Desaprender é o único modo de achar soluções do jornalismo digital

O memorando de um editor de um jornal americano motivou um artigo da Poynter na semana passada, trazendo uma análise interessante da fragilidade do modelo de negócios dos jornais.  A conclusão do artigo é simples e nada surpreendente: empresas de notícias não têm como bancar a qualidade do seu produto. Mas será que os jornais estão mesmo fadados a morrer ou estamos batendo numa mesma tecla esperando um resultado diferente?

O texto de Teresa Schmedding comenta um e-mail enviado à redação das publicações de uma empresa noticiosa da região de San Francisco, na Califórnia. James Robinson, o diretor de conteúdo da empresa fala de como alguns funcionários teriam de ser demitidos, e, sim, isso pioraria a qualidade do jornal, com menos precisão de informação e mais erros de publicação.

A mea culpa de Robinson tem por trás de si uma hecatombe em termos de emprego nos EUA. O país perdeu metade dos copidesques que tinha em 2007. Só em 2015, 7 mil profissionais foram demitidos. E as coisas vão piorar (“The winter is coming”, como se diria em Winterfell.

Schmedding classifica a situação como sendo “o último prego no caixão da mídia tradicional”. É difícil discordar dela quanto à sobrevivência dos jornais e empresas cujas vantagens competitivas eram ligadas à infraestrutura de impressão e distribuição. Mas é uma cova para o jornalismo como um todo?

Bem, se for, será o primeiro caso na história em que uma indústria ou profissão desaparece por completo sem ter sofrido mutações e adaptações ao novo cenário. “Darwinianamente” falando, tudo indica que o erro da mídia tradicional até aqui vem sendo a tentativa de se realinhar tendo em mente o mesmo mindset herdado dos jornais e revistas. Modelos baseados na venda de anúncios e assinaturas não vai fechar a conta jamais (ou pelo menos enquanto não houver uma recriação do sistema adaptada ao digital como a sugerida por Magid Abraham que eu abordo neste texto).

O investimento em jornais não vai se pagar enquanto o modelo de produção de notícias (ou qualquer outro conteúdo de jornalismo ou entretenimento) for o herdado da mídia tradicional. Custos de instalação, criação de redação, assinatura de serviços de suporte caros (como bancos de imagem) estão atrelados à receita que era levantada por conta dos monopólios de impressão e distribuição. O digital desmontou essa necessidade, oferecendo um produto mais rápido e ágil, com um custo menor (ou marginal). A platéia digital já ultrapassou a do impresso. Monetizar a operação digital é muito mais difícil do que era no impresso. A saída não está em buscar mais dinheiro no digital – ela passa por gastar menos para produzir a notícia.

Poucas operações digitais do mundo se deram conta da guinada que o digital traria cedo o bastante para conseguirem viabilizar a operação em novas mídias ainda com uma folga vinda do lucro do impresso e eletrônico. O Guardian, uma das três operações digitais noticiosas do mundo, considerada com um case de sucesso, anunciou um corte de gastos da ordem de 20%. Além disso, começou a explorar fontes alternativas de receitas como pedir a leitores que “se filiem” ao jornal para fundear os custos do jornalismo investigativo.

A redação digital do futuro não será como as tradicionais e muito provavelmente não devem nem ser centros “físicos” onde todos os participantes se reúnem. Bases de dados, ferramentas de localização geográfica, APIs de redes sociais, softwares de produção de gráficos e infografias e crowdsourcing são elementos que comporão o cerne desses novos modelos. O jornalismo que sairá dessa mutação forçada pelo choque digital precisará de lapidação e os seus resultados devem levar tempo para estarem aptos a substituir o jornalismo tradicional. Contudo, a mudança vai acontecer. Se facilitarmos, buscando modos de facilitar essa migração, será mais fácil para todo mundo. Infelizmente, tudo indica que vamos trilhar o caminho com mais atritos.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.