Fim do arco-íris digital pode reservar distopias para a sociedade

Não precisa procurar no dicionário. Datageddon não é um verbete (ainda) e na verdade é um termo que sugere mais risada do que medo por ter surgido numa aspa já clássica de um seriado da HBO. Contudo, pior ainda do que uma ‘bolha’ no mundo da tecnologia que pode trazer grandes perdas econômicas, uma hecatombe digital pode levar o endereço da sua casa às mãos de quadrilhas criminosas – e não, não estamos falando do governo.

O ator Matt Ross interpreta Gavin Belson em
O ator Matt Ross interpretando Gavin Belson em “Silicon Valley

“Não será nada menos que uma catástrofe: falta de informação, racionamento de informação, mercados negros de informação ou, mais sucintamente, um datageddon”. A aspa é de Gavin Belson, o CEO de uma gigante tecnológica (mas já vista como decadente) da série “Silicon Valley”. Belson não é o líder ou o visionário que acredita ser, mas a definição do “armageddon de dados” ou datageddon é incomodamente pertinente. E nada divertida. O datageddon é um cenário distópico bastante possível.

O que é uma bolha?

Primeiro, falemos sobre a bolha em si. O termo é bem mais conhecido do que o datageddon porque bolhas econômicas aconteceram ao longo dos últimos cem anos. O que é uma bolha? A definição da Wikipedia é suficientemente correta: “Uma bolha especulativa forma-se num mercado quando a única coisa que sustenta a progressão do mercado é a entrada de novos participantes, num esquema em pirâmide natural. Visto que o número de participantes possível é finito, todas as bolhas possuem um final previsível ainda que geralmente seja difícil de estabelecer o seu momento”. Em resumo: o crescimento de um determinado mercado que não tenha os fundamentos necessários para sustentá-lo. Ou seja: enquanto o mercado cresce, ganha-se muito dinheiro, mas quando a bolha explode, uma quantidade gigante de dinheiro deixa de existir, em proporções de até 90%.

Apesar de incrivelmente destrutivas e até certo ponto, previsíveis, as bolhas são uma parte do ciclo capitalista que funciona como uma adequação da realidade. Estima-se que a bolha de 2008 tenha feito desaparecer cerca de US$ 1 trilhão (cerca de R$3.5 trilhões, ⅓ do PIB brasileiro).

Os venture capitalists (VCs) são os promotores das bolhas no capitalismo digital. Eles investem em empresas promissoras e colhem o resultado quando acertam uma vez em 1o ou mais tentativas. Eles bancam bolhas, contudo, raramente perdem o investimento. Como numa pirâmide, cria-se um frisson ao redor de uma empresa ou nicho, bombado pelo potencial calculado que elas têm e não em cima da receita. Ou seja: ao investir numa start-up, eles não só compram parte do negócio, mas injetam no mercado o otimismo que fará a avaliação do seu investimento crescer.

É uma faceta bastante significativa da esquizofrenia do capitalismo: o simples fato de uma empresa poder ter uma receita surreal torna-a atrativa o suficiente para receber centenas de milhões de dólares de investimento. Crescimento exponencial da base de usuários e um plano de negócios arrumadinho já deixaram muitos VCs bilionários e investidores ingênuos sem nada. As empresas cuja avaliação de mercado passe de US$1 bilhão são chamadas de unicórnios por tecnicamente serem raras como o mítico animal – este infográfico sensacional do WSJ mostra que nem isso mais é verdade). Alguns desse unicórnios sobem a avaliações estratosféricas com receita zero e hoje há mais deles do que nunca.

Poucos analistas discordam que haja uma bolha, mas não é certo qual será o seu impacto (leia-se, quanto dinheiro ela vai derreter ao explodir) nem em que momento ela eclodirá.

“Terra arrasada” econômica nem é o pior

Mas deixando de lado a questão econômica – não que não seja importante, mas no caso do datageddon, há um impacto inédito, há uma variante da bolha – a bolha de informação.

Caso haja uma quebradeira em massa e um efeito dominó em Silicon Valley, ao contrário da primeira bolha da Internet pouco depois da virada do milênio, as empresas que cairiam detêm quantidades surreais de informação. O Google detém cerca de 10 exabytes (10 bilhões de gigabytes) e o Facebook têm aproximadamente 3 bilhões de itens, catalogados com nome, e-mails, endereço, graus de parentescos, amizade, preferências sexuais,  e com uma riqueza de detalhes impossível até bem pouco tempo atrás.

Foi nesse ambiente que o Center for Long-Term Cybersecurity da Universidade de Berkeley desenvolveu uma série de cinco cenários possíveis para um futuro tão próximo quanto 2020. Os prováveis futuros do CLTC são possibilidades soturnas, de uma realidade digna de ficção científica e que podem, naturalmente, se sobrepor. Esses cenários envolvem em maior ou menos medida todos os atores: audiência, governo, empresas, hackers, criminosos digitais, comportamento, etc.

