Quando, na madrugada de 9 de Novembro,  Donald Trump fez seu pronunciamento já como presidente eleito, a América liberal (e o mundo) sentiu um frio na espinha digno de filmes de terror. Trump, numa excitação quase histérica, anunciava a capitulação democrata após um longo e sangrento combate diante de uma sociedade atônita. Naquela noite, o status quo do jornalismo americano, que dava a derrota de Trump como favas contadas, recebeu uma muqueta na boca e beijou a lona, entrando num estado confusionário na busca por respostas. Naquela noite,Trump fez o parto da entidade fake news como o culpado mais provável por uma eleição histórica. Juntamente com os termos “surreal” e“pós-verdade”,  as fake news podem representar uma oportunidade épica para o jornalismo – ou a pá de cal num moribundo em coma.

Todos os ano, o Google faz um wrap-up da faxina que faz no seu inventário de ads. No relatório deste ano, uma varredura que desse conta da vedete maligna das notícias inventadas era aguardada – e até aconteceu. Só que o core da fiscalização da empresa de Mountain View mirava em conteúdo falso destinado a bombar a venda de produtos, como pro exemplo, remédios falsos ou que enganam compradores. Sites destinados à criação de matérias do tipo “Papa Francisco choca o mundo ao anunciar apoio a Trump” continuaram a circular livremente, não sendo alvos primários da Inquisição algorítmica.

Investigações complexas têm surgido na mídia desde a eleição do midiático empresário buscando mostrar factualmente que a eleição foi fraudada. Gráficos, listas e análises (como essa da Digiday) são recorrentes e em alguns casos, até levantam pontos interessantes e revelam, justamente, um problema com atribuição de credibilidade à Internet que é relevante e preocupante, mas a trave está longe do lugar onde a bola foi. O alicerce do problema, ou melhor, o problema da imprensa é que os seus próprios alicerces estão  – muito – comprometidos.

(Falta de) Confiança do público

Jamais a mídia esteve tão descolada da audiência. Culpe o que você quiser – falência do modelo de negócios tradicional, impacto do digital, mídias sociais. O que sai no jornal não é mais verdade, pelo menos no que diz respeito aos leitores. A conclusão do dicionário Oxford de que o termo “pós-verdade” é a palavra do ano passa pela questão da confiança. Historicamente, dizer uma mentira (ou uma falsidade – entenda a diferença nas palavras do editor do Washington Post) era um recurso de curtíssimo prazo. Na atual conjuntura, definir “verdade” passou a ter um elemento opinativo e isso também ajudou a sangrar os jornais no longo prazo – e agora é a hora em que estamos vendo a poça de sangue no chão.

Num mundo onde o culto da personalidade ficou obscenamente profícuo, as aparições públicas (algo que todo mundo faz ao postar em qualquer plataforma aberta), por mais estúpido que seja, a importância de determinar a verdade diminuiu. A disputa acoplou a verdade ao sucesso no debate. Se você ganhou a briga, levou o prêmio, mesmo que tenha roubado. As discussões importantes do mundo se transformaram num Fla-Flu com árbitro ladrão, aliás, num Fla-Flu onde você não sobe a campo só com seu time, mas leva seu próprio árbitro. Uma vez que você ganhou o bate-boca, ninguém volta para ver se você está mentindo. O presidente americano Donald Trump é o maior representante da seita radical da pós-verdade opcional.

O debate acerca do assunto está fortemente ligado à eleição de Trump. A Era Trump foi quem deu nome à entidade fake news, embora ela sempre tenha existido, porque a América Liberal, especialmente judaico-cristã, precisava de um inimigo, um dybbuk, para expiar a culpa da eleição de um candidato que declarou guerra à essência do sonho americano. Trump é a síntese do que os EUA juraram não ser e ele chegou ao poder.   Então como agora, tal realidade não pode ser verdade – tem de ser mentira. A negação diante de tamanho horror segue a lógica de Theodore Adorno quando ele observou que a verdade no nazismo era tão desgraçada que não merecia ser chamada de “verdade”.

A Inquisição Digital (do “bem”)

Em 2017, a qualquer momento, 3 a cada 5 entre os artigos trending nas redes sociais são a respeito do apresentador do The Apprentice (10 a cada 12 se a categoria for de “Notícias”). Trump não teve incertezas ao nomear seu time de governo. Ele tem um cubano ligado aos anticastristas de Miami, um general aposentado com gosto por teoria da conspiração, um conselheiro que tem opiniões facilmente ligadas ao fascismo e outra que sugere que há “fatos alternativos” aos que a imprensa mostra, um porta-voz caricato que bate boca com jornalistas. Ou seja, Trump pariu os fake news e está apaixonadamente embalando-os com um time radical de preparo questionável que tem a mesma vocação para a política e diplomacia que Godzilla chegando em Tóquio.

