Escala, a palavra de ordem do novo jornalismo

Os elementos usados na busca da melhoria da qualidade do jornalismo são basicamente os mesmos desde que ele apareceu na história pós-gutemberguiana. Modos de apuração, definição de fontes, os cinco W’s, isenção, ética, etc. Como já observei noutro post, nenhum deles perdeu a validade (embora alguns tenham mudado radicalmente). Mas sendo, em última instância o jornalismo um processo de produção de conteúdo, um novo critério passou a  ser o mais importante: a capacidade de produção em grandes quantidades.

O assunto raramente é discutido em redações e jamais em faculdades de jornalismo (provavelmente as entidades mais em descompasso com o seu tempo sobre a face da Terra). Basicamente, se resume a uma pergunta:

Isso escala?

O jargão tecnomediático se refere à capacidade de um determinado processo (por exemplo, a produção de  notícias sobre um determinado assunto para alimentar o feed de um meio de comunicação) consegue manter os mesmos padrões e características uma vez que submetido a uma demanda exponencialmente maior. Noutro exemplo: você abriu uma empresa de produção de conteúdo customizado. Você propôs ao seu cliente um pacote com a entrega de cem conteúdos por semana a um determinado valor. Ele responde dizendo que tem interesse mas quer saber se você consegue multiplicar a entrega por 10. Você faz as contas e chega à conclusão que não. No caso, seu processo/produto não escala.

O problema é central para os novos operadores de mídia, os que não dependem de legados da mídia tradicional, como Google, Yahoo, Facebook e mesmo alguns cuja migração digital é relevante, como BBC e NYT. As demandas maiores exigem mais conteúdo e os processos de personalização dessa entrega de conteúdo tornam a exigência ainda maior, chegando a números impensáveis para a mídia tradicional. Há pouco mais de uma década, por exemplo, não havia uma empresa capaz de produzir três mil itens de conteúdo por segundo, mas hoje o Twitter faz isso – na média (chega a picos de 8 a 10 mil em eventos mais populares).

A capacidade de escala não gera somente problemas “tradicionais” como o tamanho da equipe, incidência de impostos ou intervalo de tempo entre a produção de um ou outro conteúdo. Complexos problemas de rede e organização de banco de dados aparecem quando é preciso atender demandas que são milhares de vezes maiores. Gigantes como Twitter, Google e Amazon dedicam quantias imensas de recursos para criar soluções.

Mas o que o jornalismo tem a ver com isso? Tudo. Basicamente, o jornalismo se transformou numa commodity no final da época pré-digital (onde as agências de notícias simplesmente criaram a versão industrial de notícias que sucateou da cobertura internacional de 80% dos jornais do mundo). O custo passou a determinar se um jornal produzia um tipo de conteúdo ou se comprava de uma agência. Agora, com a quase-infinita capacidade de oferta para um mesmo cliente (o leitor), o valor do conteúdo da agência diminuiu fortemente (conteúdos repetidos tem baixo valor de SEO). Processos de produção de conteúdo agora precisam oferecer escala para entrarem no páreo.

Durante todo o século XX veio da capacidade que as empresas de mídia tinham de dominar as alternativas de entrega. No Brasil, somente duas empresas eram responsáveis por praticamente todo o mercado de entrega de jornais e revistas. A escala como elemento determinante na capacidade de se oferecer conteúdo explica por que a mídia tradicional foram completamente tiradas da jogada.

Sem dúvida alguma, as empresas de mídia tradicional que estão pensando em se reorganizar tem de ter a questão de escala em vista. Líderes da indústria como o New York Times apontam o caminho de parcerias de conteúdo personalizado, branded e vídeo para gerar receitas que não existem hoje e reequilibrar o adolescente mercado digital. Todas essas alternativas passam pela questão de conseguir se aumentar a quantidade de produção. Vídeo, por exemplo, é a pedra de Roseta do conteúdo atualmente. Anunciantes e agências estão entusiasmadíssimos com os níveis de engajamento e geração de leads de venda conseguidos no formato, mas a maioria das empresas não consegue alavancar a produção na escala necessária.

Mas além das empresas, os jornalistas também têm de estar a par da mudança de paradigma, de quais são os fatores determinantes no sucesso ou fracasso de um tipo de conteúdo ou empreitada. Pequenos em microfornecedores de informação ganharão espaço com a tecnologia e os jornalistas terão de provar que valem mais o investimento do que um não-jornalista.