Twitter em 3 desafios: receita, relevância, renovação

O rumor não é novo, mas agora, parece ser sério. O Twitter deve mudar o cabalístico número de caracteres máximo por postagem de 140 para 10 mil. Isso não é apenas uma decisão técnica, mas a mais profunda alteração de uma rede social global.

Pressionado por expectativas de crescimento irrazoáveis (que em grande parte se formaram à revelia) e por não conseguir emplacar nenhum produto novo em tempos recentes,  o microblog se vê obrigado a arriscar a própria identidade num mercado que não perdoa erros.

Vendo com os olhos dos publishers, agências, anunciantes e usuários, é difícil encontrar um problema. Nos próximos dois anos a receita só deve crescer (com percentuais não só de dois dígitos, mas também com números maiores do que o onipotente Facebook). A base de usuários tem um ritmo mais lento, é verdade, mas até 2018, deve chegar perto dos 350 milhões de contas. O market share de publicidade digital deve dobrar até o fim do ano que vem, em comparação com 2014 (lembrando que o total de receita de ads cresce cerca de 15% ao ano e deve beirar os US$700 bi em 2018).

Ok, 2015 foi um ano no vermelho para o Twitter (perto de US$8 milhões), mas segundo uma matéria o USA Today, nesse ritmo, a companhia teria fôlego para 412 anos de atividades até drenar seus cofres. A determinação de Dorsey, Costolo, Stone et al em não comprometer a experiência do usuário deixou o serviço longe de potenciais rebeliões por parte dos clientes.

Os 140 toques são o problema do Twitter?

Se não, por que mudar? E onde está o caroço no angu? Mais uma vez, o problema é a expectativa.

Um dos espinhos é a estagnação de crescimento nos EUA. Com a Ásia ilhada em concorrentes de outras línguas, não há nenhuma pista de que o Twitter possa apresentar taxas de crescimento em sua base de usuários que se aproximem às que o Facebook teve entre 2008 e 2015 (surreais 11% por trimestre). Nas Américas e na Europa, a base já cresceu o que tinha de crescer dentro do possível.

Essa estagnação joga a responsabilidade do crescimento para o resto do mundo ocidental. Um observador pode argumentar que o universo de habitantes e/ou de usuários de Internet que já usa o Twitter é pequeno em relação à quantidade de internautas ou habitantes nesse perímetro, logo, deixando aberta uma vasta margem de crescimento. O raciocínio se invalida por uma questão demográfica: o Twitter é uma ferramenta baseada em texto e exige um nível de alfabetização que esses universos de potenciais usuários ‘inexplorados’ não têm e não há nada que sugira que virão a ter.

Aqui cabe uma colocação referente ao “valor” da plataforma: o Twitter é a rede social com maior relevância para a sociedade. Não há nenhuma figura pública nos países ocidentais (e em muitos não-ocidentais) que não marque sua presença no Twitter. Mais que isso: a ferramenta hoje é fácil mais importante do que comunicados oficiais de imprensa e basicamente o Twitter é o espaço onde qualquer pessoa, entidade ou empresa pode ter sua voz ouvida. Não é coincidência que todos os personagens, empresas ou publicações deste ou da maioria dos textos sobre mídia e tecnologia tenham sua comunicação baseada numa conta do microblog.

Ao contrário do Facebook, que explora os elos interpessoais fortes de familiares e amigos, o Twitter é capaz de criar infinitas redes de comunicação que se tecem por interesse, sem que haja um algoritmo que determine a expansão da informação e, em certa medida, a manipule. Como utilidade pública, o Twitter é imbatível e indiscutivelmente um dos pilares mais seguros sob os pontos de vista jornalístico, de credibilidade e de informação em cima dos quais a mídia digital está se estabelecendo. Infelizmente, esse pedigree não conta no Vale do Silício nem em Wall Street e toda a importância do Twitter para a sociedade ficam de lado quando os investidores dão as cartas.

#omercadoquerdinheiro

O problema, para o Twitter, está nos resultados da sua performance (financeira e de engajamento) e no fraco recorde recente de novidades de seu produto. Nenhuma das atualizações lançadas pela plataforma conseguiu galvanizar sua base de usuários para que elas fiquem significantemente mais tempo conectados (pelo contrário, o time spent da rede caiu em cerca de 30% entre 2014 e 2015, segundo dados publicados do Morgan Stanley), nem trouxeram fluxos de receita importantes. O Twitter Moments, lançamento recente mais importante, apostou numa “humanização” da curadoria, deixando momentaneamente de lado a abordagem não-intrusiva que cria dutos de big data sem intervenção/manipulação humana. Apesar de não ter fracassado, a novidade não teve o impacto esperado e não diminuiu a pressão sobre a companhia.

Neste fim de janeiro de 2016, o valor da ação gira em torno dos US$17, pouco mais de 20% dos US$73 de seu auge. Nos últimos 6 meses vários executivos importantes deixaram a companhia (a maioria deles ligados a produto e performance). Em que pesem todas as suas virtudes, o Twitter não é a primeira (Facebook) nem a segunda (WhatsApp), nem a terceira (QQ) ou a quarta (FB Messenger) rede social em tamanho – mas a nona. É difícil negar que a relevância do produto esteja esmaecida, na melhor das hipóteses, em relação à concorrência. O Twitter sofre na carne uma disfunção da economia da mídia digital, que ainda trabalha com parâmetros herdados da mídia tradicional – como a quantidade da exibição de anúncios só que boas justificativas e boas intenções acabam na vala comum quando avaliadas pela lógica de mercado e um serviço vital corre o risco de se desvirtuar para que algum acionista anônimo jogue mais alguns zeros à direita em sua conta.

Qual o impacto que uma mudança tão significativa quanto o aumento no número máximos de caracteres por postagem pode ter para o Twitter? Em termos de relevância para a plataforma, pouca. Heavy users do microblog não vão deixar a plataforma por conta disso. Também é pouco provável que o novo template de postagem crie um espaço no cenário de tecnologia que já não tenha concorrentes de peso (Tumblr, WordPress, etc). Um pouco menos certa é a possibilidade de crescimento de receita seguinte a essa alteração – mais ‘espaço’ na plataforma pode definitivamente trazer mais dinheiro, mas não é uma certeza.

A maior ameaçada com a”perda” dos 140 caracteres é a identidade do serviço, a característica mais forte e singular do Twitter. Esse design é um dos ingredientes mais marcantes não só da rede social mas também da nova semântica que nasceu com o digital. Não é coincidência que, por tanto tempo, os criadores do Twitter tenham adiado mudanças radicais. O tempo vai dizer se a reticência tinha ou não fundamento.

PostScriptum: um adendo com um gráfico do statista.com sobre o Twitter. A queda profunda do market cap da empresa e as incertezas diretivas estariam abrindo espaço para uma possível aquisição por parte de um fundo chamado Silver Lake.  E aí?

Infographic: Is Twitter an Acquisition Target? | Statista
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Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.