Valor da informação depende de princípios, modelos de negócio e tecnologia

Quem se importa com informação? A pergunta parece um tanto quanto inofensiva, mas ela está na base de como o mercado de notícias vai se estruturar no futuro. Em última instância, todos os argumentos que tratam do jornalismo como um bem social, um recurso valioso para o funcionamento da sociedade, são frágeis. A definição do futuro dos meios de comunicação será determinada – como todo o resto – pelas premissas econômicas. O que a sociedade precisa fazer é achar um modo de encaixar suas demandas por informação nessas premissas. Senão, vai acabar com discursos empolados e vazios como os que fazem os acadêmicos que vivem num mundo que não existe.

O jornalismo como conhecemos hoje foi subvencionado durante todo o século XX. Uma vez que seus departamentos comerciais conseguiam gerar fortunas vendendo espaços publicitários, grupos de informação podiam se dar ao luxo de, quando queriam, bancar jornalistas capazes, caros e conhecidos para coberturas deficitárias em si mesmas. Por exemplo, numa guerra distante como a do Vietnã, a finada revista Realidade podia enviar um correspondente especial como o jornalista José Hamilton Ribeiro porque as receitas geradas com o resto da revista seriam mais do que suficientes. Não havia leitores brasileiros interessados no Vietnã em número grande o bastante para pagar a viagem de Ribeiro à Ásia, mas o todo da publicação conseguia subsidiar empreitadas do tipo.

A queda da venda de publicidade foi posterior ao enxugamento que as redações fizeram nos anos 80 e 90. Contudo, foi com a chegada das mídias digitais que passaram uma rasteira nas tradicionais porque a publicidade começou a trocar de mãos. Quando as receitas começaram a escassear, os jornais e revistas fizeram a única coisa que sabem para cortar custos – demissões nas redações e daí, os ritmo com o qual os leitores abandonaram seus hábitos impressos só aumentou seu ritmo.

Salvo raríssimas exceções, os jornais perderam a possibilidade de ser independentes porque de um lado têm os anunciantes e seus interesses e do outro, os leitores e suas preferências. Leitores escolhem jornais por conta dessas preferências e se ele decide se ‘pasteurizar’ para buscar leitores de outros credos, tende a perder a atratividade. Servir fatias muito extensas de mercados exige que as verdades sejam entregues de maneira mais palatável, conforme diz o professor Tyler Cowen, da George Mason University, mas essas verdades “dóceis” não cativam audiências. Num mundo saturado de ofertas de conteúdo, somente as mais agressivas sobrevivem. BBC, New York Times e a revista The Economist estão entre os pouquíssimos que podem se dar ao luxo de escapar dessa observação por se tratar de marcas que transcendem a preferência do leitor/usuário.

Vendo sob um ponto de vista econômico, há algumas perguntas decisivas para se determinar a viabilidade do mercado de notícias. Quantas pessoas estão dispostas a pagar por uma determinada informação – digamos, sobre o impasse entre Rússia e Ucrânia na Criméia? Senão, quantos anunciantes estão dispostos a pagar pela atenção desses interessados? Devemos deixar a decisão sobre quais são os assuntos importantes para os critérios econômicos?

Falando racionalmente, não, claro que não podemos submeter a pauta às preferências de um público que dedica horas de sua vida ao Big Brother Brasil ou aprende a dançar o Lepo-Lepo. Critérios econômicos não levam às conclusões mais adequadas para a sociedade, por mais valor que tenham as teorias de Adam Smith e outros pensadores liberais.

Nesse ponto é que a capacidade criativa da sociedade precisa fazer a diferença. Se as notícias não têm mais como ser produzidas dentro de um modelo de negócios, insistir nesse modelo não  deve levar a nenhum desfecho diferente. Assim, alternativas que tenham custos menores ou que gerem receitas maiores (ou uma combinação de ambos, que é o mais provável).

Um caminho já explorado é o da de-homogeneização da audiência. Públicos homogêneos tendem a criar maior competitividade e facilitar a vida de grandes corporações (como foi o caso por décadas na supremacia das mídias de massa). Esse processo achata os preços para o consumidor final (que, virtualmente acaba tendendo a zero, como acontece em casos nos quais ocorre o dumping), mas também compromete a precisão e qualidade da informação, porque disponibiliza menos recursos na apuração e comercialmente, normalmente é mais suscetível a políticas de boa vizinhança com grandes anunciantes. Em resposta a isso, alguns meios buscam os extremos (pense na revista Veja, no britânico Daily Mail ou na revista Carta Capital). Melhor atender um público parcial do que tentar brigar pelo todo. Em suma: as publicações entregam o que seus stakeholders (anunciantes e audiência) querem receber para não correr o risco de perder receitas e/ou leitores. Para evitar o risco de ficar vendido, as publicações estancam suas perdas de audiência falando para públicos mais “radicais” que se viciam nas verdades que construíram.

A audiência já começou a ficar mais heterogênea a partir do momento que os meios que atingiam públicos massivos começaram a se fragmentar. Hoje, companhias de tecnologia como Twitter, Facebook e Google absorveram boa parte dessa fragmentação e blogs e outras publicações também se tornaram muito visitados. O nó para ser desfeito aí está na maneira como a receita reflita essa audiência multifacetada. O grosso do mercado publicitário ainda fica nas mãos das agências e elas permanecem sendo gatekeepers implacáveis, junto com corporações tecnológicas que detém sistemas de entrega em massa de inventário como o AdSense. Vivemos hoje um momento no qual o mercado não  consegue remunerar adequadamente a produção de conteúdo segundo sua importância, porque essa importância não é percebida pela audiência. Essa falha da matriz abre espaço ao jornalismo vigarista, ao “infotainment“, às “artistas e modelos” com muito silicone e pouca roupa,  e à cobertura rasteira de assuntos fundamentais como política internacional, educação e política, por exemplo.

O passo espetacularmente veloz das mudanças tecnológicas precisa vir em socorro dessa necessidade da sociedade. Se não é possível manter organizações jornalísticas como as atuais, alternativas de cooperação podem ser parte da solução. Mecanismos que ajudem a atribuir credibilidade às notícias que são lidas também estão sendo desenvolvidos (como o Truth Goggles). Sistemas que ajudem o leitor a identificar provedores de informação confiáveis também têm de ser criados para que muitos pequenos veículos possam ocupar o espaço dos grandes em declínio.

Tudo isso, contudo, tem de estar endossado pela vontade da sociedade de estar bem informada. Essa disposição por parte da sociedade pode até ser autônoma, ativa, determinada por uma questão de princípios, mas tendo-se em vista a obsessão por frivolidades e mundo cão por parte do público, é lícito supor que só depois de um grande trauma nós venhamos a exigir mais informação e menos entretenimento. Até lá, continuaremos a prestigiar populistas vigaristas e superficialidades com pouca roupa.