Depois de uma crise econômica que somente os muito ricos não sentiram, ocorreu uma radicalização política que trouxe de volta à mesa temas que a calmaria política havia afastado: imigração, inflação, pobreza, desemprego, incerteza. Desse cenário, emergiu um personagem populista, demagogo, com amplas lacunas de ignorância, que liderou pesquisas com um diálogo de xenofobia, intolerância, militarista e intervencionista. Você pode ver esse estado de coisas nos EUA com Donald Trump, no ‘Brexit’, na evolução da direita na França e Alemanha, mas a descrição acima não é atual – é a da ascensão do nazismo e fascismo antes da II Guerra. E agora como antes, a tragédia parecia improvável até que ela aconteceu.

Hitler não tinha uma rede social quanto bolou um golpe militar numa cervejaria uma década antes de subir a poder, mas se pudesse, ele certamente teria querido uma. Em certos cenários, as mídias sociais podem ser máquinas de produzir ódio e teorias da conspiração que levam, na sua maioria, a uma ira venenosa, que indispõe as pessoas ao diálogo. A caixa de autoreverberação de um Facebook ou Twitter, por exemplo, é um experimento sem paralelo, que criou hubs de raiva, normalmente nas mãos de quem é mais extremado.

Nenhuma das redes se propõe a isso, claro, mas isso não importa. Trolls e recalcados adoram microcosmos onde eles possam sair da sua insignificância. O discurso racional não é atraente para o algoritmo e vomitórios hidrofóbicos se alastram exponencialmente por conta do funcionamento das redes viabilizados pelas mídias sociais. Extremistas e extremados se enterram na própria razão porque não vêem mais opiniões contrárias dentro do seu círculo imediato porque a Internet esconde o que você não quer ver. Lentamente, os hidrófobos vão aumentando a certeza de suas ideias e perdendo a capacidade de debater – que é o cerne da civilização. Em resumo, ninguém mais quer ser feliz – todo mundo só quer ter razão.

Qual o papel da mídia nesse cenário? A mídia parece ter esquecido da sua função de checar a realidade. A máxima vale para a maioria dos regimes democráticos. Mesmo empresas com padrões altíssimos de protocolo e qualidade como o New York Times, foram tragados para dentro da guerra ideológica desse momento de radicalização. A verdade é que avanços tecnológicos comumente vêm com uma tragédia embutida. O desenvolvimento da química tornou a I Guerra Mundial numa chacina desumano com o uso de armas químicas; o aperfeiçoamento dos aviões fez o mesmo na II Guerra e assim por diante. A tecnologia não é boa nem ruim – mas seu uso pode ir do sublime ao catastrófico.

Donald Trump é uma grosseira armação escatológica reacionária, prova cabal de que a democracia fracassa frequentemente, mas ele recebe sem dúvida um tratamento mais agressivo por parte da mídia “liberal” (entre aspas, porque, o termo no Brasil tem uma conotação diferente do que no resto do mundo). Sim, ele provoca esse tratamento, e até lucra com ele (estima-se que sua campanha tenha gerado o equivalente a US$2 bilhões em mídia gratuita até aqui), mas o buraco é mais embaixo. Ficou praticamente provado que o partido Democrata fraudou a candidatura de Hillary Clinton porque acreditava que numa disputa polarizada entre Bernie Sanders e Trump, o resultado seria mais incerto.  Por essa aparente armação, a candidata quanto o partido foram submetidos a uma crítica que corresponde a uma fração do que deveria. Como dizia Getúlio Vargas, “para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei”.

Cobertura “imparcial” é uma invenção delirante de autores de manual de redação. Nada humano é imparcial. A variação é que podem haver coberturas bem-feitas ou mal-feitas. Toda cobertura é originada com viés porque é um traço irresistível do comportamento humano.

Aqui cabe a pergunta: se uma publicação, por melhor que seja, sabe que um político disse uma mentira e que seus seguidores acreditarão naquela mentida de qualquer jeito (uma vez que vivem imersos em teorias da conspiração), a publicação (ou rede social) pode, de maneira ética, omiti-la? No caso do Facebook, houve ou não má-fé quando os seus editores “limitavam” o alcance de artigos/discussões claramente republicanas? Eles realmente limitavam ou simplesmente reagiam segundo seus princípios e credos? Dá para se despir de todo o seu preconceito?