O quadro surreal (termo escolhido por outro dicionário, o Merriam Webster, como a palavra do ano) foi a desculpa para se iniciar a maior ofensiva midiática contra um presidente já vista. Além do combate político óbvio, dadas as medidas de governo do governo Trump até aqui, mídia, ONGs, sociedade civil e empresas de tecnologia se sentiram na obrigação de abrir uma caça às fake news, supostamente o útero maligno que trouxe ao mundo um presidente em guerra com o próprio país. Ou melhor, parte do país, porque Trump não foi eleito por uma minoria racista, milionária, evangélico-judaica que odeia negros, hispânicos, estrangeiros, intelectuais. Mais de 60 milhões de pessoas decidiram sair de casa e votar nele (falei disso neste texto aqui).

Empresas de tecnologia, jornais, jornalistas e outros começaram uma cruzada para acabar com as fake news como se elas tivessem elegido Trump e não a circunstância de um momento no qual a elite intelectual e corporativa dos EUA negligenciaram os 99% que ocuparam Wall Street. Os sites de notícias sem ligação com a realidade jamais foram tão fortes e significativos. É com o se o Der Stürmer de Julian Streicher, o primeiro-jornalista do Terceiro Reich, tivesse ganhado o Buzzfeed de presente. A imprensa está em guerra aberta com Trump e não tem nem vergonha de dizer isso, porque considera a luta contra Trump o equivalente das Cruzadas para o catolicismo medieval.

Raiz do problema não é de hoje

O jornalismo e os jornais não foram obliterados pela consolidação trumpista dos sites que dizem que Hillary Clinton tem um clone diabólico ou qualquer outra coisa. Eles foram arrastados para a irrelevância pelo distanciamento que tomaram da sociedade, lentamente, enquanto deixaram que a administração Bush mudasse a confuguração geográfica dos distritos eleitorais dos EUA, compactuassem com a invasão do Iraque sob a desculpa das armas químicas, permitiram que nenhum dos banqueiros responsável pela crise de 2008 fosse preso, tergiversaram enquanto a administração Obama perseguiu ilegalmente seja Julian Assange quanto Edward Snowden et al.

Enquanto o impacto do digital corroía as contas dos grandes meios de comunicação, a elite intelectual jornalística se esquecia mais e mais de servir à sociedade a ponto de fazer todas as escolha citadas acima. Sim, houve uma transferência de poder das empresas de comunicação para as de tecnologia, mas, não, as responsabilidades pela degradação da relação entre jornalistas e sociedade não são só conseqüências desta migração. As notícias falsas surgiram na esteira da atmosfera venenosa, intransigente e intolerante que o mundo cultivou nos últimos vinte anos e não como sub-sintoma de um movimento para fraudar eleições. A Inquisição digital em curso se classifica como sendo “do bem” e de um modo geral, até é mesmo. Infelizmente ela não faz uma autocrítica para avaliar os erros que seus inquisidores cometeram e isso faz toda a a diferença.

Pouca gente nota, mas o tipo de conteúdo mais disseminado na Web – os discursos opinativos caça-likes que falam para as audiências mais amistosas – são uma variável sofisticada de fake news. Mesmo quando não há distorção de fatos (e mais sempre do que nunca, há), o rocambole de opinião com desqualificação de críticos e fatos que debilitaram o argumento tem um efeito devastador no cerne da democracia, a discussão de ideias como ferramenta darwinista de se chegar à conclusão mais positiva para a sociedade.

Em suma: ficar revoltadinho descendo o pau no seu desafeto para que seus amiguinhos curtam e compartilhem é adubar a terra para que as fake news se espalhem. A informação falsa não é somente factual. O “debate” acerca de um assunto entre pessoas de uma opinião só é tão ilegítimo quanto a postagem de um hoax. A infecção que essa falsa discussão causa é da mesma natureza que a notícia baseada numa mentira. As fake news são um filho bastardo do jornalismo, um filho cujo reconhecimento da paternidade é o primeiro passo para atacar as causas do problema.

Só agora, com um evento mais relevante como a eleição de um presidente dos EUA é que o fedor começa a sair do ralo, mas o esgoto está onde sempre esteve. As fake news não são uma oportunidade ou ameaça para o jornalismo. Elas são um sintoma de uma mudança de paradigma que os filósofos precisarão explicar. O ser humano aceitou abrir mão da verdade, conscientemente, para se sentir mais realizado. Num cenário assim, o jornalismo não está sobre ameaça – ele não faz mais sentido, porque sua própria natureza depende desta busca pela verdade que permeia a civilização. A mídia tradicional (digital ou não) permitiu que a audiência refletisse se quer ou não a verdade. E sem a verdade como pilar, os jornalistas não existem e a sociedade fica sem alicerce.

Foto de filipe ferreira

Sobre o autor

Cassiano Gobbet Cassiano Gobbet é jornalista, formado pela Universidade de São Paulo e mestre em jornalismo digital pela Bournemouth University. Atualmente é Gerente de Notícias, Finanças e Frontpage no Yahoo. Anteriormente, escreveu para BBC, Guardian, Daily Mirror, When Saturday Comes, The Blizzard, Terra e outros