Crise no jornalismo no Brasil é ‘convite forçado’ à inovação

No Brasil de hoje, qual carreira ou função está “mais” no fundo do poço? Se a avaliação de pisos salariais revela alguma coisa, o jornalismo tem uma robusta argumentação para pleitear o título. Para poder trabalhar como jornalista, teoricamente, é preciso ter um diploma que se consegue num curso de 4 anos. Todos os anos, cerca de 20 mil pessoas preenchem essas condições e entram no mercado com esse título. Elas vão disputar um mercado que tem como pisos valores mais baixos do que os pagos a profissões que não exigem treinamento formal como gari e pedreiro. A hora de resetar o sistema já passou. Ele não vai melhorar.

A lista de pisos salariais da Fenaj não é a lista dos menores valores pagos a jornalistas – há quem pague menos que isso – mas ela serve como guia da desertificação no setor. Ela mostra valores que vão de pouco mais de R$1 mil a R$2.300. Alguns valores passam um pouco disso, chegando  R$4 mil em algumas cidades. Segundo a Catho, o valor-base para um pedreiro parte de R$1,470. Gari, no RJ, tem um salário de cerca de R$1100 que chega a pouco menos de R$2.200 com benefícios. Só professores têm situações ainda mais dramáticas como categoria, com salários tão baixos quanto R$400 mensais.

A equiparação com profissões de treinamento não-formal ou nenhum levanta o óbvio – não há futuro possível para o sistema. Não se trata mais de uma situação que vá melhorar com um novo ciclo econômico de crescimento, venha ele quando vier. Tecnicamente, as maiores empresas de comunicação do Brasil não têm capacidade de investimento em inovação nem crescimento – exceção feita às organizações Globo e Grupo Folha – e vão funcionar nesse purgatório disfuncional indefinidamente.

Há um elemento fiscal forte na degradação do mercado, mas ele não se explica sozinho. A carga tributária que o governo impõe às empresas não é mais baixo em outros setores. O ponto é que a longa transição para o digital, que começou no fim dos anos 80 com a massificação das primeiras tecnologias que facilitavam transmissão eletrônica de informação, foi completamente ignorada pela maioria esmagadora das empresas, que em vez de abraçarem a digitalização antes, foram arremessadas contra o muro digital, pouco antes ou depois da primeira bolha das pontocom, no começo deste século.

O Brasil não difere muito de outros mercados nessa miopia em enxergar a digitalização, exceto por duas razões: a vocação governista da mídia, uma vez que o grande cliente sempre foi o governo e a pequena relevância em termos financeiros dos players de mídia aqui são as bases desse desastre. Segundo a ANJ, a circulação de jornais atingiu seu ápice no Brasil há não muito tempo atrás (2012), quando pouco mais de 8 milhões de cópias eram vendidas por dia, enquanto nos EUA, a circulação passou dos 60 milhões no começo dos anos 90. Nos últimos 30 anos, os EUA perderam cerca de 400 jornais diários, mas ainda têm o dobro de jornais, sendo que 98 deles com tiragem maior do que 100 mil diários, contra 8 daqui.

A deterioração do cenário de notícias no Brasil concentrou a circulação e a receita em queda nas mãos de poucos grupos de mídia e com parte da receita indo para as mídias digitais. Apesar da previsão de crescimento do investimento em mídia ser de cerca de 7% ao ano até 2018, a mídia impressa deve, na melhor das hipóteses, ver sua receita estagnar, enquanto o montante reservado para publicidade no digital deve aumentar num ritmo de 21% nos próximos três anos (especialmente em dispositivos móveis, onde o crescimento passa os 50% anuais até 2018). Aqui, o dramático é que a sangria do impresso tem um vampiro digital de fora da indústria de notícias. Facebook e Google retém 64% da grana jogada no digital. O “ralo” do dinheiro que escoa para as duas empresas de tecnologia não deixa dúvidas de quais as perspectivas: o ecossistema noticioso herdado do período offline não se recuperará em nenhum momento.

