Seis ameaças à Internet que você pode nem imaginar

Da mesma maneira que a energia elétrica, água tratada e esgoto, a importância da Internet raramente é percebida conscientemente no dia a dia. Ninguém nega  quão fundamental ela é, mas, como os itens essenciais mencionados anteriormente, a nossa dependência é mais facilmente mesurada na sua ausência. Nos últimos anos, a Web começou a sofrer um assédio mais sistemático. Mesmo assim, a percepção global da seriedade do assunto é MUITO menor do que deveria ser. Você ainda não está convencido? Sem problemas – ao final desse artigo, que lista cinco ameaças à integridade da Web, você vai estar.

Neutralidade de rede

O que é? A neutralidade de rede é um dos componentes básicos da Internet. A arquitetura da rede foi concebida de modo a garantir que todos os dados que entrem na rede, seja por onde for, tenham igual tratamento. Assim, quando você clica ‘Enter’, independentemente de qualquer outra coisa, os dados que você mandou circulam pela web seguindo uma ordem cronológica e nenhum pacote de informação tem vantagens sobre os outros..
Por que é fundamental? Sem a neutralidade de rede, todo tipo de censura e onipotência do poder econômico poderia acontecer na Web. Os provedores de acesso poderiam cobrar de empresas para dar tratamento especial para as solicitações delas (por exemplo, fazendo com que o site delas ficasse mais rápido), mas não pára aí. Governos (e não só) teriam como moldar o tráfego, deixando sites de oposicionistas, ativistas ou watchdogs mais lentos ou até inacessíveis). Não faria a mínima diferença você ter uma conexão boa ou não, porque em última instância, o que você poderia acessar ou não estaria pré-definido.
E abusos rolam mesmo ou é paranóia? Exemplos não faltam. Países com governos menos democráticos como China, Bahrein e Irã têm o tráfego variando entre “controlado” até a censura aberta. Mesmo nos EUA, que se vêem como o delta da democracia, há provedores de acesso que tentam quebrar a neutralidade, chantageando empresas em troco de tratamento especial – pergunte ao CEO do Netflix sobre o assunto.

Direito à privacidade

O que é? É bem autoexplicativo: você tem o direito de não revelar nenhum dado que não queira. Neste caso, a Internet não é ameaçada – ela já foi violentada em grande medida, graças às letrinhas pequenas que todo mundo (inclusive eu e você, a menos que você seja o Edward Snowden ou o Julian Assange) “aceita” sem ler. A quantidade de gente virando seus dados de cima para baixo é obscena, e inclui desde os gigantes da tecnologia (virtualmente todos), governos, corporações, anunciantes, publicitários e um monte de gente “de bem”. O vídeo abaixo é excelente para você que diz, “ah, eu não. Sou muito cuidadoso Eu não sou bobo”. #inocente.

Por que é fundamental? Pela mesma razão pela qual você não cola um post-it com a sua senha do banco no seu cartão nem entra gritando no motel quando sai de lá com a sua cunhada. As pessoas têm direito a expor a parte da vida delas que elas quiserem e somente isso. O argumento de que todo esse rigor com a privacidade “aumenta o risco de terrorismo” é quase patético, porque nem os terroristas do Comando Revolucionário Kurt Cobain sabem o básico sobre não dar ‘Like’ na fanpage do FBI.
E abusos rolam mesmo ou é paranóia?
A maioria das pessoas ficaria horrorizada ao saber como deixam rastros pela Internet, desde bobagens cuspidas no WhatsApp até operações bancárias e informações que elas gostariam que não saísse na homepage do Google. Para dar uma ideia: o maior aparato de vigilância governamental na história da humanidade era a Stasi, polícia secreta da Alemanha Oriental, que tinha boa parte da população registrada como informante. Durante as quase cinco décadas de regime comunista, os registros da Stasi tinham acumulado o equivalente a um prédio de 12 andares da tamanho de um quarteirão cheios somente com papel. Seguindo a mesma métrica de prédios-de-doze-andares-cheios-de-papel-impresso, a bisbilhotagem ilegal da NSA – e só a da NSA – preencheria um prédio de doze andares do tamanho da África (veja este infográfico que dá mais exemplos). Se você está lendo este texto pela Internet (e como nós sabemos, você está, certo?), a chance de você ter sido bisbilhotado pela agência americana é de 50% (não é engano – é isso mesmo).

Liberdade de expressão

O que é? É bem claro, não?
Por que é fundamental? É igualmente claro, mas vale a reflexão: não há caso de uma sociedade democrática no gozo pleno das liberdades civis que tenha sobrevivido mais de 5 minutos sem liberdade de expressão. A quantidade industrial de imbecilidade que a Internet destravou e que nos dá a total certeza que a humanidade hoje tem mais gente estúpida é apenas um sintoma incômodo, mas necessário, da democracia (que agora também é digital).
E abusos rolam mesmo ou é paranóia? Ligue para um amigo ou parente em uma série de lugares – da Venezuela à China – e pergunte. Provavelmente ele não vai responder ou acaba preso. Mas dá para entender, né?

