Como a ‘superstar economy’ pode ir para o lado negro da força

Pare um momento, feche os olhos, e pense no roteiro de um dia normal na sua vida. Se você mora numa cidade e tem acesso à Internet (o que é extremamente provável), é praticamente certo que você seja cliente de, no mínimo, duas das maiores empresas de tecnologia do mundo (Facebook e Google), tem uma boa chance de usar os serviços e produtos de uma terceira (Apple) e não é impossível de também usar serviços de outras duas (Amazon e Uber). Você não está sozinho: centenas de milhões de pessoas em praticamente todo o mundo fazem como você. Esses titãs, frutos simbólicos do triunfo do capitalismo, estão também se tornando uma ameaça a ele por conta da extensão de seus recursos e poder.

“Competition is for losers”. Já falei dessa frase aqui. Ela foi dita por Peter Thiel, um dois criadores do PayPal e o primeiro investidor de peso do Facebook. Essa frase é sintomática porque ele mesmo é um produto do supercapitalismo americano, mas que leva as máximas liberais de livre mercado às últimas conseqüências. ele acha que se um competidor oferece um produto muito melhor do que os concorrentes, a sociedade está melhor servida do que com produtos de fornecedores menos eficientes. Em suma: o investidor sugere que oligopólios são benéficos para a sociedade.

Thiel não é um causador do movimento pró-megacorporações, mas um sintoma desse movimento. A quarta geração das megaempresas de tecnologia está se consolidando e desenhando um novo perfil: companhias com receitas bilionárias, que empregam pouca gente proporcionalmente, que têm o capital majoritariamente trans-nacional e que têm uma gestão fiscal que, na melhor das hipóteses, pode ser chamada de “agressiva” (e na pior, de evasão fiscal pura e simples). Os novos titãs corporativos ganham muito, gastam pouco, investem muito em pesquisa e pagam pouquíssimo (ou nada) para o governo.

Para quem tem governos como o brasileiro, a sonegação pode ser encarada de maneira até jocosa – afinal, o dinheiro sumiria por conta da corrupção mesmo. Mas em democracias consolidadas onde os regimes não são cleptocracias, a redução do montante de dinheiro recolhido pelo governo gera não só problemas de ordem social, mas uma indignação generalizada. O cidadão comum está enjaulado num sistema no qual tem uma chance muito remota de sonegar imposto, mas as empresas multinacionais “apátridas” vêem os encargos fiscais quase como opcionais.

A acusação não vem de nenhum movimento social ou grupo de pesquisa ligado à entidades de esquerda. A revista britânica The Economist, um bastião do liberalismo econômico, na edição publicada no meio de Setembro, fez um especial falando do que chamou de “superstar economy”, ou seja, a economia baseada nas companhias da moda como Apple e Google. “Essas megaempresas são razão para preocupação ou celebração?”, diz o artigo introdutório. O especial não deixa dúvidas: a revista observa que, apesar das megacorporações de tecnologia representarem um sopro de modernidade e investimento em pesquisa, também sinalizam uma concentração econômica similar à que ocorreu na década de 20, com o crescimento de megacompanhias como Ford, General Electric e outras. Há 10 anos, somente uma empresa entre as seis que têm maior valor de mercado no mundo eram de tecnologia. Hoje, são cinco e elas vão cada vez mais para o topo da lista.Companhias de tecnologia entre as maiores do mundo

Máquinas de fazer dinheiro – com tecnologia

Antes de mais nada, é preciso reforçar a virtude dessa star economy. O oligopólio que nomes como Amazon e Google conseguiram é fruto direto de um investimento pesadíssimo em pesquisa e desenvolvimento. A Amazon investiu cerca de US$13 bilhões em pesquisa em 2015 (mais de 10% da receita bruta) e as cinco maiores investidoras em desenvolvimento no mundo são de tecnologia. A proporção de receita por funcionário no setor é imenso, cuja performance superam até mesmo os bancos e corretoras mais ricos do mundo. O desenvolvimento de nichos e a capacidade de escala que essas estrelas da economia têm são fantásticos e lhes renderam vantagens competitivas notáveis. Talvez até notáveis demais.

O movimento das empresas de tecnologia no cenário econômico mundial é natural e não inédito. Novas tecnologias criam possibilidades que viabilizam fontes de receita impossíveis até então. Em certa medida, o movimento se repete periodicamente, com alguns picos, como o que veio com a Internet. O desenvolvimento dos features de geolocalização tornaram o Uber possível, assim como na década de 80, o modelo de negócios da Microsoft foi responsável pela explosão no uso de computadores. Mas há alguns ruídos aí que não são positivos. Empresas como a Apple e a Amazon têm hoje uma capacidade de investimento de tal ordem que podem obstruir a entrada de concorrentes e sufocar (ou comprar) start-ups que esbocem alguma possibilidade de ameaça. O historiador de economia americano Alfred Chandler disse que o capitalismo no país no século XX teve “dez anos de competição e 90 de oligopólio”. Alguns fatos como a queda do número de entradas de empresas na bolsa de valores de tecnologia pode ser um sinal de que a visão de Chandler encontra eco na realidade de hoje.

