Sexo, liberdade de imprensa e Hulk Hogan: o Gawker vai à lona

Pouco se falou sobre o assunto aqui, mas na semana passada, um evento na mídia americana foi fundo em algumas das mais profundas crenças americanas: tecnologia, capitalismo, liberdade de expressão, privacidade, abuso de poder, ícones trash: o provável velório de uma das start-ups de mídia mais faladas da América é um colosso de reflexões.

Pano rápido: entra Peter Thiel. O estereótipo do empreendedor de sucesso americano: dupla nacionalidade (alemão/americano), criador de uma ferramenta altamente disruptiva (PayPal) que deixa a criatura para gerir fortuna crescente e investir em prováveis sucessos digitais. Parte do estereótipo acaba aí. Thiel não é o visionário “de esquerda” como a maioria de seus pares (nota: a “esquerda” americana é uma centro-direita em qualquer outro lugar). É um republicano conservador que doou dinheiro à campanha de Donald Trump, o 666 da política mundial. Além disso, apesar de gay (como veremos, a informação sobre a sexualidade dele aqui é relevante e não apenas sexismo), não é ativista e até 2007, não era nem mesmo assumido. Para coroar o Dr. Jekyll/Mr. Hyde, Thiel dedicou seus últimos anos a tentar destruir a Gawker Media, por quem nutre ódio infinito (e que abordaremos abaixo).

Gawker: uma mosca branca digital. Num mundo de prejuízo, demissões e depauperação jornalística, a empresa de Nick Denton deitou na última década emplacando vários sites como Deadspin (esportes), Jezebel (feminismo), Gizmodo (gadgets) e Valleywag (Vale do Silício), entre outros, na sua plataforma de blogs Kinja, que chegou a taxas de crescimento de tráfego de quase 40% por ano. Apesar de ter um forte elemento tabloidal, o time de Denton (que chegou a ter mais de 130 funcionários full-time) fez histórias relevantes que atendiam sim o interesse público, desmascarando hipocrisias de celebridades e afins. Mas não foi só: assim como fez com Peter Thiel, a marca-chefe do grupo Gawker enfiou bastante o pé na lama e trafegou em áreas nebulosas onde o interesse público era só interesse do publico (o que não é a mesma coisa).

PayPal é pedra

A coisa ficou pequena para o Gawker numa trama típica de novela da Globo. Depois de entrar na disputa com o Gawker com um time jurídico caríssimo, Hulk Hogan (um personagem trash da cultura w.a.s.p. americana – algo que no Brasil seria uma mistura de José Aldo com a Xuxa) ganhou a parada na apelação e deve receber do Gawker Media uma indenização de US$140 milhões, valor que liquida a companhia com todos os seus ativos (e ainda deixa uma dívida de US$40 mi). A revelação chocante foi a de que o time jurídico de Hogan foi bancado por Thiel, nêmese da empresa que ele classifica como”a Al Qaeda do jornalismo”, num ato de pura vendetta.

E não para aí: outras ações de terceiros contra a publicação também têm o “dedo da morte” do criador do PayPal. Nick Denton disse que não vai se render e gastou todo o discurso da liberdade contra Thiel, mas a situação é tão clichê de filme que até deu até para escutar a risada fantasmagórica do supervilão Thiel, com um tapa-olho e bebendo um dry martini enquanto olha uma megalópole poluída de seu escritório envidraçado topo de um arranha-céu à noite.

Qual a treta aqui? Muitas. Você tem todos os estereótipos de personagens aqui e a variação do roteiro depende do seu olhar. A Gawker Media pode ser desde a empresa independente de mídia que luta contra o sistema para destruir o vilão ou o tabloide sórdido que minera tráfego sujo caluniando pessoas justas. Thiel pode ser o empreendedor visionário que dedica seus recursos para atacar a imprensa marrom ou o chefe de uma corporação vil que compra a tudo e a todos para destruir o herói. As narrativas são inúmeras, mas infelizmente, o episódio é ruim em quase tudo.

O britânico Nick Denton deu à sua empresa um caráter de tabloide. Frequentemente, as publicações da Gawker iam além da conta e mesmo quando elas valiam a piada, ocorria de a pauta ter sido preconceituosa, gratuita e/ou de gosto duvidoso. Esse caráter fez a pauta da matéria sobre a sexualidade de Thiel vir à tona e ser publicada. Thiel tem pouco de estereótipo positivo de empreendedor além de ter criado um gigante como o PayPal. Ele tem opiniões polêmicas – considera Edward Snowden um “traidor-herói”, apoia a ala radical do Partido Republicano e defende que “concorrência é para derrotados, o negócio é monopólio”, algo paradoxal para quem se construiu em cima do capitalismo em seu estado máximo. Uma luta entre ele e Denton deveria ter sido um brinde à discussão da primeira emenda, que garante liberdade de expressão, mas virou um embate entre um publisher de jornalismo marrom e um milionário atacando a liberdade de expressão guiado por uma sede cega de vingança.

Hogan passa quase em branco no episódio. Apesar do processo que matou a Gawker ser sobre um vídeo dele transando com a mulher de um amigo, ele é irrelevante e deve estar agradecendo aos céus por Peter Thiel ter possibilitado o processo que deve dar-lhe uma indenização milionária. Sua colaboração é simbólica, emprestando sua figura tosco-trash para um episódio que é quase um roteiro pornô de tão ruim. O episódio é uma paulada na liberdade de expressão porque o valor arbitrado pelo juiz é completamente desproporcional e abre um perigoso precedente, especialmente antes de uma campanha em que um dos candidatos (adivinhe qual) anuncia que quer rever a liberdade de expressão garantida pela constituição americana. Os fundadores dos EUA não imaginavam que abririam espaço para um duelo tão rasteiro quando formularam a carta magna americana. Essa triste, inútil disputa, entretanto, pode deixar a porta para agressões mais sérias à sociedade.

A porca torce muito o rabo a partir do momento em que o tripúdio da decisão é sobre o texto que basicamente influenciou todos os textos das democracias ocidentais. Por mais que uma indenização pesada possa ser dada para coibir excessos (porque a matéria revelando a sexualidade de Thiel não foi a única ofensa do Gawker à privacidade), é pouco razoável permitir que ela simplesmente inviabilize uma publicação como um todo. O incidente é particularmente danoso porque o modelo de negócio de Denton era um dos poucos sucessos nascidos no digital, ainda que calcado em um jornalismo questionável.

O que acontece agora? Thiel vai continuar a passar o trator em Denton e certamente será visto com um escrutínio mais rigoroso da mídia, que adorará publicar algo que possa criar um problema para quem sai ameaçando jornalistas. Num cenário com cada vez mais bilionários, com cada vez menos  jornalismo sustentável e com um abilolado neo-fascista disputando a Casa Branca, o dramalhão tech é bem menos engraçado do que deveria ser.

Este post teve a pesquisa de Fabricio Calado. Ouça aqui o MediaBits sobre o Gawker-Gate:

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.