A nova meta da notícia é encontrar o seu leitor

Houve um tempo, não muito distante, onde a modelação de conteúdo para uma publicação era mais simples: as matérias eram feitas segundo as convicções das redações e acontecimentos dos nichos abordados. As audiência iam atrás do que queriam ler. Mas isso acabou. A informação não segue mais o mesmo sentido nem obedece a formatos pré-estabelecidos. A produção de conteúdo ainda pode seguir padrões e critérios de qualidade, mas o mais importante é que ela consiga encontrar o seu leitor e não o inverso, que era o caminho anterior. Lidar com o novo ambiente é um desafio que ainda gera mais perguntas que respostas.

O reitor da Medill School of Media, da Northwestern University, costuma falar em três “verdades” ligadas a conteúdo no mundo digital. “The three John’s truths” não reinventam a roda, mas alinhados, são úteis para delinear quais os percalços que estão no caminho. Muitas das companhias e profissionais não estão errando na resposta ao problema, mas ao levantar as perguntas certas.

Um tsunami de informação: estamos sob uma quantidade de conteúdo sendo produzido sem nenhum precedente na história e o ritmo vai só acelerar. Nunca o indivíduo foi tão submetido a fluxos de informação tão intensos, variados, onipresentes e consecutivos. Em um livro publicado em 1989, o pensador Richard Wurman afirma que na Idade Média, o homem comum, ao longo da vida, recebia a mesma quantidade de informação que hoje é publicadas na edição dominical de um jornal como o NYT. Entre 1989 e hoje, esse montante informacional cresceu exponencialmente – e a proporção só vai aumentar. Muitas das doenças da pós-modernas estão ligadas a esse abuso informacional. O problema é inescapável, mas também oferece possibilidades gigantescas. Curadores de informação eficientes têm um produto excepcional para oferecer a audiências exaustas e sem direção.

Tempo finito e imutável para consumo: por mais que as audiências se conectem, se atualizem e se disponham a receber mais informação, há um limite físico intransponível: o tempo à disposição do indivíduo é finito e imutável. Jamais haverá um momento em que o consumidor tenha mais tempo para se dedicar a mais conteúdo. As grades de consumo de conteúdo são fixas e continuarão fixas, pelo menos até que a física einsteiniana não seja subvertida.

Complexidade crescente da equação de consumo de conteúdo: Se um dia, jornais competiam entre si para ver quem oferecia o “melhor” conteúdo (entre aspas porque a avaliação é sempre relativa), hoje a luta é insanamente mais acirrada. Não se deixou de competir pela oferta da “melhor” informação, mas também pelo seu formato, execução, plataforma, tipo, timing, preço, empacotamento, geolocalização, etc. Estabelecer o que vai ser oferecido ou não tem tantas variáveis em jogo que, na maioria das vezes, o desfecho da competição é aleatório, com um dos competidores ganhando a parada por ter aberto vantagem em uma das escolhas. Praticamente nenhum player de produção de conteúdo já está com todas as instâncias otimizadas. Isso significa que ainda há uma “terra de ninguém” esperando para ser tomada.

Não é preciso se colocar no lugar do leitor/usuário: todos somos usuários na maior parte do tempo. Momentos que antes eram ociosos, hoje estão ocupados com a ubiqüidade do Facebook, a implacabilidade dos ads do Google, os diversos sistemas de intercomunicação direta (MSN, Google Talk, iChat) ou indireta (Tinder, Foursquare, Yelp). Como diz Julian Assange no livro Cypherpunks, “telefones celulares são aparelhos de rastreamento que permitem que o dono faça chamadas telefônicas”. A menos que se queira e se faça esforços para isso, não há mais incomunicabilidade ou ‘paradeiro desconhecido’. Questões de privacidade à parte, esse conhecimento do comportamento do cliente é a chave para fazer com que a notícia encontre o leitor e não o contrário.

Neste cenário, a notícia não pode mais aguardar o leitor. Hoje, é decisivo que se conheça o público-alvo, procure se avaliar quais são as suas necessidades e se lapide o talento de oferecer o necessário, na hora certa, no canal certa, no formato certo e sem ser invasivo. Os dilemas de privacidade que estamos vivenciando hoje são só a ponta do iceberg. No futuro, os provedores que souberem reconhecer os limites desejados pelo cliente vão solidificar as relações com ele. As empresas de tecnologia agem agressivamente para “possuir” seus clientes porque estamos no limiar do surgimento de um novo sistema legal com margens que ainda estão indefinidas. O caos atual é transitório, mas essa transitoriedade por durar por um longo período ou até mesmo transformar-se no modo default, porque a evolução tecnológica está dando saltos cada vez mais violentos e cada vez mais freqüentes. A lógica vale para todos os conteúdos, mas o caráter imediatista do hard news faz com que a notícia esteja na linha de frente do combate.

Esse emaranhado aparentemente infinito de filtros e possibilidades traz alternativas inéditas. A possibilidade de se comunicar com grupos cada vez mais detalhados de receptores permite que o refinamento da informação enviada tenha uma precisão assustadora (“assustadora” é a palavra exata). Grandes redações não serão mais aquelas com grande quantidade de profissionais mas aquelas com capacidade de processar, com eficiência, a maior quantidade de dados, com mais exatidão, para as audiências corretas. O “fazer jornalístico” (para usar um termo adorado por acadêmicos absortos em si mesmos) sempre foi um jogo de equipe onde os indivíduos brilhavam. Agora o time aumentou – designers, engenheiros, data scientists, gerentes de mídias sociais – e o trabalho é ainda mais coletivo. Se o culto à personalidade ainda existe, é uma herança da fase pré-digital. As estrelas vão precisar cada vez mais de suporte, mesmo que os provedores desse suporte continuem no anonimato.

O “jornalismo de qualidade” vai morrer? A pergunta circula sempre nos âmbitos de discussão entre jornalistas, mas é uma armadilha retórica. Nunca houve tal jornalismo e ele jamais deixará de existir. O modelo usado nos anos 50 com redações cheias de estrelas como Gay Talese, Norman Mailer e Truman Capote dificilmente sobrevive à transformação radical que está ocorrendo, mas por outro lado, formas fabulosas de se contar histórias, fazer denúncias e avaliar situações estão surgindo e essas novas narrativas vão encontrar seus caminhos. O que é incerto é definir qual será o preço disso.