E agora, o futuro já não é mais – só – mobile

Não é notícia nova – o PC está com os dias contados há anos – senão décadas – mas finalmente em 2013, a cova aberta pode ser vista até por quem não quer. Na história, nunca houve um declínio de 7% de vendas num único ano como ocorreu nos doze meses anteriores. Mas antes mesmo de pensar num mundo onde todo mundo interage digitalmente a partir do telefone, esqueça a ideia. No máximo, o vício de andarmos deslizando o dedo no celular será temporário. Nas war rooms dos exércitos de tecnologia, os smartphones são somente parte do arsenal. O futuro não é só mobile. Ele é wearable.

O leitor pode objetar dizendo que equipamentos wearable (aqui em inglês por falta de tradução adequada – ninguém merece ter de falar “vestíveis“) também são móveis. Verdade. Mas embora para o usuário não haja diferença, para a indústria o detalhe é fundamental. No primeiro caso, praticamente qualquer indústria digital – mais ou menos ligadas à tecnologia – estão aptas a concorrer; no segundo caso, somente os gigantes corporativos têm vez.

Numa matéria no meio de janeiro, a revista Economist abordou a mudança de estratégia que o Google vem tomando recentemente. O que , em 2011, parecia uma simples compra de portfólio de patentes evoluiu para uma tendência de investimento. Se antes as grandes compras estavam intimamente ligadas à dominação do mercado de busca – core business da companhia –  a empresa americana agora desembolsa centenas de milhões de dólares a cada vez para sair do mundo virtual e pegar o cliente pela mão.

Por exemplo: em 2007, a empresa de Page, Brin e Schmidt deixou US$ 3 bilhões na mesa para adquirir a Double Click, especializada em inteligência de entrega de publicidade na web. Também temos o caso da já citada Motorola, paga mais de quatro vezes o valor da Double Click. Mas pensava-se que ainda se tratava de foco em produtos digitais – ninguém achava que o Google fosse se preocupar em fazer celulares.

E não se preocupou mesmo. A empresa seguiu – com especial determinação em 2013 – comprando criadores de equipamentos “físicos”, do mundo real. Em 2013, a NestLabs (empresa que desenvolve termostatos e detetores de fumaça) mudou de donos, indo para o Google. A mesma coisa ocorreu com a Boston Dynamics, uma desenvolvedora de robôs em Massachussets. E com talento próprio, já desenvolveu o Google Glass, um óculos especial que permite uso de serviços enquanto você faz outras coisas (como ver o mapa do GPS enquanto dirige, projetados virtualmente nas suas lentes).

A mudança de ambição do Google parece clara e reflete outras mudanças de rumo tomadas por concorrentes do mundo da tecnologia nos últimos anos. Por conta de uma conta bancária infinita e de uma dominação devastadora no seu negócio original, a empresa californiana decidiu ir além. O Google opera sua estratégia futura em negócios que são absoluta ficção científica para a maioria dos seres humanos. Um editor da GQ questiona se a companhia não pretende ser a Skynet da vida real (se você não sabe o que é Skynet clique aqui).

Tecnologia é um mercado de uma volatilidade maior que os demais, provavelmente pelos níveis de inovação e disrupção que são inerentes a ele. Uma pessoa com cerca de 40 anos já viu, pelo menos três ou quatro “maior empresas do mundo”, que pareciam estar numa posição inalcançável quando alguns anos trouxeram-nas de volta ao mundo real. É engraçado pensar na Microsoft como uma empresa “decadente” (algo que não é, porque, é ridiculamente lucrativa e líder em vários setores) – mas definitivamente não é mais uma empresa cool, tida como visionária, de onde sairão as novas grandes surpresas.

O Google não está mais com o foco exclusivo em dispositivos móveis (até porque com o Android, já garantiu um espaço tão decisivo, que dificilmente deixará de ser um protagonista). O novo passo do Google é se candidatar a ser o que a General Eletrics foi para o século XX (aliás, a observação é o título da matéria da Economist) – o fornecedor dos apetrechos do dia-a-dia. A “internet das coisas” vai, na próxima década, entrar na vida das pessoas de uma maneira determinante – tão determinante que a busca de hoje por gadgets como iPods e tablets vai parecer pequena. Não à toa, outras empresas, em muito menor escala, estão investindo para criar aparatos “internetados”.

O cenário acaba por fazer parar para pensar o que vai ser de nós quando nossa dependência da tecnologia for muito maior do que hoje. Eessa preocupação não será inédita e provavelmente voltará em outros momentos. A ambição e possibilidades que o time Schimidt-Brin-Page apresenta está muito além da preocupação com o curto e médio prazos. Dispositivos móveis, que frequentemente ganham a atenção nas evoluções do mercado de tecnologia, são uma parte relativamente pequena da nova realidade proposta pela empresa de Mountain View. Assustador ou empolgante, um futuro meio Matrix, meio Exterminador do Futuro, está cada vez mais concreto.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.