Trump: resultado da desconexão de mídia e elite com a sociedade

A mídia se discutiu muito durante os 518 dias de campanha, mas não foi uma autoavaliação. Foi pugilato. Marcas famosas como o New York Times e Washington Post arreganharam os dentes para combater a Right-Wing Media que, por sua vez, diga-se de passagem, não teve vergonha de sugerir mentiras, indo da filiação de Obama a um partido comunista a uma demência que Hillary estaria escondendo. Não, o NYT, WaPo e outras publicações respeitadas não mentiram, mas fizeram uma cobertura cuja parcialidade não ficava muito distante da Fox News. A gênese do choque da eleição de Trump foi maciçamente forjada na mídia.

Numa democracia consolidada, espera-se que a sociedade tenha seus canais para discutir diferenças. A mídia cumpre esse papel institucional há mais de 200 anos, em maior ou menor medida. Historicamente, a mídia teve de prestar atenção ao que falava o cidadão, quais suas aflições, aspirações e medos, para que não falasse sozinha. Na campanha eleitoral que acabou na última terça-feira, Donald Trump foi eleito e a maior parte da responsabilidade está exatamente na miopia da mídia. Trump soube entender o que o cidadão comum pensa e quer. Enquanto a mídia progressista jogava para a própria torcida, inclusive sendo desgraçadamente mais compreensiva com Hillary do que com Trump, ele conversava com o cidadão comum.

Como sempre fizeram, a sofisticação intelectual e excelência dos jornais produziram um conteúdo extremamente agradável, quase artístico em termos de qualidade, mas com um erro, gerado por uma convicção da própria razão. Em nenhum momento essa mídia “de esquerda” (entre aspas porque em qualquer lugar do mundo seria “centro”), assim como o partido Democrata, tentou entender um fenômeno que estava ocorrendo numa parcela imensa do eleitorado porque esse grupo não era “desejável”, ou como disse Hillary, era um “basket of deplorables” (“cesta de deploráveis”). Foram os “deploráveis” criticados por Hillary e ignorados pela grande mídia que lhe negaram a vitória.

Eu tenho razão e você não

O mundo tem períodos cíclicos de consolidação da democracia entremeados por ressurgimentos de vocações autoritárias. O exercício da democracia carrega obrigatoriamente uma aceitação de posições radicais sobre vários assuntos: imigração, militarismo, liberdades civis, etc. John Stuart Mill, um dos pilares da filosofia liberal (e aqui, liberal em si e não a interpretação preconceituosa da neoesquerda crítica ao “neoliberalismo”), defendia que todas as  opiniões – sem exceção, mesmo as aparentemente absurdas – devem ter espaço para serem postas em discussão. A aplicação à risca desse conceito permite o aparecimento e consolidação de grupos e publicações hidrofóbicos, que inicialmente saem da defesa de suas posições agudas e partem para um combate venenoso, com mentiras, teorias da conspiração e ódio puro. Isso não é saudável, mas é uma secreção que deve ser entendida como “custo” da democracia.

Nas últimas duas décadas, a democracia americana foi começando a ver essas rachaduras no seu assoalho. As eleições não deixaram de acontecer nem houve um impeachment, mas inúmeras razões, indo de terrorismo ao desemprego pós-2008, criaram bolhas de ressentimento nas extremidades. Mas não foi só isso. Pessoas comuns, sem ideologias radicais, também compartilhavam esse ressentimento. O mal-estar não estava somente nos ideologicamente aflitos. Ainda que sem posições concretas politicamente, o americano médio se vê, já há um bom tempo, sem perspectiva, numa sociedade na qual a perspectiva era a base da sociedade.

Esse ressentimento “não-radical” não é partidário, é horizontal. Características mais comuns: working class, masculino e com idade maior que 35 anos, normalmente alvos da retórica agressiva da mídia “progressista” e ligados a estereótipos negativos como racismo, ignorância, sexismo, gun lovers, environment haters e assim por diante. Só que não entenda mal: esse não é o perfil do grupo, mas só um retrato dele. O preconceito e incompreensão que esse grupo sofreu foi o maior cabo eleitoral que Trump poderia ter desejado.

us_real_household_median_income_thru_2014

Essa classe média do “centro” americano não se encaixa toda na descrição da “origem do mal” que democratas progressistas de Nova York, Boston e outros centros cosmopolitas gostam de descrever. Em sua imensa maioria, mais do que “deploráveis”, são desassistidos, pessoas cuja renda anual regrediu quase à mesma do fim dos anos 80 (sem contar a inflação no período), que viu empregos mudarem de país, tradições nacionais profundamente mudadas e a aparição de imigrantes para “roubar” seus empregos – tudo isso enquanto o lucro dos “1%” e corporações explodiu. Não importa se a degradação na situação desse grupo é culpa ou não de republicanos, democratas, Obama, Bush, da globalização ou da Vila Sésamo, ou de quem quer que seja.

