‘Cale a sua boca’ ou como os sites estão acabando com os comentários (e com os trolls)

“O cliente tem sempre razão”. A frase é um dos exercícios de relações pública mais forçados da história, porque todo mundo já esteve do lado do cliente para saber que ele não funciona na prática. No jornalismo, a máxima é ainda menos verdadeira porque a obrigação do jornalista é (supostamente) dizer a verdade, ainda que isso possa alienar a audiência. Quem não se aliena é a própria audiência, especialmente os ‘trolls’. Depois de anos de esquizofrenia digital, a área dos comentários dos sites começa a morrer. Não tem volta e, mais que isso, não vai ter ninguém derramando lágrimas pela mudança.

A decisão de vários sites de se livrar das áreas de comentários ocorreu há algumas semanas. Reuters, Mic e The Week fizeram parte da primeira leva de organizações a tomar a medida. Para o Brasil a discussão do assunto ainda é válida (talvez até mais agora). O debate político é ácido e a maioria esmagadora dos debatedores mais freqüentes é aquela que não gosta de discussão, mas de agressão e aplauso. Debate é um alicerce da democracia; trolling é uma atitude de quem acha que se vence uma discussão agredindo o oponente. E esse é o sentimento maior na maioria das mesas de redação pelo mundo.

A decisão de calar a conversa parece autoritário – exceto para quem estava dentro dela, ou a vendo ao redor do seu produto. Racismo, discurso de ódio, preconceito, sexismo et al são o âmago de uma seção que supostamente faria a audiência participar da notícia. Só na teoria. As áreas de comentário raramente são engajadas. O input dos comentários são amplamente desconsiderados na maioria das redações e jornalistas e editores não se sentem à vontade para abraçar essa colaboração. Não sem razão. A norma é que os “donos” dos comentários sejam o que há de pior na sociedade.

Novos meios apareceram para dar voz à audiência. Redes sociais, dispositivos de imagem digital, apps de celular e outros mais tradicionais como fóruns, comunidades e e-mail dão ao processo imprimam maior responsabilidade e autoria. A discussão mais virulenta fica para as redes sociais, que por sua vez têm de lidar com o problema da trolagem. “A arena dessa discussão migrou da publicação para as redes sociais”, afirmou o editor de um importante site de tecnologia, o Re/Code

A mídia tem parte da responsabilidade com a falência do processo porque até aqui, a audiência vem sendo suportada e não é vista como alguém que tem algo a agregar. Jornalistas gostam de falar (ou escrever) e não ouvir (ou ler) em qualquer momento que não seja a apuração da matéria. A massa como um todo também não faz muito para mudar esse cenário, como já polemicamente opinava Winston Churchill. As pessoas individualmente são melhores ou piores; quando se agrupam, são freqüentemente perigosas.

A decisão de retirar a seção de comentários mais significativa foi a da NPR, uma rede pública de rádio dos Estados Unidos. Um serviço público deveria buscar a maior quantidade de interação possível, certo? Bem, aqui uma reflexão se faz importante: a avaliação da coisa pública. Países como o Brasil tendem ver a coisa pública, ou a “rês pública” (etimologicamente, origem de “república”)  não pertence a ninguém, e assim, de onde pode-se e deve-se tirar vantagem. Nos países de cultura protestante-germânico-anglo-saxônica,a  coisa pública é de todos, e a responsabilidade pela sua manutenção é dever de todos. A NPR não “tirou” um canal de interação, mas bloqueou um que tinha sido vítima de “posseiros digitais”, uma milícia paramilitar do bullying online . Assim como o Re/Code, a NPR também vê outras esferas para a interação e discussão.

E agora?

Numa reflexão mais profunda, o jornalismo e os jornalistas precisam reavaliar quão sincero é o discurso de querer garantir à audiência um espaço na cabine de comando. A realidade fica bem longe da prática nas redações e uma parcela considerável dos profissionais se irrita com a participação do público. Essa herança do modelo e comunicação vigente até o fim do último século não é só exclusividade dos jornalistas mais experientes. Por milênios, a comunicação na sociedade foi absolutamente mantida sob controle pela elite (não necessariamente econômica).  A desamarração desse modelo será feita ao longo de gerações e não de anos.

A participação pública no processo jornalístico não é nem opcional nem duvidosa. Jornalismo existe se a sociedade se beneficia dele. Se não há benefício para a sociedade, não é jornalismo. Note-se que em “benefício”, não significa atender aos desejos do leitor, mas sim, dizer o que ele precisa saber.

Ferramentas como o Hearken se propõem a isso, com ferramentas que trazem a participação da audiência na concepção do conteúdo e não na avaliação. Ainda é uma ferramenta que precisa de lapidação. O modo como o público entra na conversa ainda é de uma forma incômoda de pouco natural. Isso é natural, uma vez que os processos de trabalho do modelo tradicional estão sendo adaptados à fórceps. É como você emprestar uma roupa do seu vizinho 50kg mais gordo que você. Ainda é a roupa e ele ainda está te fazendo um favor, mas não é que você se sinta bem com isso.

A maioria dos sites brasileiros (incluindo esse) têm área de comentários porque não se pensa a respeito. É mais ou menos como na construção de uma casa, onde o arquiteto não pensa se ela terá ou não banheiros, mas sim quantos. Essa tendência de abolir a parte de comentários deve se espalhar também no Brasil (e certamente neste site). A tecnologia proporciona cada vez mais recursos para fomentar interação da maior parte dos grupos – e não pela menor deles, como ocorre hoje. Leitores/ouvintes/usuários acostumados a desopilar seus fígados protegidos sobre a gélida manta da pusilanimidade, preparem-se. Vocês vão se afogar sozinhos nas suas piscinas de bile.

Sobre o autor

Cassiano Gobbet

Cassiano Gobbet é jornalista, formado pela Universidade de São Paulo e mestre em jornalismo digital pela Bournemouth University. Atualmente é Gerente de Notícias, Finanças e Frontpage no Yahoo. Anteriormente, escreveu para BBC, Guardian, Daily Mirror, When Saturday Comes, The Blizzard, Terra e outros