O meio é cada vez mais vital que a mensagem

O mercado de tecnologia está com uma febre alta – e há anos. Os preços de startups surgidas do nada explode e suas aquisições entram na contabilidade como investimentos simplesmente baseados na avaliação feita por ‘criatividade contábil’. Uma das febres mais agressivas é ao redor dos apps de mensagens, que gera quedas e elevações de ações simplesmente por artigos assinados em publicações de Wall Street ou tecnologia. Por baixo desse sandice financeira, os continentes estão definitivamente mudando, mas o ‘hype’ é grotescamente maior do que a realidade jamais permitirá.

Entender o mercado de tecnologia é um exercício de paciência e cautela tamanhos que no final das contas o que acaba contando é a intuição. Qualquer economista pode sentar com você durante uma ou duas hora e explicar por que tal empresa vale tanto através de cálculos econométricos, fórmulas, indicadores e projeções contábeis. No fim das contas, os valores que chegam para o ‘mercado’ são distorções de uma dimensão difícil de explicar. Pare para pensar como o mercado financeiro vinha desgovernado e em completo estado de descontrole antes do ‘crash’ de 2008. Então, ele continua assim, só que de roupa nova. Há várias locomotivas caminhando para uma colisão fabulosa, mas todo mundo prefere imaginar que algo vai acontecer para evitar o impacto.
Statistic: Market capitalization of the largest U.S. internet companies as of September 2014 (in billion U.S. dollars) | Statista

A escalada do valor das apostas parece estar agora em cima das ferramentas de mensagens mencionadas acima. Em qualquer cenário, parece certo agora que as empresas de telefonia terão de alterar seu foco de oferta de linhas telefônicas para oferta de conexão à Internet. A regulamentação do que as telcos poderão ou não fazer a partir de agora é o grande debate que se seguirá à partir do atual acerca da neutralidade da web. Sem regulamentação, o poder nas mãos das companhias telefônicas será imenso, inclusive para poder alijar os proprietários de apps como o WhatsApp. Não foi à toa que Zuckerberg deu um jantar em sua casa em Barcelona para os principais executivos de telefonia logo após sua aquisição do WhatsApp.

A aquisição do WhatsApp pelo Facebook foi o primeiro sintoma aparente dessa febre agressiva. US$16 bilhões não é um valor em desacordo com os atuais métodos de avaliação, mas demonstra como os investidores não estão nem aí para o que a empresa vale ou não, mas sim para o quanto outros investidores possam achar que ela vai valer no futuro. É uma espécie de cassino onde você aposta no que acha que os outros vão apostar. Para o Facebook, certamente a aposta não foi tão insegura assim por conta de sua posição única. Além do bilhão de clientes e sua onipresença virtual, Zuckerberg já tinha uma boa visão do nicho de comunicação entre usuários por conta do Instagram. Mas em geral é. O controle desses apps de comunicação é fundamental, mas poucos players têm como explorá-lo.

Os produtores de conteúdo – em especial os digital born como o Buzzfeed – começaram a fazer de Snapchat e WhatsApps suas novas homepages e, de fato, deveriam mesmo. Os aplicativos de comunicação vão revolucionar a mídia muito mais do que a comunicação em si. Talvez a comunicação pareça a mais atingida aqui, mas o fato é que o impacto digital no processo já vem lentamente se dando há pelo menos uma década. O desenvolvimento tecnológico recente desses apps, como a livre gestão de vídeo, imagens e texto, está fazendo deles os ‘browsers’ dos dispositivos móveis.

Onde está o problema então? Bem, além dos já citados (hiperavaliação dos negócios no setor, falta de regulamentação), estão as questões da geração de receita e da produção de conteúdo relevante, o que um dia foi chamado de ‘jornalismo’. O primeiro basicamente coloca todos os publishers nas mãos dos donos das plataformas. Quase 20% do tráfego de todas as publicações vem do Facebook, que também detém cerca de 20% de todas as visitas a sites feitas por usuários nos EUA. Trocando em miúdos, dependem da boa vontade do Facebook para não colapsarem. Embora o Twitter seja até mais relevante ‘socialmente’ que o FB, não há comparação no poderio de geração de tráfego entre os dois.

O segundo problema já é sentido hoje. Os donos das plataformas é que têm completo domínio sobre para onde vai o dinheiro. Não adianta você gerar tráfego nessas plataformas. ‘Likes’ e alcance são inúteis se o anunciante coloca dinheiro no Facebook em vez do seu site. O mesmo vale para todos os apps de mensagens mencionados anteriormente. O ambiente não é mais a web, mas uma propriedade privada sobre a qual você  – publisher – não tem nenhum poder. O entusiasmo dos editores com suas ideias geniais para conseguir milhões de ‘likes’ são o equivalente a ver os três porquinhos darem um banquete com o lobo mau na mesa. Por hora, o lobo não é mau, mas ele continua sendo um lobo.

Não há – pelo menos não ainda – um caminho viável para que as publicações consigam se entusiasmar e voltar a depender somente de si mesmas. O avanço desenfreado dos dispositivos móveis, que deixaram de ser a eterna promessa – tende a piorar esse colapso, porque o tráfego está crescendo e não o oposto, o que faz com que haja um certo otimismo de que o mobile seja a luz no fim do túnel. Sob o ponto de vista dos editores, o problema não está sendo resolvido, mas adiado e caso não haja outro shift tecnológico, a tão prometida colisão jaz logo mais à frente. Num desdobramento de Marshall McLuhan, o meio não é somente a mensagem – é mais importante que ela.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.