Esse grupo extremamente ressentido e pouco (ou nada) letrado em nenhum momento viu tentativas de aproximação com a classe média sofisticada, moderna, globalizada, politicamente correta nem por parte do Partido Democrata nem da mídia que informa os “urbanos civilizados” que têm horror a Trump. Assim como em outros países, a ala “progressista” não buscou diálogo – simplesmente a marginalizou. O revide não deixou por menos.

screen-shot-2016-11-11-at-3-04-24-pmEstupefatas, tanto a mídia quanto a elite sofisticada dos EUA viram a vantagem de votos de Trump crescer na apuração da última quarta-feira até o ponto no qual o republicano foi anunciado como vencedor. De um modo geral, a imprensa não só no país, mas pelo mundo, surtou. Twitter, Facebook, Google, todos registraram um frenesi de histeria, rancor e negação da realidade. Na verdade, o mais contundente foi o momento em que a negação encontrou a realidade. Este gráfico dos trends do Google é incrivelmente simbólico. Após uma quase inexistência de buscas relacionadas ao presidente eleito, assim que começou a apuração e Hillary passou a comer poeira, explodiu o interesse por Trump e todos seus comentários surreais acerca de questões controversas, bem como a expressões como “Donald Trump dead”, que dão uma pista de que a situação não vai melhorar. O interesse por Trump e pelos seus “deploráveis” talvez tenha vindo tarde demais.

(Im)Parcial ou não?

Uma das máximas do jornalismo é a da busca pela imparcialidade, uma luta impossível de ganhar, mas que, apesar de gerar atrito e desgaste, produz o melhor jornalismo possível. Os melhores jornais americanos estão entre os melhores nisso. Contudo, uma das muitas diferenças desta campanha em relação às outras é a de que a mídia, em nome do que considerava “certo”, assumiu o maquiavélico papel de justiceira. Trump foi demonizado pela mídia mais liberal e Hillary, ainda mais, pela mídia ultraconservadora. O surgimento de tapes, vídeos, fotos e vazamentos durante o ano e meio rumo à Casa Branca foi um festival de obscenidades, com cada lado escolhendo as mais convenientes.

A grande derrotada da eleição é a mídia mainstream mais sofisticada, capaz de dar opiniões sobre tudo com a glorificada aura da verdade.  Sua desconexão com o que estava acontecendo na vida de dezenas de milhões de americanos foi o fio condutor para que o próprio Partido Democrata criasse sua realidade particular, uma que seria destruída em questão de horas durante a apuração. Na sua cruzada anti-Trump, a mídia apoiou Hillary sem nenhuma cerimônia – para cada publicação que declarou apoio a Trump, 28 endossaram a candidatura democrata à presidência. Pior: as publicações de um modo geral compraram o próprio discurso e pensaram ter deixado o eleitor do lado de fora da festa da democracia.

Só Trump entendeu o eleitor e enganou-o sem dó

Um dos líderes do Partido Republicano disse, logo após da derrota de Mitt Romney, em 2012, que o partido estava fadado a fracassar enquanto não entendesse a nova configuração demográfica do país. Ele estava parcialmente certo porque o partido em si, não o entenderia, mas Donald Trump sim. Não importa que praticamente tudo o que Trump prometeu na campanha seja falso; não importa que ele seja racista, misógino, machista, xenófobo ou o raio que o parta, como alertava  o cineasta Michael Moore há cinco meses. Trump ficou livre para disser o que quisesse para convencer o eleitorado – segundo ele mesmo, “estúpido”. Isso porque a imprensa, instituição que só funciona quando tem a confiança da sociedade para fazer esse tipo de controle, perdera sua autoridade por conta da certeza de suas presunções. Se Hillary fosse republicana, sua campanha teria sido destruída no primeiro mês. Trump, por outro lado, tinha a carta branca para mentir, porque não precisava da verdade. Estava vacinado contra ela, graças à desconexão de seus detratores com a realidade.

