A evolução da economia digital das últimas duas décadas teve seu reflexo na mídia. Para cobrir um acúmulo de dinheiro massivo como o proporcionado pela Internet e derivações, a mídia especializada foi ampliada exponencialmente. Publicações sobre tecnologia (como o Tech Crunch, Mashable e Gizmodo) e empresas digitais independentes operando em modelos de negócio sem precedentes na mídia tradicional (Buzzfeed, Vice, Business Insider) estão recebendo investimentos descabidos. Há algo de podre no reino da Dinamarca e o cheiro não se restringe à economia. A mídia também ensaia uma colisão frontal com a realidade.

O ecossistema de mídia americano é o mais desenvolvido do planeta. O tamanho do mercado permite que se criem nichos capazes de sustentar várias publicações sobre um mesmo assunto. As grandes empresas injetam dinheiro em novos projetos e venture capitalists colocam há pelo menos uma década somas consistentes em iniciativas que à primeira vista soam inviáveis. O esquema gerou resultados fantásticos e até inesperados. Buzzfeed, Vice, Vox Media, Business Insider, Huffington Post, entre outros, são frutos da pujança deste modelo.

Há algo errado e não é difícil desconfiar

Apesar da riqueza de recursos e abundância, a mídia americana tem uma realidade completamente singular, onde há um componente de vaidade. A indústria tem elementos determinantes que não são regidos simplesmente pela lógica. O modo (e a aparência) de como um projeto se coloca no mercado vai aumentar ou diminuir as chances de buscar mais investimento. Avaliações fora da realidade, modelos econômicos nebulosos, produtos que não têm como se sustentar: o dia-a-dia da nova mídia americana é um palco, muito mais do que um mercado. Projetos, apostas, iniciativas e quase todas as medidas dessas novas empresas têm um caráter muito mais de visibilidade do que de negócio.

Por exemplo: o Business Insider, publicação de hard news/finanças comprado há dois meses tinha recebido um investimento de US$56 milhões antes da aquisição do título por pouco mais de US$442 mi. A Vox Media, que detém uma série de títulos muito relevantes, já conseguiu pais de US$300 milhões; o site de esportes Bleacher Report já tinha levantado US$40 milhões quando foi vendido para a Turner por US$170 mi. Vice e Vox, só para citar dois exemplos, têm valores de mercados que passam do bilhão de dólares.

Esses números não são diminutivos dessas marcas. Algumas delas podem de fato justificar tais investimentos. Por exemplo: a Turner pode transformar o Bleacher Report numa fonte de receita encaixando-o em operações que já detém. Contudo, esse tipo de faturamento com escala não é a regra.

Os números de receita da maioria das empresas com esse perfil não chega nem mesmo a pagar as próprias contas e todas elas contam com uma escalada de receita seguida de um crescimento não só em tráfego, mas também no desenvolvimento de produtos e audiências que sejam defensáveis e não-imitáveis. A lista das propriedades digitais mais valiosas feita pela ComScore é um sintoma disso. Das 50 marcas mais valiosas, somente duas são digitais independentes (ou seja: não atreladas a empresas de mídia tradicional nem a remanescentes do primeiro boom da Internet – Vox Media e Buzzfeed.

A liquidez no cenário de investimento em tecnologia dos EUA está diminuindo. Fundos de investimento estão tomando distância das novas rodadas das start-ups que ainda estejam longe da entrada na bolsa de valores. Não coincidentemente, a quantidade de IPOs de tecnologia está retrocedendo e a quantidade de empresas que estão fracassando em atingir as próprias metas vem aumentando sistematicamente, inclusive as publicações (como o Buzzfeed, a vaca sagrada do conteúdo digital).

Poucos analistas discordam de que há uma segunda bolha de tecnologia pronta para acontecer. A extensão, contudo, deve ser menos desastrosa, porque investidores e mercado tomaram mais precauções. Apesar da aparente postura descontraída dos líderes da tecnomídia, a colisão está em curso e todo mundo está procurando um lugar para se segurar. Este ano deve terminar com 500 mil demissões nas empresas de tecnologia. Quase todas as publicações e empresas de mídia fizeram layoffs neste ano e mesmo em starlets como Mashable e Vice, o machado cantou. O que isso significa?

Para começar, que a dança das cadeiras está perto do fim. Algumas das empresas que sugaram recursos nos últimos anos estão chegando no prazo que tinham estipulado para si mesmas para sair do vermelho. Projetos novos terão mais dificuldade de buscar financiamentos grandes porque largas partes dos espaços vazios de consumidores já têm dono – em alguns casos, têm até donos demais. Mas a mais importante conclusão está em enfrentar um problema que é o nervo exposto do jornalismo digital: encontrar um modelo de produzir que use a tecnologia para reduzir drasticamente os custos sem que torne a cobertura numa commodity insossa.

E existe um jeito de fazer isso? Existe. As grandes adaptações da economia parecem óbvias em retrospectiva, mas impossíveis de adivinhar antecipadamente. Só os visionários conseguem fazer isso. E os visionários de hoje aparentemente são ruins em conseguir financiamento para seus projetos. Enquanto isso, se você é jornalista, segure-se. O sobe-e-desce deu lugar ao desce-e-desce para meios de comunicação. Crescimento via financiamento de venture capital é um dos caminhos que empresas de jornalismo/conteúdo poderão utilizar, mas um modo mais preciso (e honesto) de estipular receitas futuras é necessário. Claro, isso tudo, em sociedades mais desenvolvidas. No Brasil, a legislação quase inviabiliza tais iniciativas.

Photo by Dykam

Sobre o autor

Cassiano Gobbet Cassiano Gobbet é jornalista, formado pela Universidade de São Paulo e mestre em jornalismo digital pela Bournemouth University. Atualmente é Gerente de Notícias, Finanças e Frontpage no Yahoo. Anteriormente, escreveu para BBC, Guardian, Daily Mirror, When Saturday Comes, The Blizzard, Terra e outros