Falência do ensino tradicional ameaça noção do valor do estudo

O modo pelo qual o mundo gera e acumula conhecimento segue um modelo de pouco menos de um milênio. O molde da pesquisa ainda se baseia num embrião que emergiu da escuridão da Igreja Católica medieval. Empirismo e teoria se condensaram através dos séculos para formar os profissionais que desembocaram o mercado de hoje. Entre as muitas coisas que a revolução digital pôs de cabeça para baixo está esse modelo. A lógica vale para muitas áreas, mas na comunicação é que o ciclone é sentido de forma mais arrasadora. O tempo que uma pesquisa leva para ser feita, redigida e publicada basicamente invalida a mesma em termos práticos. Na prática, trends e regras de conduta envelhecem em semanas com a adoção de um novo algoritmo, um script mais enxuto, a instalação de um novo módulo ou a nudança para uma nova linguagem ou tudo isso junto. A implacabilidade do digital vai exigir outra pesquisa ou a própria pesquisa vai ser deixada para trás. A universidade como centro de pesquisa não cumpre sua função na comunicação que conta há muito tempo. Mercado e academia se separam como óleo e água e muitos dos erros e acertos (para não dizer todos) da evolução digital jamais teriam visto a luz se dependessem da agilidade com que o conhecimento é formulado dentro dos centros de pesquisa. Empresas de tecnologia, engenharia, start-ups e “coletivos” (para usar um termo que foi adotado pela milícia neofascista do Fora do Eixo) colaborativos de pesquisa contribuiram mais – muito mais – para a comunicação do que o ambiente ‘vintage’ das universidades, tão obcecadas pelos pilares da comunicação em massa quanto ávidas por se esconder atrás de um ideário mesozóico sem relação com a realidade contemporânea. Basicamente, como acontece sempre que a tecnologia resolve dar saltos (como com a argumentação darwiniana ou com a manipulação nuclear), a humanidade pula de cabeça na escuridão tendo apenas indícios como guias para seus atos, conduta que não raramente leva a tragédias. Especialmente num mundo como o de hoje, onde a receita mais simples para se ganhar exposição na mídia está na utilização de frases de efeito sensacionalistas (quase sempre carregadas de uma burrice atroz), é cada vez mais comum ouvir opiniões, mais ou menos célebres, de quem ateste a morte definitiva da universidade e do diploma. A universidade enquanto instituição está cada vez menos ligada à vanguarda e abertura às novas ideias e cada vez mais conectada a uma imagem burocrática, a grupos corporativistas cheios de pesquisadores medíocres que traficam influência e favores sem nenhuma consideração com a natureza da proposta inicial do estudo. Se é verdade que (particularmente no Brasil) um diploma tem um valor inerente próximo ou igual a zero, a verborragia demagógica contra o estudo é, obviamente, um aberração irracional. Países que não ensinem, pelo menos, a língua oficial e matemática aos seus alunos estão fadados a acabar num oceano de desigualdade e atraso proporcional à intensidade da sua falta de ação. A educação ainda é a única chance que a humanidade tem de deixar a barbárie e a bestialidade que hoje parecem tão arraigadosquanto pareciam nos piores momentos da idade média. Só que a universidade não está fazendo nada para ajudar a afirmar a relevância da educação nem da pesquisa. A comunicação é muito provavelmente o campo no qual a pesquisa precisaria estar mais sincronizada com o mercado para diminuir os ciclos experimentais e possibilitar a disseminação de ideias eficazes. O que acontece é exatamente o oposto, com vastíssimas quantidades de recursos sendo desperdiçadas com um colchas de retalhos cozidas com frases de teóricos renomados. E assim, todos os anos, o mercado recebe mais uma leva de 40 mil jornalistas recém-formados (somente no Brasil), dos quais somente uma fração passaria numa prova de gramática rigorosa. Os métodos de avaliação de pesquisa são frequentemente viciados e o interesse das linhas de pesquisa raramente atendem os interesses da sociedade e quase sempre, atendem o dos orientadores. Na escuridão das galés universitárias, os poucos estudantes que querem algo além do título são sacrificados até que desistam do atrevimento de querer questionar. Somente algumas entre as companhias mais ricas do mundo  colocam a mão na massa para tirar de um Estado incompetente e irresponsável a obrigação de investir em pesquisa e educação e, quando o fazem, normalmente o fazem tendo o lucro como objetivo primário. A sociedade faria bem a começar a repensar  a função do Estado como detentor dessa obrigação. Visivelmente não estea funcionando.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.