Suspeita de Princeton sobre Facebook pode não ser tão absurda

Dois pesquisadores da Universidade de Princeton levantaram uma certa polêmica nesta semana ao publicar um estudo (pdf) que aposta numa queda de 80% na base de usuários do Facebook num prazo curto (entre um e três anos). A rede social de Mark Zuckerberg tirou um sarro da pesquisa (de modo até bem-humorado, dizendo que Princeton não terá mais nenhum aluno até 2021), mas a leitura do estudo suscita uma ideia interessante e mesmo que a previsão seja catastrofista demais (para o Facebook, claro), carrega indicadores que apontam um caminho no qual o futuro seja mais nicho e hiperconexão do que massa e plataformas fechadas.

O que diz o estudo (interessante de ler, mesmo para leigos): basicamente os pesquisadores comparam a evolução da base de usuários a modelos matemáticos similares aos que explicam a disseminação de doenças altamente contagiosas, como a febre bubônica, por exemplo. Segundo os pesquisadores, os modelos não só serviram para explicar a disseminação do Facebook, mas também se encaixam quando aplicados à curva descendente do MySpace, rede social que implodiu após sua compra pela News Corporation.

Mas o que uma rede social tem a ver com uma doença infecciosa? Bem, piadas possíveis à parte, segundo o estudo, os mesmos modelos matemáticos que funcionam quando aplicados às curvas de evolução de epidemias, servem para rastrear o modo como uma ideia se espalha por exemplo. Ainda segundo a pesquisa, no caso das ideias, uma determinada população deixa de aderir a um pensamento específico depois de um certo estágio da “infecção”, cuja equivalência no caso da doença seria a “imunização” que faz com que, no caso da epidemia,  a população não seja extinta.

O bom humor da nota do Facebook argumenta que nem toda aplicação de modelos matemáticos serve para qualquer coisa – o que é verdade. Mas é bastante curioso que algumas projeções numéricas se repitam em situações tão diferentes quanto a evolução da febre bubônica e o crescimento de uma rede social. E como a matemática é a linguagem mais universal de todas, independente mente da sua precisão, talvez o estudo seja útil para projeções mais abrangentes.

Redes sociais são, por excelência, comunidades virtuais que unem pessoas com interesses semelhantes. Elas basicamente florescem por conta de uma razão – a de promover troca de informação entre indivíduos e/ou agremiações, empresas, entidades, etc. Digamos que o sistema circulatório de uma rede social é a quantidade de informação que ela movimenta. Usando a mesma alegoria, obstruções nessa circulação tendem a ser lesivos ao funcionamento dela como um todo.

Acontece que, na prática, as redes sociais não são geridas como organismos vivos, como sugere a alegoria. Elas são negócios, cujo único objetivo (na maioria esmagadora dos casos) é gerar dinheiro. Independentemente de quanto essas intervenções em busca de mais receita possam ser nocivas ao funcionamento saudável da rede a longo prazo, nada importa além de apresentar lucros para os acionistas (desde a fábula de Esopo da galinha dos Ovos de Ouro até o filme A Corporação, nem a lógica de que o perigo de morte amaina a ganância serve para mudar a vocação humana em priorizar o resultado a curto prazo).

A natureza da aglutinação de pessoas em torno de interesses não reconhece, contudo, a necessidade de acionistas em ganhar dinheiro. Pessoas aderem a redes sociais porque obtém um ganho delas – informação, satisfação, novos contatos, vantagens profissionais. Uma vez que esses interesses são sobrepostos por outros, a rede social afrouxa seu elo.

Não só o Facebook, mas todas as redes sociais, seguem caminhos contra a corrente, no que diz respeito tanto de observar o interesse comum quanto da troca de informação. Esses serviços tratam as informações coletadas pelos usuários a sete chaves, às vezes até proibindo ferramentas de medição como o ComScore de avaliar certo tipo de dados. Trata-se de algo óbvio no modelo de negócio atual: o ouro da galinha aqui não são os usuários, mas os dados que eles fornecem em troca do serviço. E rigorosamente, dane-se qualquer outro tipo de consideração que vá contra esse raciocínio.

O meio digital não veio para eliminar os meios de comunicação em massa, mas indiscutivelmente vai obrigá-los a jogar outro jogo. Usando outra alegoria, é como a TV a cabo, que nos enfia canais inúteis goela abaixo. Nesse novo cenário, as TVs a cabo vão desaparecer, porque não  vamos mais aceitar o que se quer oferecer. A lógica será invertida, por bem ou por mal, com mais ou menos sacrifício e a oferta terá de passar a ser daquilo que queremos. E quanto mais essas plataformas aceitarem se conectar às outras, mais vantagens terão, especialmente porque esse tipo de abertura a informações externas as obrigará a estar em constante evolução – coincidência ou não, outra similaridade com as observações do mundo natural.

A tentação por abrir a galinha e pegar todo o ouro de uma vez, entretanto, é grande demais desde que Esopo era bebê. A previsão de Princeton para Facebook soa um pouco radical, mas provavelmente carrega material para reflexão – até porque não é segredo que o Facebook está perdendo empuxo com os usuários mais jovens, que preferem platafformas como o Snapchat . Redes sociais e todas as outras operações que visem lucro não vão deixar de aplicar seus modelos de negócios e estratégias de marketing por conta de um risco teórico. A dose de precisão do estudo de Princeton será esclarecida pelo tempo – com a colaboração do Facebook que pode – ou não – levar o alerta em conta.