Este texto não é de modo algum uma celebração à vitória de Trump. Ele assumirá a presidência com a maioria na duas casas e Suprema Corte, mas o governo não será simples. Para chegar ao poder, Trump dinamitou o partido republicano e isso cria uma situação inesperada, com o GOP cheio de lutas internas. Tudo indica que ele vai deixar algumas promessas de campanha pelo caminho, como todo populista faz, mas se fizer 10% delas, já será um mandato catastrófico na economia, política externa, políticas de bem-estar social e o que mais for. Trump sai da eleição como um gênio midiático, capaz de sobreviver a dezenas de acusações que teriam acabado com qualquer candidatura e que desafiou a tudo – inclusive seu próprio partido, estrategistas de campanha, assessores de imprensa.

Trump e o Silício

As empresas de tecnologia também saem da eleição arranhadas e preocupadas. Ações de Amazon, Facebook e Google tiveram quedas sensíveis nos dias seguintes à eleição, provavelmente projetando um governo muito menos amistoso à regulamentação do setor em relação ao darling Barack Obama. E a queda na Bolsa é o menor dos problemas. O ambiente venenoso no qual a campanha aconteceu está profundamente ligado à natureza dos produtos digitais. As customizações algorítmicas que geram rios de dinheiro para o Vale do Silício tiveram, ainda que inadvertidamente, um papel nefasto tanto na criação das “bolhas” de informação que descolaram a sociedade da realidade quanto na incapacidade de impedir a disseminação de inverdades, boatos e hoaxes em geral.

A eleição de Donald Trump não foi o reflexo de um país racista, preconceituoso, amedrontado com o anti-americanismo global, hater, homofóbico e xenófobo. Além da flutuação tradicional do poder entre democratas e republicanos a cada 8 anos, foi também um descompasso entre a parcela ilustrada da população que, arrogantemente, acha que detém o monopólio da razão e que a democracia só acontece quando seus preferidos estão no poder. Sim, a campanha do bilionário e estrela de reality show foi um show de horrores, mas sua vitória foi mais um triunfo de um eleitorado farto de ficar à margem do mainstream político.

Ainda no processo de “a-culpa-não-é-minha” da mídia e da inteligentsia americana, o Facebook foi acusado de ser o responsável pela vitória de Trump, o que é, naturalmente, uma bobagem. Mas o sentimento de culpa tecnológico é inegável. Facebook e Google já mudaram as suas políticas para venda de anúncios para sites que sabidamente semeiem mentiras e o Twitter adicionou recursos para bloquear discursos de ódio. Segundo um site de tecnologia americano, o problema com os hoaxes já vinha sendo debatido no Facebook, mas a empresa teria ficado receosa de alienar ainda mais as partes mais conservadoras de sua audiência nos EUA. Sim, Facebook, Google, Twitter e todos os provedores de serviço de informação fundamentais tiveram participação na vitória de Trump, mas não foram a causa. A negação da culpa é só mais um passo do processo de choque de realidade.

Nessa eleição, a mídia estabelecida perdeu uma grande parcela da sua influência sobre o eleitorado. Essa influência  já vinha sendo corroída pelo espaço tomado pelas redes sociais e pela própria fragmentação da mídia. É possível que, mesmo sem o descompasso da mídia com a realidade, Trump acabasse eleito, especialmente se a imprensa que se declarou pró-Hillary tivesse sido severa na apuração de escândalos acerca de seu nome nos últimos dois anos (indo de Benghazi à proposta de matar Julian Assange – que ela nega ter ocorrido). Contudo, haveria uma diferença básica: se eleito nesse cenário em que a imprensa fez seu papel, Trump teria de lidar com o escrutínio de uma imprensa conectada a uma sociedade que confiaria nela. Do jeito que está, a situação é o pior dos mundos: Trump está no poder, com Congresso, Senado e Suprema Corte nas mãos de republicanos e a imprensa contrária a ele só tem aplausos da própria platéia. Mesmo os críticos mais atrozes que queriam que a imprensa tomasse um choque de realidade não imaginariam punição mais severa. Infelizmente, não há sinais de que o jornalismo americano vá fazer uma autocrítica. E além disso, as conseqüências da escorregada da mídia terão alcance global.

Sobre o autor

Cassiano Gobbet

Cassiano Gobbet é jornalista, formado pela Universidade de São Paulo e mestre em jornalismo digital pela Bournemouth University. Atualmente é Gerente de Notícias, Finanças e Frontpage no Yahoo. Anteriormente, escreveu para BBC, Guardian, Daily Mirror, When Saturday Comes, The Blizzard, Terra e outros