Twitter: quando 330 milhões de usuários não bastam

O microblog que iconizou os 140 caracteres tem impacto global. Não há personagem público no mundo que não desenhe a sua identidade através de uma conta na rede, cuja receita neste ano deve passar dos US$2.5 bilhões. A fama e a relevância, contudo, não bastam para o Twitter. Dez anos depois de criado, o serviço tem o valor de mercado mais baixo desde seu IPO, uma taxa de crescimento decrescente e um número de usuários ativos diminuindo. Por mais que pesem os 330 milhões de usuários, o futuro não é totalmente certo.

A importância do Twitter é indiscutível, bem como sua penetração. Todos os eventos mundiais acontecem na sua timeline. Osama foi “morto” ao vivo na timeline de um usuário seu vizinho; Obama anunciou sua vitória na reeleição com um tweet lendário, “Four more years; O ataque ao Charlie Hebdo, Paris, maratona de Boston ou Bruxelas, separações e casamentos de celebridades, conquistas e anúncios – tudo público passa por lá. A arquitetura de ‘links fracos’ sobre a qual funciona o Twitter é o reverberador perfeito de informação. Ao contrário do Facebook, que decide propagar mais ou menos um determinado bit de informação segundo os interesses do seu algoritmo, no Twitter, os marcadores de conexão de informação – #hashtags e @menções – fazem com que seja as mensagens e eventos ganhem ou percam força conforme os usuários a repiquem mais ou menos sem que um fator arbitrário influencie.

E ainda assim, o serviço vive uma crise de confiança/identidade. Como é possível explicar que um serviço com essa grandeza de clientes possa estar em xeque?

Utilidade e popularidade não são sinônimos de lucro

“O fato de que um serviço é popular não quer dizer que ele seja viável ou interessante economicamente”, afirma Mark Ramsey, consultor de mídia e apresentador do podcast ‘Media Unplugged’. A opinião de Ramsey não é um tiro no escuro. Os investidores de Wall Street que correram para garantir a sua parte no IPO da empresa há pouco mais de dois anos estão tomando o caminho contrário e o valor da ação que chegou à marca de US$72, hoje está atolado em US$17 e sem nenhuma possibilidade de mudança em vista. O crescimento do Twitter em 2016 deve beirar os 20%, mas está em queda. Mesmo com centenas de milhões de usuários, o microblog perdeu ‘relevância’ no ecossistema social.  WhatsApp (900 milhões), QQ (860milhões), FB Messenger (800milhões), QZone (653milhões), WeChat (650milhões), Tumblr (555milhões) e Instagram (400milhões) têm bases de usuários maiores – claro, sem contar o ‘Godzila’ social Facebook (1.5 bilhões).

A mesma arquitetura de dados que dá ao Twitter a sua maior virtude na reverberação de informação é a que torna a monetização mais suada. . Primeiro, a timeline da ferramenta é menos confortável para publicidade. Mobile por natureza, o Twitter propicia menos espaço para uma experiência do usuário que seduza anunciantes, em comparação com outras plataformas. Além disso, a natureza do elo entre transmissor e receptor não é dedicada a parentes e amigos, como são os de outras redes sociais. “No Twitter, os anúncios me distraem; no Facebook, eles fazem sentido”, diz Ramsay, que classifica o serviço como um messenger de figuras públicas para usuários. O Twitter é muito melhor como um serviço de broadcast do que como uma rede social”.

Apesar do protagonismo nos eventos de breaking news, o Twitter não é preponderante em termos de tráfego para sites em geral. Segundo um relatório feito pelo site Parse.ly Somente cerca de 5% das visualizações de páginas das publicações americanas vêm do microblog. Esse número só é relevantemente maior para publicações de nichos, como tecnologia e jornalismo. “Mesmo sem gerar quantias relevantes de tráfego, o Twitter é o local onde as notícias ‘acontecem’, diz o relatório.

Crescimento baixo é sacrilégio em Wall Street

“Ninguém cria um serviço pensando em como vai vendê-lo para investidores. O Twitter faz um excelente serviço sendo…o Twitter! As possibilidades de ganhar dinheiro não são ruins para a empresa, mas talvez não estejam à altura das expectativas dos seus acionistas”, diz Ramsay.

A empresa deve faturar US$2.5 bilhões neste ano – valor não  desprezível – mas a previsão de crescimento deste valor não é empolgante para essa indústria (US$4 bilhões em 2018). As contas têm fechado no vermelho (no último trimestre de 2015, o prejuízo foi de US$90 milhões). Cada usuário representa para o Twitter cerca de US$5 hoje (que devem dobrar nos próximos dois anos), mas sem crescimento na sua base, o serviço acaba vítima da sede de lucros dos investidores, que não admite estagnação.

“A falta de lucros nem assusta tanto quanto a falta de crescimento”, afirma Sam Ro, editor do Yahoo Finance. “Investidores em tecnologia apostam no futuro. Pegue a Amazon, por exemplo: apesar de lucros marginais, há uma taxa de crescimento imensa e o valor das ações está nas alturas”.

Fonte: NiemanLab

Como os fundos de investimento e investidores não decretaram o fim da luta, o Twitter continua com uma certa margem de manobra. A maioria das consultorias e fundos sugere que seus clientes comprem ou mantenham ativos da empresa, com pouquíssimos sugerindo a venda, até porque o valor das ações estão num recorde negativo, com encolhimento sistemático nos últimos 18 meses. O Twitter tem uma engenharia extremamente qualificada, dinheiro em caixa e uma marca que vale bilhões de dólares, com penetração ampla.

Contudo, o mundo das start-ups de tecnologia é darwiniano ao extremo. Indivíduos (“empresas”) que tenham algum tipo de fraqueza e não evoluem tendem a desaparecer. Não se pode acusar o Twitter de imobilismo – ele tem tentado de tudo para ganhar fôlego. Aquisições de serviços afins como o Vine e o Periscope e apostas em novidades como o Moments, uma espécie de agregador de notícias mudaram a dinâmica do microblog. Mais recentemente ainda, o Twitter anunciou uma parceria com a NFL para transmissão de partidas de futebol americana pelo serviço. Fazer tais mexidas foi arriscado – o Twitter poderia ter alienado seus usuários hardcore. Não alienou. Mas também não reverteu o trend de taxa de crescimento baixo.

Qual seria o melhor cenário possível? Ramsey pensa que seria que o próprio Twitter encontrasse um aperfeiçoamento que retomasse o crescimento (“mas isso é muito improvável”). Nesse caso, a recuperação do crédito com investidores daria fôlego até para a própria empresa investir mais, fazendo aquisições e desenvolvendo novidades. É difícil descrever o pior cenário, porque depende de saber ‘pior para quem?’ O usuário comum e o fundo Morgan Stanley (um dos acionistas majoritários do twitter) certamente têm interesses diferentes.

Uma compra por uma empresa maior seria possível? “Totalmente. Aliás, seria a mais provável no longo prazo, caso o crescimento não seja retomado e o valor das ações continue caindo. O comprador provavelmente seria de tecnologia, para poder agregar o serviço ao seu próprio portfólio, cortando parte dos custos combinando os das duas  empresas”, afirma Ramsey. E quem seria um potencial adquirente? “Poucas empresas além do Google teriam perfil e dinheiro para tanto”. Façam suas apostas…

Para acompanhar o podcast de Mark Ramsey e Tom Asacker, clique aqui.

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.