Redes do futuro serão ilhas de conhecimento hiperconectadas

As empresas de tecnologia têm invariavelmente um tom libertário no seu marketing, especialmente quando estão na fase de crescimento exponencial (como o famoso anúncio da Apple no SuperBowl de 1984). Contudo – e cada vez mais – uma vez que assumem o papel de superpotências, tornam-se exageradamente protetoras de seus direitos. Não querem fazer concessões para competidores menores, espremem usuários que não têm alternativas e, mais recentemente, têm pouca cautela com a privacidade dos usuários ao mesmo tempo em que são radicais para evitar o compartilhamento dos dados que esses mesmos usuários disponibilizam. Isso não muda o fato de que trata-se de um adágio que não tem futuro a longo prazo. O futuro pertence às redes que mais viabilizem plataformas de conexão e compartilhamento de dados. Redes “fechadas” tendem a se isolar.

Para chegar ao seu primeiro bilhão de usuários, o Facebook teve de adotar um ritmo de crescimento tão agressivo quanto uma infecção epidêmica (a observação é embasada por um estudo de dois pesquisadores de Princeton). Não haveria modo de atingir a proporção planetária sem propor uma alternativa de compartilhamento agressiva – assim como o próprio Google também teve no seu caminho para a liderança do mercado de busca. O problema no longo prazo é que o Facebook conecta você às pessoas que você conhece, mas não às pessoas que têm interesses particulares que são os mesmos que os seus.

Isso acontece porque para chegar ao tamanho atual, a rede de Mark Zuckerberg teve de propor a possibilidade mais inclusiva possível para uma rede social, com ferramentas e incrementos que fossem de algum interesse para a maior quantidade de pessoas possível. Só que não dá para combinar isso com uma plataforma que forneça os recursos que permitam a cada grupo de interesse (por exemplo, pescadores, amantes de grindcore e advogados trabalhistas) atingir ao máximo a profundidade do assunto que eles realmente amam. Para criar uma imagem representativa, o Facebook é horizontalmente gigantesco, mas tem pouquíssima profundidade. Você consegue postar um vídeo engraçadalho, mas não consegue desenvolver uma avaliação profunda da crise étnico-política da Criméia.

Esse raciocínio tem como uma solução possível é pensar em redes que tenham vocação para se conectar com outras redes. Essa possibilidade de hiperconexão é fortemente suportada pela teoria dos grafos, que em si, rege os fundamentos das redes em si  e explica muitas das características das mesmas, incluindo suas topologias. Redes que se conectem entre si ampliam seus potenciais – ao contrário do que ocorre hoje, onde as principais redes sociais têm restrições ao acesso dado a outras redes.

Esse tipo de restrição é óbvio. Financeiramente, as redes não são serviços oferecidos de graça (se você não está pagando nada por um serviço, é provável que o produto seja você) e o sigilo em relação aos dados torna os mesmos mais valiosos para anunciantes. Só que o avanço da tecnologia tende a diminuir a capacidade dos provedores de serviço de manter seus usuários dentro de um determinado protocolo sem que os mesmo assim desejem. A quantidade de layers no mundo social tende só a aumentar e será cada vez mais difícil dar um murro na mesa e decidir quem vê o que e por que preço. Se você tem alguma dúvida, pergunte às operadoras de TV a cabo. A pressão por conectividade só deve aumentar. Quem entrar no caminho será o ponto de impacto dessa pressão crescente.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.