Ruptura e consolidação do digital não virá sem fórceps

"Real Power can't be given. It must be taken".

O mundo é saudosista. As músicas das sua adolescência eram melhores que as de hoje; na sua época, as baladas eram mais legais e o futebol de 30 anos atrás era mais divertido do que o de hoje. Somos robôs de carbono programados para a saudade. O momento atual do jornalismo suscita a mesma nostalgia. Só que na realidade, todas as mazelas do jornalismo de hoje são erros de interpretação e não incapacidades. Ficar parado apreciando fotografias envelhecidas só dificultarão a decodificação do novo momento do jornalismo.

Uma máxima do jornalismo do século XX insistiu em tentar delimitar os “fatos” como sendo um ente filosófico que corresponde à verdade absoluta. A busca da imparcialidade jornalística é uma jornada pós-positivista que depende, mais do que tudo, de um autoengano calcado na aceitação da possibilidade do isolamento do “fato” como um corpo imutável e único. Da mesma maneira que a Apologia à Sócrates, um dos textos fundamentais da filosofia Ocidental, questionamentos jornalísticos estão abraçados aos pontos de vista do jornalista de modo insolúvel. Isso não significa que a apuração possa ser invalidada – significa que a apuração precisa ser feita com ciência dos próprios limites. E num mundo em que a distância desapareceu, levando consigo os ciclos periódicos da notícia, nenhum jornalista ou publicação vai voltar a ter a serenidade de Platão quando este ouvia as reflexões socráticas.

A obsessão com a lapidação do fato é o primeiro fator que o novo ambiente precisa reconstruir. A inviabilidade da onipresença fratura qualquer tentativa de inflexibilidade. A apuração, na realidade, tornou-se um processo que é preciso começar antes do acontecimento, por mais paradoxal que possa soar. O trabalho do jornalista, do jornalismo e das publicações começam no momento em que todos se preparam para o acontecimento estabelecendo fontes de informação críveis e dinâmicas o bastante para que possam ser ativadas a qualquer momento e produzindo um resultado cuja nível de confiabilidade é sabido de antemão.

O cuidado do jornalista hoje precisa ser o de estabelecer as fontes críveis e criar processos para depreender narrativas que surjam deles, sempre tendo em mente que cada um desses processos vem com a marca dessas fontes. A curadoria de informação não é uma novidade (de certa maneira, Platão já fazia isso e não há muitos questionadores da validade dos diálogos e das cartas do filósofo grego que, certamente imbuiu às palavras de Sócrates as asserções que ele Platão via como sensatas.

O curador, uma vez identificado (outra razão pela qual o jornalismo apócrifo perde força dentro desse quadro, salvo raríssimas exceções), recebe de sua audiência um voto de confiança relacionado à apuração e lisura das fontes. Streamings de informação de redes sociais são fontes válidas, desde que sejam submetidas a processos que reduzam ao mínimo a possibilidade de “contaminação” com pontos de vista envolvidos. O momento em que irrompe uma notícia bombástica é seguido por um turbilhão tamanho de informação desordenada. Curiosamente, essa massa caótica é que faz com que seja necessário considerar todas as fontes possíveis – inclusive as sabidamente não confiáveis –  porque em meio a esse caos podem estar partes fundamentais da história.

É exatamente por conta desse confuso quebra-cabeça, que mistura análise, intuição, cultura geral, conhecimento do assunto e um vasto repertório de fontes para cada ocasião é que o papel do jornalista está muito longe de desnecessário. O jornalista desnecessário é o acostumado ao cenário anterior. Sai de cena o jornalista com prazos, tempo, fontes oficiais e oficiosas e que jogava sempre seguro colocando a informação na boca de alguém; entra em cena o jornalista que entende que não existe matéria encerrada, que não trabalha com declarações das fontes, mas sim com o resultado da combinação delas, que não crava verdades absolutas e que – mais importante que tudo – não tem medo de colocar seu raciocínio em jogo. Sai a matemática pura, entra o xadrez; sai o raciocínio cartesiano, entra o design thinking.

O jornalismo e o jornalista estão muito longe de acabar, mas eles precisam trocar a pele, sofrer uma metamorfose mais radical do qualquer outra anterior. Uma coisa parece ser seguro afirmar: num momento em que qualquer um acha que pode ser jornalista, a realidade é exatamente a oposta. A falsa sensação é causada por um mercado que em sua maioria esmagadora opera com os valores do antigo regime, mas em bases novas. Trata-se de uma combinação extremamente perigosa, como é possível ver em qualquer cobertura digital recente, dos atentados em Boston, ao ativismo utópico esquizofascista da Mídia Ninja, onde momentos épicos tropeçaram em erros crassos. O novo jornalismo digital deve surgir de empreitadas ‘marginais’ como as do Guardian e seu open journalism, das empresas de tecnologia, de start-ups ágeis como velociraptors, muito mais do que dos brontossauros que reinaram no século XX. A transição, tudo indica, será traumática, mas raramente transições dessa dimensão não o são.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.