Uma mentira dita mil vezes…

Na última conferência da Online News Association, a diretora de produto do Facebook, Fidji Fimo, disse que a empresa leva muito a sério o alastramento de notícias falsas. Provavelmente a política da empresa seja essa mesma. O modelo de negócios do Facebook está sentado em cima da confiança dos usuários e manipulações deliberadas seriam um tiro no pé, algo que sua direção raramente faz. A empresa ja deu provas que tem essa preocupação. No episódio da suposta manipulação dos Trending Topics por editores, a resposta veio rápida, com a demissão e desmontagem do time que cuidava da ferramenta e a algoritmos para escolher os temas mais discutidos.

Mas e se o Facebook (e outras empresas que tiram lucros surreais desta gestão de informação) não puderem fazer nada a esse respeito? E se podem/puderem, devem ser os únicos a ter essa responsabilidade? Como a digitalização das relações interpessoais alterou o desenho das mesmas?

Este é o cerne do problema das bolhas de informação. Aliás, “The Filter Bubbles”, é o título de um livro sobre o assunto. Eli Pariser, o autor, basicamente argumenta que os algoritmos, ao filtrarem incessantemente a informação que chega até nós, neutralizam qualquer possibilidade de exposição a novas idéias, opiniões diferentes, discussão. Sabe aquele seu amigo malinha que vive te dando alfinetadas no Facebook? No mundo virtual das redes, frequentemente esse é o único contato que você tem com pessoas que discordam de você.

Os titãs informacionais americanos não provocam o surgimento das bolhas em si, mas o modelo de negócios deles é favorável a isso. Grosso modo, redes sociais ajudam você a se conectar com as pessoas com quem você concorda. O Facebook quer que você fique feliz e é muito mais fácil deixar você contente te mostrando opiniões parecidas com as suas. Você feliz é um cliente muito mais afável e propenso a comprar coisas oferecidas pelos anunciantes, que por sua vez, pagam rios de dinheiro para colocar a carinha deles no meio da sua felicidade.

Ninguém em sã consciência discorda que o meio digital redesenhou a economia global. Há estudos sobre isso e basicamente nenhuma controvérsia. As relações não-financeiras entre pessoas sofreram uma mutação radical também. Os contatos entre conhecidos e menos conhecidos passaram a ter sua gênese nos cálculos que os complexos algoritmos de gerentes da nossa vida digital e isso tem implicações. Um estudo de um pesquisador canadense tem um argumento consistente: se algoritmos determinam boa parte da vida das pessoas, não seria justo pensar que eles não pudessem ser caixas-pretas, como os usados por Facebook, Google e outros gerentes da nossa vida digital? E por outro lado, seria justo que as empresas revelem segredos comerciais em cima de uma percepção da realidade que é totalmente opinativa?

Entre 1922 e 1936, preconceitos e intolerância que estavam latentes na Europa fizeram com que sete países (Itália, União Soviética, Áustria, Alemanha, Portugal, Espanha e Grécia) ganhassem líderes extremistas cujos motes eram exatamente iguais aos defendidos por Trump, Le Pen e afins. A retórica beligerante que ganhou um sensível espaço depois do solavanco econômico de 2008 é preocupantemente similar à do início do século passado. No período anterior à II Guerra,a  tecnologia não teve um papel relevante da radicalização do cenário político-social tão preponderante quanto hoje.

Democracias consolidadas como EUA, França e Inglaterra, hoje vêem discursos beligerantes ganharem relevância eleitoral. Essa intolerância nasce, creia ou não, na sua reação ao seu amigo malinha te dando alfinetadas por conta de credos políticos divergentes numa rede social. Da próxima vez que essas provocações infantis começarem, procure-o(a) e tente entender o ponto de vista dele, explicando o seu. Mais do que evitar de perder um amigo, esse gesto pode ajudar a desinfetar uma sociedade que cada vez mais está infeccionada.

 

 

Sobre o autor

Cassiano Gobbet Cassiano Gobbet é jornalista, formado pela Universidade de São Paulo e mestre em jornalismo digital pela Bournemouth University. Atualmente é Gerente de Notícias, Finanças e Frontpage no Yahoo. Anteriormente, escreveu para BBC, Guardian, Daily Mirror, When Saturday Comes, The Blizzard, Terra e outros