Ameaçada, indústria de notícias dá indícios de evolução

Nesta semana, em Londres, o evento News:Rewired reuniu profissionais da área para discutir o futuro: jornais,  notícias, mídias sociais e variantes. Infelizmente eu não pude ir, mas um brilhante wrap-up do evento foi feito por um colega de trabalho, Simon Garner, o Head of News do Yahoo no Reino Unido. E sim, as corporações batem cabeça, sim, a maioria dos jornais está cavando a própria cova e sim, a luta contra o processo digital é a típica reação do velho fadado a sucumbir ao novo. Mas apesar de tudo isso, tudo indica que perspectivas entusiasmantes estão surgindo para a indústria e a sociedade só pode comemorar.

Novamente um disclaimer: os insights deste texto não são mérito meu, mas do meu colega, que resumiu um oceano de informação numa taça de sabedoria. Faço aqui somente uma síntese em tópicos do que foi abordado no evento mas descrito no texto de Garner, fazendo minhas observações [em colchetes]:

– Os jornais não vão morrer [será?]: apesar da fantástica miopia dos gestores da maioria dos jornais, a batalha sobre quem manda e determina o noticiário ainda será vencida pelas empresas tradicionais. David Ho, editor de dispositivos móveis e tecnologia do Wall Street Journal, argumenta que a edição periódica de notícias ainda é fundamental e que uma dose finita de conteúdo  – como uma edição digital dos jornais – está ganhando relevância. Dispositivos móveis, apps, deep linking, tecnologia que “decifra” seu comportamento e interfaces além da tela (ex: Internet of Things) estão na lista de must-have’s. O conteúdo só terá valor se for consistente em todas as plataformas. Doutro modo, é inútil. [Tudo em cima, menos que os jornais vencerão. As empresas mais aptas à auto-canibalização vão permanecer. Os jornais cuja existência esteja muito entranhada à própria tradição vão sumir ou ser assimilados por novas entidades mais maleáveis. A batalha final será vencida pelos jornais que seguem os moldes do Guardian: sólidos princípios jornalísticos somados à maleabilidade perene].

Unknown

– O conteúdo só é rei se no fomato certo: Bella Hurrell, da BBC deu um exemplo: uma matéria postada nas redes sobre a descoberta de um planeta teve 300% mais audiência do que um conteúdo normal da BBC. Um pequeno esforço a mais propicia um rendimento gigantesco a mais. Dobrar ou triplicar o mesmo conteúdo para ele se adequar à mais mídias vale a pena. [a maioria das empresas com legado de mídia tradicional insiste em pensar que jogar o mesmo conteúdo nas diferentes “jarras” (leia-se, “mídias”), imediatamente duplica ou triplica a eficiência do conteúdo, quando é justamente o contrário: equipes de geração de conteúdo têm de estar assistidas por equipes de “adequação” de conteúdo].

– Crescimento das apps “one-for-one”?: Garner sublinhou uma dica do editor de apps da BBC, Trushar Barot. Qual o futuro das ferramentas de comunicação direta e semi-individual, como o WhatsApp? Elas são um caminho para jornalistas terem um contato direto com a audiência. Barot classificou o WhatsApp como a mídia social ‘com maior potencial de distribuição’ e com grande facilidade de compartilhamento. Barot e Garner também citam outros problemas como dificuldade de uso, instabilidade (em grandes escalas, ferramentas do gênero oferecem desafios de engentaria e estabilidade e exclusividade do celular). Mídias nascidas no digital (Buzzfeed et al) também se fascinam com a dinâmica dos WhatsApps. [uma questão emerge aqui: ferramentas maciças como o WhatsApp têm um sério dilema de privacidade em todos os mercados e na Europa, pode tropeçar nas leis dedicadas a proteger os indivíduos de difamação. Certamente o mercado vai 1) crescer e 2) sofrer uma contínua mutaçnao em busca de respostas de tecnologia para os problemas legais. Em relação aos Buzzfeeds, apesar do ‘hype’, é difícil imaginar que seja possível sair da “receita de sucesso” de “click-bait headlines’. Por mais que o mercado se fascine com a natureza do Buzzfeed, não acredito que eles venham a se maturar como fontes confiáveis de informação sem que mudem a sua natureza.]

Reddit: uma fronteira desconhecida no Brasil: o Reddit é uma espécie de comunidade ultra-viciada em informação onde oceanos de dados são trocados enfurecidamente. Vantagens: como todas as comunidades, há um espírito forte de se preservar a integridade da mesma. Muito tráfego pode sair dali (o Brasil ainda não descobriu o Reddit) e o melhor a fazer é se tornar um meio de informação que ganhe a confiança da comunidade em vez de postar as próprias coisas. [o Reddit é social com esteróides. As vantagens de se conseguir informação rapidamente é tão grande quanto o risco de se disseminar boatos – vide as bombas na Maratona de Boston, por exemplo. No Brasil, existe outro obstáculo que é o baixo nível de alfabetização realmente funcional].

Facebook: não só o lado ‘evil’: apesar de todas as críticas pelas alterações na experiência nos últimos dois anos, o FB ainda é o grande motor de tráfego em social para a maioria das publicações, sendo o número 1 em tráfego de dispositivos móveis. Um usuário médio do FB checa a timeline cerca de 14 vezes ao dia. [Parte que me chamou mais a atenção: as global pages para companhias e publicações, onde a curadoria é regionalizada, mas dentro de um repositório global. O usuário é redirecionado segundo o IP de sua visita, nacionalidade ou idioma. O Facebook é uma parte fundamental do ambiente digital e a plataforma será criticada indefinidamente, porque ninguém atinge esse tamanho sem desagradar alguém, como já dizia o slogan do filme de David Fincher sobre Mark Zuckerberg].

Um evento como o londrino seria revelador por si só, mas o contexto é ainda mais fundamental. Jornais e jornalistas, aparentemente, estão deixando de tratar a nova era da informação como um acessório opcional e entendendo que trata-se da história passando e que os mesmos podem estar ao lado, em cima ou embaixo da locomotiva histórica. Tradicionalistas agarrados a práticas anacrônicas e teóricos cujo apego às teses é maior do que o apego ao conhecimento estão sendo deixados para trás. Para a sociedade, a possibilidade de mudança é um alento.