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“O cliente  tem sempre razão”. Na prática, é uma mentira na maioria das vezes. Em todas as indústrias, raramente o cliente não é visto com desdém. Parte da explicação era a sociedade de consumo, industrial, impessoal e desconectada. A combinação da consolidação digital com o derretimento da economia em 2008 criaram um cenário onde o conteúdo não perdeu somente a realeza – ele virou uma commodity rasteira. Quem era raro, virou mato e quem não tinha rosto, agora está no palco. A audiência tomou o lugar do conteúdo como moeda corrente e essa mudança de eixo é o cernhttp://www.sovrn.com/e de toda a turbulência na mídia de hoje.

Há quase duas décadas que a indústria de mídia sofre um processo de reconstrução geográfica. Uma série de terremotos vem refazendo o horizonte do setor. Empresas que tinham verdadeiras máquinas de fazer dinheiro viram (e ainda vêem) suas receitas minguarem tentando adaptar o negócio impresso a um suporte digital. Quase que a totalidade dos players que jogaram este jogo perderam a aposta e, em muitos dos casos, em derrotas acachapantes.

Aqui é importante fazer um pequeno passo atrás para analisar o processo. Como é que as publicações faziam sua receita até há pouco tempo?

O que é raro custa mais

As receitas das publicações na história se basearam quase sempre na escassez de inventário. Se um anunciante queria chegar a um potencial cliente, ele tinha uma certa quantidade limitada de maneiras de fazê-lo. Não havia infinitos jornais ou revistas. Por conta de uma questão tecnológica, somente uma quantidade restrita de empresas conseguia reunir informação num determinado suporte (primeiro no impresso e depois no eletrônico) para ganhar a atenção de  grandes quantidades de pessoas. Aparentemente, essas empresas viviam de vender conteúdo, mas era só impressão (sem nenhum trocadilho aqui). O negócio delas era vender o suporte.

A audiência também tinha a seu dispor um leque limitado de opções. Havia um número restrito (às vezes, muito restrito) de publicações/emissoras nos quais se podia buscar informação/entretenimento. O tamanho dessas audiências definia as receitas potenciais daqueles mercados. Praças maiores geravam preços mais altos porque chegavam a mais pessoas; mercados menores tinham operações equivalentemente menores. Tudo fazia sentido para os participantes do processo.

O que é infinito custa zero

O fim da escassez do inventário disponível de “espaço” a ser vendido pelos anunciantes foi só o começo do revertério. Com inventário tendendo ao infinito, o preço unitário de equilíbrio foi a quase zero, fazendo das empresas de tecnologia as grandes beneficiadas com a alteração, uma vez que só elas conseguem gerar quantidades maciças de tráfego com custo incremental quase nulo. O buraco foi ainda mais embaixo.

A transformação acontecida no processo foi ainda mais fundo do que um cataclisma na variação dos valores comandados por cada item. A escassez passou do produto oferecido para o consumidor do produto. A atenção do usuário/leitor/cliente é que passou a ser a commodity escassa. A atenção que cada pessoa pode dispensar para qualquer coisa tem um limite físico, biológico, pelo menos até que chips neurais e outros ingredientes de ficção científica adicionem dimensões à capacidade mental. A atenção do consumidor trocou de posição com o conteúdo que ele consumia. Ela é que está na vitrine, com seu preço a ser determinado pelo movimento das curvas de oferta e procura.

Do outro lado, o conteúdo (termo que os jornalistas ainda se recusam a admitir) passou a tender ao infinito. A discussão sobre qualidade é quase filosófica. Para o consumidor, a qualidade aceitável é a do melhor produto oferecido a custo zero e não a do melhor produto em si. Tudo acima disso é um excedente dispensável.

Essa conclusão cruel (para jornalistas e outros criadores) é fácil de se depreender dos padrões de consumo do usuário digital. Chorar não adianta. Tentar melar o jogo através de legislação caduca (como os jornais brasileiros querendo que empresas estrangeiras como BBC e El Pais parem de operar no país porque não seguem a mesozóica regra que proíbe estrangeiros de ter mais de 30% de meios de comunicação) também não. Mesmo que publicações e agências sentem para redesenhar a indústria, a chance de a devastação continuar é grande. Mas abre pelo menos uma possibilidade. Já é algo além da morte certa.

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Sobre o autor

Cassiano Gobbet Cassiano Gobbet é jornalista, formado pela Universidade de São Paulo e mestre em jornalismo digital pela Bournemouth University. Atualmente é Gerente de Notícias, Finanças e Frontpage no Yahoo. Anteriormente, escreveu para BBC, Guardian, Daily Mirror, When Saturday Comes, The Blizzard, Terra e outros