Políticas de preço são a melhor arma contra pirataria

No mês passado, Kevin Spacey deu uma palestra no Edinburgh International Television Festival, sobre o novo momento da TV. Num momento em que o clima ao redor da mídia tradicional, o ator fez uma poderosa argumentação sobre como a mídia digital estava dando à TV o início de uma nova era de ouro. Spacey usou exemplos práticos para tanto – séries como Mad Men, Game of Thrones, Homeland and Breaking Bad – que absorveram o talento de deixou Hollywood, uma indústria cada vez mais viciada, reacionária e burra. Spacey não estava só falando da TV, embora esse fosse o assunto de sua palestra. A argumentação de Spacey é um dos indicadores que ferramentas como o Netflix estão criando ferramentas decisivas contra a transferência de mídia sem controle de direitos autorais – prática chamada de “pirataria” por conta da criação de um discurso falso, burro e unilateral. Netflixes e Spaceys estão mostrando à indústria que uma política de preços inteligente e honesta acaba com o espaço de mercados marginais. não à toa, a empresa de Reed Hastings sediada em Los Gatos (mesma cidade em que a Seleção Brasileira se concentrava na Copa de 1998) é um rolo compressor na mídia.

O argumento de Spacey é simples: pegue um produto de qualidade (como qualquer uma das séries citadas), ofereça por um preço justo através de uma ferramenta simples como o Netflix (ou num canal a cabo como a HBO) e as pessoas vão preferir assistir do que ter trabalho fazendo downloads não-oficiais. O raciocínio do ator, também diretor artístico do teatro Old Vic, em Londres, é de uma simplicidade óbvia, e por isso, genial, como observava Nelson Rodrigues.

Já falei disso aqui, e para quem já leu isso, peço desculpas, mas há anos já existe prova, inclusive científica, de que o mercado “pirata”, é um problema de fracasso de mercado e não fracasso legal. A ‘corporatização’ do mercado de mídia (se é que existe tal palavra) criou mercados com líderes dominantes ou monopolistas que, por sua vez, passaram a ditar as políticas de preço que bem queriam. A tecnologia simplesmente deu vazão a uma pressão acumulada por um consumidor que estava sendo espoliado há anos e que não aceita pagar R$30 para ir ao cinema, mas que paga R$15 mensais para assinar o Netflix.

A empresa californiana é representante de uma mudança de paradigma porque teve um insight de que as políticas de preço realistas pagariam quando o produto escalasse. Se o Netflix tivesse sido uma ideia da Fox, provavelmente hoje seria mais uma bugiganga digital da empresa, preocupada em não canibalizar seu próprio mercado cinematográfico. Reed Hastings, o criador do Netflix, está fazendo justamente o oposto. Teve um crescimento tamanho que agora está saindo da distribuição e pisando forte na produção (com excelentes produtos como House of Cards). A canibalização que a Fox teria temido veio do mesmo jeito.

Ainda bem. Enquanto Hollywood segue numa decadência lamentável, produzindo Homens-Aranha e Hulks que são simples demais para uma criança de seis anos com escolarização equivalente, o melhor do talento do cinema foi para a TV, onde está criando tramas e personagens complexos e gerando, como disse Spacey, uma nova era dourada da TV.

O episódio do Netflix deve servir como uma inspiração para a indústria de mídia no sentido de começar a considerar a concepção de serviços que não sejam heranças dos modelos de mídia tradicional. Adaptações vindas de jornais e TV, pura e simplesmente, têm menos chances de criar mudanças de paradigma como a do Netflix. Mesmo a plataforma de vídeo, que tem quase 30 milhões de assinantes só nos EUA, teve uma longa evolução desde o lançamento, mas só chegou onde chegou por conta de uma condução inteligente de seu desenvolvimento. Outros setores que hoje aparentam estar numa crise sem fim – jornais, empresas de notícias e afins – talvez estejam sentados em cima das próprias soluções e não se dão conta disso.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.