YouTube, o marco zero do novo direito autoral digital

Quando o Google começou a negociar para comprar o YouTube no começo de 2006, os media moguls de todo o mundo anunciavam que o gigante de busca estava para cometer seu primeiro grande erro. A avaliação do YouTube estava na casa da centena de milhões de dólares e o valor seria um mico para a empresa de Mountain View por conta do sem-número de processos que se seguiria à aquisição, com os detentores de tudo quanto é produto digital exigindo remuneração por conta do uso de conteúdos com direitos registrados. No final do mesmo ano, o Google pagou cerca de 15 vezes mais do que os valores inicialmente atribuídos ao YouTube. Passados sete anos, bateu a casa do faturamento cinco vezes maior do que o valor pago naquele ano. E assim,  todo o rationale por trás da lógica de direitos autorais em mídias tradicionais começou a ser desfeito, num processo que ainda não acabou.

Pare um minuto para analisar: o Google, que já era um titã da tecnologia e do mundo financeiro fez uma aposta que não era considerada arriscada – mas sim perdida pelo resto da indústria e hoje fatura, descontados despesas e impostos, o mesmo valor pago em 2006 a cada ano. E este valor deve continuar crescendo, ainda que num ritmo menor do que os 58% de crescimento YOY dos últimos cinco anos. Como é possível que o resto da indústria pudesse ter errado tanto?

166452Parte da resposta está no arraigamento do raciocínio baseado na indústria de mídia existente até então. Baseada num sistema que tinha controle fechado de entrega (era possível monitorar vendas e canais de venda), receita crescente com custo marginal nulo e valor das cópias atribuídas ao objeto físico), somente o Google conseguiu intuir que o sistema determinante estava podre por dentro e que um vendaval levaria tudo ao chão. Por conta disso, o Google roubou a maior parte da receita de publicidade da mídia tradicional, transformando em pó grupos seculares de mídia.

166834Google e YouTube foram os primeiros grandes responsáveis pela invalidação do modo como se calculavam os direitos autorais de obras intelectuais. Música e filmes, dois formatos através dos quais as indústrias cinematográfica e musical foram capazes de extorquir oceanos de dinheiro no século XX, tornaram-se propriedades venenosas nos inventários de qualquer empresa por conta da incapacidade técnica que se tem de controlar sua reprodução.

O mesmo raciocínio valeu por muitos anos para a indústria de software, mas esta teve um insight valioso ao perceber que o uso do código era impossível de ser “vigiado” pela lei de patentes normal, mas o fornecimento de serviços agregados juntamente com esse software permitia um controle até simples, por meio de uso de ferramentas online (como a Apple faz com o iCloud ou como a Valve faz com o Steam, ou como a Sony faz com a comunidade online do Playstation). Os tíquetes médios de cada compra diminuíram, mas as bases de usuários cresceram astronomicamente, muito mais do que o necessário para manter a indústria sem risco de quebra.

Música e jornalismo, contudo, ainda estão abraçados aos conceitos de século passado e não conseguem encontrar soluções. Na verdade, esses dois não correm risco de desaparecimento. O problema é que jornais e gravadoras querem é reaver os lucros estapafúrdios que tinham quando eram os gatekeepers de todo o sistema, extraindo o máximo de valor de cada venda. Quanto a isso, eles podem sentar e chorar porque os excessos de outrora jamais voltarão a ser subsidiados com o dinheiro de clientes impotentes.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.