Regulamentação governamental

O que é? O impacto da Internet na sociedade e na economia criou uma série de soluções inacreditável, mas certamente gerou disputas, ameaças e desigualdades que antes não eram objeto de lei. Infelizmente, o governo raramente age em função do cidadão preferindo atender os interesses de quem financia campanhas ou dá propinas e cria leis que servem para atender quem tem poder e dinheiro. Criar leis pode ser um ótimo modo de garantir direitos de corporações, indústrias e milionários, decadentes ou não, impedindo soluções mais benéficas para todos. Isso para não falar de impostos, palavra que deixa todos os governantes com tesão.
Por que é fundamental? Uma vez que temos de conviver com o capitalismo até que apareça solução melhor, é fundamental garantir que as soluções que atendam melhor a sociedade prevaleçam em relação às que dão privilégios para os líderes de cartéis, governos perdulários que precisam de trouxas para pagar a conta (como eu e você), poderosos ou déspotas de plantão
E abusos rolam mesmo ou é paranóia? Pense em um serviço ruim, caro, fornecido por profissionais mal-educados e que sustentam um cartel de uns poucos que se arvoram numa legislação ruim para continuar ganhando dinheiro. Über x taxistas? WhatsApp x companhias telefônicas? Soou o gongo? Então você entendeu.

Propriedade intelectual

O que é? É o termo que garante ao autor de uma obra ou idéia uma remuneração em cima da exploração comercial da sua obra. A Internet provocou uma mudança profunda porque pela primeira vez foi possível reproduzir itens (como músicas ou filmes) não só em larga escala mas também com custo adicional marginal ou nulo. Se eu podia gravar uma fita cassete nos anos 70 do meu amigo que tinha o primeiro disco solo do Ozzy Osbourme, porque a p***a da gravadora agora quer que eu baixe a música pagando para ela sendo que a despesa extra que ela tem é nula? Claro, a discussão não fica nesse detalhe, mas definitivamente as corporações que exploravam direitos autorais colaborando pouco ou nada para a criação dessas obras está espumando e vai fazer o que for necessário para manter seus privilégios. A sociedade, contudo, tem outras necessidades e o uso de direitos intelectuais jamais será como antes – quer a indústria queia ou não.
Por que é fundamental? Na história, retenção de informação sempre foi feita por tiranias para impedir o empowerment do cidadão (alguém aí vai dizer que a Igreja Católica só queria o “bem” das pessoas ao deter a primazia de copiar livros?). Isso não mudou. Nos dois últimos séculos, a indústria e a legislação manipularam a troca de informação para atender seus próprios interesses, só que o digital aniquilou as vantagens competitivas que esses gatekeepers tinham. Software livre e conteúdo sob licença de Creative Commons são a ponta do iceberg de um novo ambiente de direitos intelectuais que não terá vestígios de quinquilharias como a decadente Hollywood. Definitivamente “The Winter is Coming” para eles.
E abusos rolam mesmo ou é paranóia? O texto original da S.O.P.A, uma proposta de lei criada por Hollywood e vendida por lobistas em Hollywood era tão asqueroso que, basicamente, se você filmasse seu filho cantando uma música da Madonna e colocasse o vídeo no YouTube, poderia ser processado e multado em milhões de reais. O Pirate Bay é o pesadelo real de Hollywood e não por acaso, caça os três suecos como cães com raiva. Veja o excelente documentário “The Pirate Bays – Away from Kewyboard” para se situar.

Acesso à rede

O que é?  Você já teve, tem ou terá um acesso à Web tão ultrajante que te tirou do sério em algum momento. Em países como o Brasil, onde a legislação das agências reguladoras normalmente vêm com o timbre das empresas concessionárias, o cidadão acaba ficando sem alternativas reais de concorrência. Ou então, em países subdesenvolvidos, o acesso simplesmente inexiste. Para boa parte do mundo você não existe se não tiver acesso à rede.
Por que é fundamental? Controlar o acesso à rede (seja por legislação, seja economicamente, seja pela cartelização) coloca em risco praticamente a sociedade como um todo: fica mais fácil para governos popularescos ou autoritários melar eleições, o crescimento da economia digital fica emperrado e mesmo iniciativas educacionais nascem mortas por falta de estrutura. Veja esta lista de países dispostos em função da velocidade média de acesso à Web. Países com ditaduras e democracias ‘populistas’ comem poeira. Não precisa contar – o Brasil está na 46a. posição, com pouco mais da metade da média global.
E abusos rolam mesmo ou é paranóia? Paranóia? Se você nunca desejou intensamente que o mundo começasse a acabar na sede do seu provedor de serviços depois que a atendente do telemarketing perguntou se você “podia estar desligando o modem” ou que eles iam “fazer um reforço de sinal”, como se fosse a Sabesp [companhia de água de SP], atire a primeira pedra.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.