No nível de conexão dessas empresas com a sociedade também vê movimento. O capital sempre teve uma vocação multinacional, mas ele está ficando cada vez mais radical. As maiores empresas do mundo moveram suas operações para lugares que vão da China à Irlanda buscando salários menores e isenção fiscal maior. A quantidade de empregos também encolhe. Segundo a Economist, no seu auge, as três maiores montadoras de carros nos EUA eram as maiores empresas do país e empregavam 1.2 milhão de pessoas, produzindo US$250 bilhões anuais e representando um valor de mercado de US$36bi. Hoje, somadas, Alphabet (a empresa que controla o Google), Facebook e Microsoft empregam menos de 140 mil pessoas, geram uma receita semelhante à tríade e têm uma avaliação de mercado de US$1 trilhão.

Gigantes em tudo – para o bem e para o mal

Além do gigantismo, as star companies se inclinam a também desenvolver uma maior vocação para, digamos, arranjos fiscais mais criativos. Várias empresas mudaram sua sede para países como Irlanda, Holanda e Luxemburgo. Algumas manobras financeiras – que são legais – fazem com que dezenas de bilhões de dólares deixem de ir para a conta de vários governos e turbinem os balancetes dessas companhias, gerando lucros estratosféricos e subidas vertiginosas nos valores de suas ações. Isso não é bom para a imagem das empresas e do empresariado como um todo. Nunca na história dos EUA a sociedade teve as empresas em tão baixa avaliação, com cerca de 80% dizendo que não confiam nos maiores nomes da economia privada. Não que algum investidor se preocupe com relações públicas, mas essa percepção ruim tem impacto na economia. Basta ver que Hillary e Trump prometem endurecer a vida do capital e das empresas que levaram empregos americanos que foram para o exterior.

O poderio que essas empresas geraram geram milhares de teorias da conspiração, mas nenhuma delas faz sentido. Por mais que os teóricos da conspiração se esforcem, basta ler a biografia de qualquer uma dessas companhias para notar que os comportamentos monopolistas e menos transparentes delas são criados pelo tamanho colossal que esses conglomerados atingem. Sim, há decisões claramente contrárias ao que a sociedade quer, mas esse não é um feature da indústria de tecnologia.

Em nenhum momento da história uma ou mais empresas afetariam bilhões de pessoas de uma vez, mas agora, isso ocorre até com certa freqüência. Uma simples decisão no algoritmo do Google pode condenar à morte um nicho de mercado inteiro; um novo produto da Amazon pode dizimar a concorrência a ponto de virar um monopólio.; uma mudança numa política de privacidade do Facebook pode tornar públicos os dados de centenas de milhões de pessoas. Em suma: sim, há empresas concentrando tanto poder a níveis potencialmente catastróficos, mesmo quando elas estão somente tentando entregar o melhor produto possível. Mesmo pressupondo 100% de boas intenções, problemas sérios podem acontecer – e acontecerão,  porque para operar na escala dos bilhões, é impossível impedi-los.

Construção de oligopólio ou otimização de eficiência?

As empresas mais importantes da Internet recriaram a economia em vários formatos. A capacidade de se crescer a quantidade de clientes de alguns milhares para centenas de milhões num curto espaço de tempo levou a novos paradigmas de gerenciamento e estipularam metas de produtividade que não podiam ser conseguidas antes. Empresas como o Google estabeleceram novas regras em indústrias tão diferentes como construção de data centers até transmissão de dados em fibra ótica. Essa superprodutividade levou ao cenário que a Economist desenha como potencialmente perigoso. Em questão de anos, companhias podem passar de start-ups a gigantes corporativos, cuja influência no mercado e na política pode ser inalcançável. Lobby em cima de diversos governos, transferências de dinheiro entre offshores que não recolhem impostos, aquisições que criam oligopólios e que desestabilizam as leis dos mercados. Empresas com valor de mercado bilionário produzem cerca de 60% do PIB americano e essa concentração está se acentuando.

Quanto cada companhia de tecnologia faz anualmente por funcionário

O modelo das start-ups, responsável pela criação do sucesso e eficiência do mercado de tecnologia tem cada vez menos impacto na livre concorrência. 90% das empresas que começam nas garagens e dormitórios de universidades na costa Oeste americana não chegam a virar empresas, sendo adquiridas antes por corporações que assimilam os talentos e cortam uma possível competição futura logo na raiz. Há quem diga que o modelo das start-ups é uma espécie de terceirização dos departamentos de pesquisa e desenvolvimento. Em vez de manter um departamento de R&D, as empresas compram projetos que tenham se tornado viáveis. Não é um argumento tolo, mas viciado. Gigantes como os tecnopólios americanos também matam a concorrência antes que ela apareça e o usuário fica com menos opções. Segundo as leis do mercado, quanto menos concorrência, pior o produto oferecido. Pode ser que Peter Thiel esteja certo e a competição seja uma coisa para “perdedores”. O que ele não leva em conta é que entre os perdedores estão todos que não sejam os donos ou acionistas dessas empresas.

Sobre o autor

Cassiano Gobbet

Cassiano Gobbet é jornalista, formado pela Universidade de São Paulo e mestre em jornalismo digital pela Bournemouth University. Atualmente é Gerente de Notícias, Finanças e Frontpage no Yahoo. Anteriormente, escreveu para BBC, Guardian, Daily Mirror, When Saturday Comes, The Blizzard, Terra e outros