Entre os cenários imaginados pela CLTC estão:

1) uma integração proposital e manipuladora da “Internet das Coisas” que manteria os usuários como reféns;

2) uma digitalização chegando a tal ponto no qual a quantidade de dados coletados seja tão grande que forneça insights sobre padrões de compras que os próprios consumidores ainda desconhecem porque não têm os dados organizados de maneira a perceber isso;

3) um mundo no qual o fracasso das autoridades em estabelecer uma legislação funcional transforme o mundo digital num “Velho Oeste”, onde indivíduos e organizações crisem seus próprios tribunais e façam “justiça” com as próprias mãos;

4) um mundo em que a manipulação de emoções (com fins comerciais ou políticos, claro) chegue a um ponto orwelliano (o Facebook até admitiu um experimento nesta linha e se desculpou por fazê-lo sem avisar os usuários);

5) um cenário onde a ruptura da bolha econômica ligada às empresas de tecnologia faça com que grandes bancos de dados, de uma riqueza espetacular, acabem sendo vendidas – legalmente – a empresas.

O último cenário foi assunto de uma matéria bem legal da The Atlantic. Basicamente, o cenário é um no qual após a falência de uma empresa, seus bancos de dados sejam vendidos como massa falida a compradores que podem variar  entre o inescrupuloso e o abertamente criminoso. Neste caso, todas as suas preferências, laços de amizade e família e histórico podem ir para as mãos de compradores que quererão desde promover “agressivamente” uma venda quanto obrigar você a pagar um resgate para não sofrer alguma sanção (pense no escândalo do Ashley Madison levado à milionésima potência).

Você já cedeu, legalmente, a maior parte desses dados a essas empresas. Se elas venderem esses dados, nem mesmo um crime elas estarão cometendo.

Os cenários desenhados no estudo não podem ocorrer somente caso uma ruptura financeira. Isso certamente agravaria a situação, mas a “bolha” aqui vai além da esfera de negócios. Eles podem acontecer sem que haja nenhum “desastre”. Há uma quantidade inacreditável de informação represada em diversos lugares: empresas de tecnologia, bancos, redes sociais, lojas, governo e toda e qualquer entidade que use dados para guiar ou facilitar sua missão. Essas “represas de dados pessoais” criam novas oportunidades – que certamente o mercado aproveita – mas também deram a luz a riscos que a sociedade como um todo não percebe porque eles não existiam.

Quer fazer um exercício? Pois bem: no massacre de Ruanda, nos anos 90, cerca de 10% da população foi morta em 100 dias (cerca de 700 mil pessoas). A tragédia ganhou escala quando uma das milícias hutus tomou posse de um órgão do governo que detinha um fichário da população, com nomes, parentescos, endereços e a etnia à qual pertenciam.

Outro caso: um grande varejista nos EUA envia a seus clientes ofertas de produtos nos quais eles têm interesse. Um cliente escreveu à empresa reclamando que estava recebendo ofertas de produtos de bebês e gestantes e que seus filhos já eram adolescentes. O cliente não sabia, mas sua filha mais velha estava grávida.

Mais um: já existe um aplicativo que analisa todos os dados ligados a uma determinada pessoa (através de cookies, e-mails, usernames, etc) e desenha para seus usuários um perfil que serve para a abordagem dessa pessoa seja mais eficiente. Por exemplo, ao fazer um contato profissional, esse perfil alerta que a pessoa para quem você está escrevendo não gosta de sentenças diretas, prefere raciocínios longos, não gosta de ironias e dificilmente fecha negócios imediatamente.

Todos os casos citados já ocorreram. Com o acúmulo de dados crescente, eles se tornarão cada vez mais freqüentes.

O exercício da CLTC serve para lembrar duas coisas: primeiro, que a maioria esmagadora das pessoas não tem nem de longe a ideia de como estão expostas na Internet. Coisas que elas não revelariam nem mesmo a cônjuges ou familiares estão em algum servidor de um gigante tech em algum datacenter num país remoto.

O segundo aviso é em relação a como a sociedade quer lidar com isso. Toda ingerência desnecessária do governo lesa a sociedade, mas é impossível usar as mesmas leis hoje que se usava há duas décadas para definir o que é ou não permitido fazer com um banco de dados pessoal.

Se nos anos 90, uma base de clientes de uma operadora de cartão de crédito valia uma fortuna e expunha uma parcela considerável da privacidade das pessoas, os arquivos de empresas como Facebook, Google e Amazon são tais que permitem até mesmo prever ações que as próprias pessoas não imaginam. Sim, a atuação do Estado normalmente é um problema, mas, neste caso, é a pior alternativa possível, exceto todas as outras, como diria Winston Churchill. A tecnologia não é nem libertadora nem escravizante. O ser humano pode ser qualquer uma das duas e, estatisticamente, o último é muito mais comum que o primeiro.

Foto por: CaptMikey9