Homepage e multimídia: por que seu site não é só ‘social & video’

A mídia é uma indústria que vive de trends ditados pelos seus líderes de mercado – como qualquer outra.  A conversão digital jogou para a cabine de controle duas empresas que são monopolistas na prática. Essa liderança deu origem à supervalorização de dois desses trends: vídeo e social. Apesar da preponderância dos dois quando se trata de estratégia digital, editores e publicações não devem perder de vista que o seu recurso mais valioso continua sendo uma velha (e subvalorizada) conhecida: a Homepage.

Talvez soe um pouco contraditório levantar dúvidas em relação às grandes vedetes da mídia digital no momento. Não há nenhuma empresa no mundo que não tenha se jogado de cabeça para explorar os dois espaços. Pouco tempo atrás, a ideia de se colocar todo o conteúdo dentro de uma rede social seria considerado uma loucura. Hoje não é. As plataformas sociais ocuparam de tal modo o campo editorial que o Instant Articles passou a fazer todo o sentido, com o Facebook sozinho respondendo por 20% dos pageviews nos Estados Unidos. Em 2006, o mercado apostava que a compra de mais de US$1.5 bilhão do YouTube pelo Google era uma insanidade por conta do risco de infração de direito autoral. Hoje, cerca de 300 horas de vídeo são carregadas no Youtube a cada minute e até amanhã, pelo menos 4 bilhões de visualizações de vídeo terão passado pelos data centers do Google/Youtube/Alphabet.

Se a dimensão do impacto dessas empresas é dessa magnitude, por que então vídeo e social devem ser secundários?

Bem, não é exatamente isso. Vídeo e tráfego de redes sociais têm de ser centrais em qualquer estratégia editorial digital. O ponto não é relegar vídeo e social a um segundo plano, mas sim não esquecer de que a homepage é o ponto cardeal de qualquer publicação – ainda e o será por algum tempo, aconteça o que acontecer. O tráfego migrou fortemente para as redes sociais e o consumo de vídeo se multiplicou, mas sua identidade não vai sair daí. Isso também é vital – mas não só.

Onde as coisas acontecem – tipo, de verdade

A digitalização criou características novas de audiência e consumo. Seu leitor/espectador/ouvinte hoje não está mais em casa e provavelmente não está mais numa tela grande. Ele não está mais imerso na sua oferta de conteúdo, mas submerso numa variedade de possibilidades inimaginável. Raramente ele tem um tempo reservado para o que você produz e menos ainda para explorar que outras coisas você teria a oferecer. Mesmo com esse cenário cataclísmico, se você vai estabelecer algum vínculo com esse ‘cliente’, isso vai ocorrer no seu terreno.

Os números acima (e muitos outros) servem para explicitar que o Facebook (e o Google) estão devorando o mundo, com particular requinte de sadismo, o mundo editorial. A indústria perdeu o controle do seu tráfego e como esse controle está com empresas sem concorrência, não há negociação possível. Todos os participantes desse cenário estão numa guerra que não podem vencer, mas como dizia Ahmed Shah Massoud, mítico líder afegão que expulsou a União Soviética do país, “há batalhas em que a vitória consiste apenas em sobreviver”. A página inicial de quase todas as publicações é o único terreno em que se possa fazer uma estratégia segura.

Apesar do crescimento em consumo de vídeo, o takeover dessa mídia sobre as demais não é proporcional ao barulho que se faz ao seu redor, e muito menos de um domínio total de mesma, como um executivo do Facebook afirmou há alguns meses. Segundo um estudo da Reuters, cerca de 75% dos usuários de uma seleção de 26 países não consome nenhum vídeo regularmente. Sociedades onde o consumo é mais moderado, como Dinamarca e Holanda, esse número chega a 85%.

No seu terreno

Onde a homepage entra, feita essa digressão sobre vídeo & social? Em tudo. A homepage não é só uma fonte de tráfego. Aliás, o seu papel como fonte de tráfego talvez seja o mais em risco, uma vez que busca e social tenham engolido boa parte do negócio. A sua página inicial é fundamental para você porque é ali que você cria sua identidade, fecha negócios e conquista audiência através de ‘negociações’ de prazo mais longo, como assinaturas, comunidades, customizações e etc.  E ainda mais importante do que tudo isso, é o lugar em que você sabe que as regras são ditadas por você.

Uma tendência mundial do digital, a explosão dos dispositivos móveis, é que não pode ser ignorada por você. Não dá para exagerar ao se dizer que o modo como você constrói sua home nas telas pequenas vai determinar como você pode convergir velhos leitores em novos leitores e transformar visitantes eventuais em consumidores assíduos. Lembre-se: isso não vale somente para o consumo de mídia. Serviços, ofertas de parceiros, oportunidades de interação – seu cardápio digital vai começar na página inicial.

Essa abordagem de revalorização da Home tem um quê de esperança. A fratura do modelo de negócios da maioria das empresas de mídia afastou a atenção da página inicial em função do crescimento da importância de plataformas externas (como Google e Facebook) . O uso de vídeos nesse pedaço do seu espaço precisa se encaixar nesse conceito. Essa mídia tem de ser em função da Home e não o contrário. Jamais se cogitou usar texto e imagem como o ponto focal de nenhuma publicação, mas o buzz ao redor do vídeo criou uma percepção errada na qual ele é o fim, e não o meio, mesmo na sua etimologia. Por mais fundamentais que sejam, plataformas externas também são um meio. Sua ”arquitetura’ tem de levar isso em conta. Caso contrário, você estará numa situação muito delicada.

 

Sobre o autor

Cassiano Gobbet

Cassiano Gobbet é jornalista, formado pela Universidade de São Paulo e mestre em jornalismo digital pela Bournemouth University. Atualmente é Gerente de Notícias, Finanças e Frontpage no Yahoo. Anteriormente, escreveu para BBC, Guardian, Daily Mirror, When Saturday Comes, The Blizzard, Terra e outros