AMP x Instant Articles, guerra aberta entre Google e Facebook

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A década que viu o Facebook passar de 5 milhões para 1.4 bilhão de usuários, o Google ir de 140 bilhões para 1.5 trilhões de buscas por ano marca também uma nova era – uma era dos dinossauros. Mas aqui, a menção aos dinossauros não é por conta da obsolescência e sim, do gigantismo. AMP e IA são os acrônimos da guerra de código que está começando.Com números atingindo o domínio global, as duas companhias não querem mais ser as líderes, mas sim, as monopolistas. E para isso, já mostraram suas armas.

Se outrora os magnatas globais buscavam domínio total de seus mercados, o faziam discretamente, até para fugir das restrições legais que surgiram no pós-guerra, mas tudo mudou. “Competição é para os losers. A frase que contraria totalmente os princípios do capitalismo é um mantra no Vale do Silício, supostamente onde a competição capitalista teria seu exemplo mais perfeito. Peter Thiel, um dos co-fundadores do PayPal e agressivo investidor em start-ups, foi quem a mencionou em uma palestra, revelando que a verdadeira vocação das grandes corporações é o extermínio dos competidores. E isso vale para qualquer luta. Inclusive para a luta entre Facebook e Google pelo tráfego – todo ele.

Instant Traffic (ou melhor, Instant Articles)

Onipotente no campo das redes sociais, o Facebook não tem concorrentes aparentes. Praticamente toda a indústria de conteúdo depende (ou vai depender em pouco tempo) do colossal volume de tráfego que a plataforma pode gerar. O domínio de Zuckerberg é tamanho que ele já se coloca na condição de ter poder para pressionar os publishers a colocarem seu conteúdo dentro do Facebook se quiserem continuar a ter a cooperação da rede social em seu tráfego. O projeto dos Instant Articles, designado para “melhorar a experiência do usuário” (particularmente nos dispositivos móveis, que é o cenário de toda a ddisputa agora), permite que os geradores de conteúdo hospedem seu produto nos servidores do Facebook, diminuindo o tempo de acesso a ele. Os publishers podem monetizar 100% do conteúdo, segundo o Facebook, mas, naturalmente, todo mundo sabe que a medida da empresa não é nada ingênua. A meta de Menlo Park é deixar de estar “na Internet” para ser a Internet (jogada que é coerente com a implantação de outro projeto de Zuckerberg, a Internet.Org), deixando todas as publicações nas suas mãos.  O Instant Articles é um ataque frontal ao Google porque se o Facebook tiver o conteúdo e o usuário dentro da sua plataforma, o Google basicamente só poderá assistir o crescimento do concorrente.

O Google respondeu, e com uma resposta bem elegante. O ataque ao ‘Império’ se chama Accelerated Mobile Pages, ou AMP, que consiste num novo set de regras de programação que simplesmente prioriza o carregamento da parte essencial do conteúdo, em detrimento de ‘cacos’ de programação que não são o cerne do interesse do usuário (como ferramentas de publicidade). A elegância da resposta do Google é que o código do projeto é aberto, sem deixar o Google como ‘dono’ da plataforma (embora não faltem céticos argumentando que o AMP dá vantagens ao Google e não se trata de uma medida desinteressada). O Google nega que o AMP seja uma resposta ao Instant Articles, mas, assim como a retórica de “melhora da experiência do usuário”, também se trata de uma menção de relações públicas.

AMP, o ‘campo de força’ do Google

Se o Facebook levar os grandes produtores de conteúdo para dentro de seus domínios, o Google vai perder parte imensa do tráfego. Com o AMP, a empresa de busca deu uma ajuda para que esses produtores de conteúdo possam otimizar a experiência de seus usuários sem depender do Facebook. Nem Google nem Facebook virão a ter uma posição de controle total do cenário. Historicamente (e mesmo só no campo da tecnologia), companhias que começam a distorcer o ecossistema das suas indústrias acabam sendo imobilizadas em sua vocação monopolista por novas tecnologias, legislação governamental e mesmo ativismo de grupos de usuários ou competidores para propor alternativas. Contudo, a batalha dos dois gigantes digitais vai moldar o futuro da indústria de conteúdo “aberto” (que não circula atrás de paywalls, tipo Netflix, por exemplo). A forma de conceber o conteúdo e disponibilizá-lo sofrerá uma grande mutação e deve gerar uma alteração no modo como as plataformas de consumo são montadas.

Essa mutação ‘genética’ das plataformas provavelmente encaminhará a Internet como um todo para ambientes e players menos individualistas e mais “líquidos”, onde a divisão entre os competidores fique menos evidente. Esse cenário não vai acontecer sem atrito, contudo. Um outro elemento, que é a crescente onipresença de adblockers, destinados a dificultar a exibição de publicidade, também vai tornar o desfecho da disputa mais imprevisível. Uma coisa é certa: a luta entre os dois dinossauros não vai matar nem redimensionar nenhum dos dois, mas vai redesenhar o meio-ambiente de conteúdo de maneira global.

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.