo, fruto de uma boa cultura judaico-cristã que não consegue enxergar o mundo sem certo e errado. Por exemplo: na Inglaterra, a classe média mais sofisticada e as elites jogaram a culpa do Brexit no racismo da classe trabalhadora branca que está envelhecendo mas não fez nenhum esforço para analisar outro ponto de vista. Há uma genuína incompreensão da frustração do eleitorado brexitiano que é claríssimo para os tais homens brancos de mais de 50 anos desempregados e com um welfare state sendo desmontado pelo governo conservador, ajudados por uma liderança trabalhista imbecil. Daniel Blake, o protagonista totalmente loachiano de I, Daniel Blake, não teria problema em entender o que os moradores de vizinhanças cool de Londres ainda não conseguiram pescar.

Aqui vem um espaço para o encaixe da primeira parte deste texto, sobre a autoanálise quase patologicamente arrogante da articulista do Times. Imagino que a ideia dela ao escrever o texto não era vomitar autofascinação em cima do leitor, especialmente do que não se alinha com a linha editorial do jornal. Um avaliador isento, iria até mais longe e não discordaria da capacidade excepcional que o NYT tem de produzir conteúdo premium, tanto por recursos como por uma cultura de excelência. Contudo, falando em primeira pessoa, o texto ficou irritantemente arrogante, especialmente se o leitor, em vez de estar no Highline novaiorquino, estivesse lendo-o em Trent, cidade no Michigan cuja série de desgraças certamente deve ter feito algum favor pela candidatura medieval de Donald Trump.

Spayd, Pichonelli e uma série de outros opinionistas que falam com o mesmo grupo demográfico de que eu (e provavelmente, você) faço parte: Upper Middle Class, branco, educado, que vê o desemprego passar ao longe quando a crise aperta mas, até por conta da nossa sofisticação intelectual, concebe que combater a desigualdade social é um misto de princípio com bom negócio. As chances de se pressionar governos corruptos sem eles são de poucas a inexistentes. As democracias quase sempre medem sua saúde pela situaçãoda classe média. Se a classe média de um país vai mal, o país vai mal. Sem formadores de opinião que estejam dispostos a sair do chorume social contemporâneo, a classe média não fica do lado certo da disputa. Traduzindo: gente como Spayd e Pichonelli articula o modo como os princípios que uma sociedade resolveu adotar (por exemplo, como o combate à corrupção) sejam de fato instrumentalizados pelos indivíduos. Se, por outro lado, esses formadores de opinião se entrincheiram em um dos lados, estamos perdidos. Eles são os propositores, os responsáveis por elabortar o diálogo, são os gatilhos que colocam em movimento as vastas discussões que todos têm em casa, com amigos, trabalho, etc. Sem eles, ninguém busca o consenso – só se busca o confronto.

A busca da verdade nas sociedades menos contaminadas pelo autoritarismo católica vêem na diferença de opiniões o único canal possível para que a sociedade chegue mais próxima da “verdade”. Jon Stuart Mill tinha uma oposição radical: todos, mesmos aqueles com opiniões que pudessem ser obscenas, infames, asquerosas, tinham de ser aceitos na discussão pública. Mill sugeria que os partidários das excrescências tinham uma função similar à de uma vacina. O desconforto infeccioso do primeiro embate garantia que, lá na frente, esse ponto de vista inominável não voltaria para assombrar. Nós, como os americanos, pulamos a etapa da vacinação, especialmente no que diz respeito à mídia “progressista”. As aspas aqui são propositais, porque a autodenominação esclarece parte do problema. Essa facção não quer discutir, por mais que diga que quer – ela quer subserviência. A posse de termos como “progressista”, “popular” e outros de conotação positiva já matam o diálogo na raiz, porque o embate já parte sendo do bem contra o mal. Em vez de conclamar opositores para o debate, a preocupação é a da vitória na tabela de “Likes” ganhos.

A questão aqui é delicada porque não setrata de um ato deliberado, mas de uma daquelas construções culturais que inexoravelmente arrasta multidões para uma histeria coletiva. A mídia “progressista” (merecendo ou não as aspas) é a única com recursos suficientes para engajar aquela parcela da população que define eleições. Nem Trump, nem Obama, ou Lula ou qualquer líder populista/popular é eleito pela elite, mas pela classe mais singela da sociedade. Quando um texto entra na esfera pública buscando o confronto em vez do entendimento, não há acordo possível. É como tentar fazer as pazes com um desafeto começando a conversa com um tapa na cara. Escárnio, ironias e esnobismos só pioram a coisa.

Bolsonaro, Trump e os retardados do UKIP que levaram a Grã-Bretanha ao Brexit não são, na sua maioria, reacionários fascistas, racistas, que deixaram aflorar seus preconceitos. São pessoas que não dispõem do repertório cultural necessário para entender que o discurso deles não faz sentido. Trump não vai resgatar a indústria automobilística americana aumentando impostos de importação; os trabalhadores britânicos com mais de 50 anos não terão uma tempestade de empregos com a saída da Uniãio Européia e Bolsonaro não conseguirá conter a violência com a pena de morte. Esses discursos são a expressão suprema de ignorância com um narcisismo sem vergonha que é comum a todos os malucos que chegaram ao poder. Em vez da crítica, os formadores de opinião têm de tentar entender o que se passa na cabeça dos apoiadores desses pesadelos políticos. Por mais singelos que sejam, os trabalhadores comuns, que não têm nem terão chance de disputar os melhores empregos, não são burros. Algo os incomoda, frustra e enraivece e não é algo à toa. Chamá-los de “racistas” ou “zenófobos” certamente não adianta.

Evidentemente a culpa não é de Spayd, Pichonelli ou nenhum outro jornalista. Eles se encaixam aqui mais como um exemplo de como mesmo o trabalho de bons jornalistas pode entrar num turbilhão social quando esse é forte o bastante para cegar a visão global e reforçar a pontual. Tanto o Brasil quanto os EUA (ou qualquer outra democracia aflita) só conseguirão dar um passo avante quando houver disponibilidade de ouvir, mais do que falar. Um outro artigo do Intercept (diga-se, publicação de um jornalista de renome, mas com uma disposição imensa para criticar os inimigos do PT e suave, quase carinhosa, com os petistas), de J. P. Cuenca, menciona que o país está surdo. Ele tem razão. A surdez seletiva, motivada em parte pelo culto messiânico de Lula e em parte pelo ódio atroz da classe média por Lula, está roendo a democracia. Não se enganem: se essa democracia for rompida, nós seremos diretamente culpados sim. Se os carrascos voluntários já serviram Hitler, porque não haveriam de servir outros demagogos?

About Cassiano Gobbet

Cassiano Gobbet is a professional with a BA in what used to be called "journalism". Following the digital tsunami that rebooted the industry, he is now interested in the possibilities that digitalisation brought to fill the information gap that society desperately needs.