Onde está a saída?

Ainda não está claro qual é o desenho e quais as fundações do novo modelo de negócio do jornalismo  – nem no Brasil nem em nenhum outro lugar. Mas é possível dizer o que não dá certo. Por exemplo: nenhuma start-up digital conseguirá sair do vermelho com um modelo de negócio baseado em anúncios. O inventário infinito que joga os preços no chão, somado ao buraco negro criado pelo “Googlebook” e seus 64% de market share assegura que não haverá tração vinda daí porque o resto da indústria não se sustenta dividindo os outros 26% (especialmente porque Globo e UOL engolem a maior parte desse resto).

Fonte: Akamai

Em cima disso tudo, há um sistema educacional falido e em metástase, que não só não produz jornalistas capacitados, graças a diretrizes arcaicas e ricas de um academicismo feudal, mas também mantém a maior parte da população num percentual educacional inferior ao mínimo necessário para o consumo de um jornalismo ativo. É um quadro bastante desanimador.

Para piorar, o fator Brasil infecciona os caminhos mais prováveis. O regime fiscal vigente impede que os veículos digitais cresçam além de um determinado tamanho. Apesar da inclusão do trabalho jornalístico no Simples Nacional em 2014, as alíquotas reservadas para a função ainda são muito altas, chegando a quase três vezes maior do que outras categorias incluídas no mesmo regime. O Brasil do governo cleptocrático também tem uma infraestrutura patética para o mundo digital. Com uma velocidade média de 3Mbps, 40% a menos do que a média global, o país está na 89a. colocação.  Só 2% das conexões no Brasil têm velocidade média superior a 10Mbps e só uma em cada 200 rodam com mais de 15 Mbps.

O único caminho é para frente

Isto posto, há pistas sobre o rascunho de um futuro funcional para o jornalismo digital (que, no longo prazo, é o jornalismo em si). Provavelmente o futuro 2.0 do digital rodará em cima das plataformas móveis em vez dos computadores de mesa (vide o crescimento de 50% anuais das receitas “móveis” até 2018). O DNA social já é indispensável para se substituir a Homepage. O uso de material produzido por usuários também é central, assim como recursos de ferramentas eletrônicas como geofencing, geolocalização, big data e o foco na experiência em vez do tráfego.

Crises têm fim e normalmente, após uma crise, um ambiente mais forte, resistente e viável se estabelece. O momento posterior ao offline ainda engatinha, e hábitos, comportamentos, receitas e oportunidades surgirão aguardando para serem explorados.  Não há muitas alternativas a médio e longo prazo além dessa inovação compulsória. E essa inovação necessária não virá empacotada. Será preciso de parcerias com profissionais de áreas afins como programadores, designers, infografistas e outros mais, além de técnicos que fazem parte de qualquer negócio (que cuidem de vendas,recursos humanos, etc). É bem provável também que esse novo momento deixe de funcionar nos moldes tradicionais de horário-das-9-às-17. A sharing economy que está revolucionando transporte urbano e hotelaria (vide Uber e AirB’n’B) certamente terá seu papel e taxações fiscais mais razoáveis serão necessárias.

Nenhum obstáculo citado é completamente fora do alcance. Mesmo coisas impossíveis como tirar a classe política da sua preguiça sórdida, tóxica e hostil, para ter regimes fiscais mais funcionais só acontecerão quando a sociedade se mobilizar – e neste caso, os jornalistas. Tem de haver iniciativa. No último sábado, dezenas de profissionais, professores e estudantes se reuniram num encontro organizado pela ONA Brasil – a filial brasileira da Online News Association – para começar a debater o que fazer. Havia uma clara determinação de tomar as rédeas do processo em vez de só observar. Essa determinação é o início de tudo.

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Foto por: Mystico972

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.