2017, o último ano do século XX

Imprensa e o poder político sempre andam juntos. Mesmo em países nos quais os meios de comunicação têm mais independência, o relacionamento precisa ser estreito. Afinal, rádios e TVs dependem de concessão governamental. Por isso, 2017 é o último ano do século XX no que diz respeito à mídia. As projeções de analistas apontam o ano seguinte como o primeiro no qual a maior parte da receita vai para meios que não dependem do governo. Essa configuração sugere uma emancipação desses meios, mas ela não  vai ocorrer necessariamente.

Primeiro, um contexto: impresso e rádio já são carta fora do baralho na esfera que conta da comunicação. O rádio já sofre com o reequilíbrio de forças, recebendo menos investimento do que deveria em relação ao tempo gasto por usuários. O impresso (como mostra o gráfico abaixo), deve continuar a ver suas receitas sumirem até que reflitam o equivalente ao tempo dedicado ao meio pela audiência. Por conta disso é que a briga que conta mesmo é a disputa entre TV e digital.

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Tempo gasto por mídia x percentual da receita: grandes desequilíbrios na transição

O que pode significar ter os líderes de mercado teoricamente independentes de regulação governamental? Em democracias consolidadas, isso tenderia a diminuir a relevância dos legisladores para os meios de comunicação, e assim, levar à uma mídia mais independente. Contudo, mesmo com quatro anos de antecedência, a maioria dos congressos e parlamentos do mundo vive uma batalha para se definir os alicerces das plataformas digitais em leis como o nosso Marco Civil da Internet ou as regulamentações que protejam a neutralidade da web. Todos os esforços contrários à proteção do meio digital de pressões econômicas e/ou políticas, são espasmos de um velho regime que se recusa a dar lugar a uma nova ordem.

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Audiências de TV: em queda desde os anos 80 nos EUA

Uma outra digressão: a análise acima não vale para o Brasil. O Brasil é uma democracia frágil, com um Congresso cujo nível de corrupção e inversamente proporcional à fiscalização que ele recebe onde a mídia é completamente controlada por uma única empresa, a Rede Globo. Nenhuma ameaça ao percentual de receitas migrando da TV ao digital se confirmará enquanto a Globo detiver o poder que tem hoje. Seja controlando a oferta de conteúdo por um orçamento dezenas de vezes maior do que o da concorrência, seja pela influência que tem em cima dos poderes Legislativo e Executivo, a emissora deve continuar comandando a maioria do percentual publicitário por tanto tempo quanto consiga manter o atual quadro de forças.

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Impresso, rádio e ‘outdoor’: declínio que impulsiona o digital e dispositivos móveis.

Em mercados nos quais o poder do governo não seja desmedido e onde o mercado de mídia tenha um mínimo de livre concorrência, a saída da TV da posição de mídia que mais fatura tem muitos significados. Infelizmente nenhum deles é o de uma fragmentação maior dessa divisão de recursos, uma vez que as grandes corporações digitais como Google e Facebook devam ser os grandes beneficiados dessa dança das cadeiras. Mas de um modo ou outro, a vocação ‘guerrilheira’ do digital deve continuar permitindo que ‘news start-ups’ como o Huffington Post surjam do nada para ocupar lugares de relevância numa freqüência muito maior do que acontecia com a TV, uma mídia que exige um investimento de capital inicial que inviabiliza completamente a entrada de concorrentes menores.

Qual o risco, então? O risco é o do establishment configurado pelo Estado com as mídias tradicionais comecem a criar empecilhos para que a transição para essa nova ordem se consolide. Exemplos disso já passaram pela pauta. as tentativas de se aprovar a SOPA e a PIPA, legislações destinadas a “proteger direito autoral” foram simples assaltos à neutralidade da web para que a indústria do entretenimento pudesse continuar a definir os preços independentemente da opinião do consumidor. A decisão de um juiz federal nos EUA que obriga a Netflix a pagar pelo “excesso” de banda consumido pelos seus streamings é outra tentativa de se fazer com que existam redes “diferentes” selecionadas pelo poder de compra de provedores de mídia e consumidores. Numa leitura mais ideológica, é controle social puro e simples, que, perigosamente, não ganha a atenção da sociedade como deveria, nem mesmo em países mais educados e com melhores indicadores sociais.

Apesar dos pesares, caso as previsões se confirmem, em 2018 o meio digital (onde também entram dispositivos móveis) terá pouco mais de 36% da receita global de publicidade e esse share deve continuar a crescer, porque canais de TV aberta devem reduzir-se a níveis bem menores, seguindo as alterações geracionais. Marshall McLuhan certamente ficaria satisfeito em ver o quanto suas observações, feitas na metade do século XX, foram precisas. Nos próximos anos, contudo, veremos se essa transição de mídia se espelha em alterações sociais. Isso só acontecerá se as sociedades se mobilizarem. A tecnologia só muda o mundo quando as pessoas manuseando-a se mobilizam.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.