O tsunami Ninja

O que aconteceu quando os criadores da Mídia Ninja Bruno Torturra e Pablo Capilé foram ao Roda Viva, da TV Cultura? Várias coisas. Os jornalistas começaram a discutir a si mesmos e aos métodos ortodoxos de jornalismo. Apareceu também, pela primeira vez em muitíssimo tempo, um conceito de se reportar e produzir informação que rompe com o modelo da mídia tradicional. Além disso, os espectadores e os interessados no assunto começaram a ver que a Mídia Ninja, que se colocou como uma instituição ‘cool’ e integradora, tinha por trás de si uma górgona mantida por dinheiro público e falta de transparência, sobrevivendo com uma colaboração baseada num transe oligárquico quase messiânico de exploração, capitaneado pela figura exótica de seu ‘grande líder’ Capilé. Independente do que a Mídia Ninja vire, seu debut na pauta da mídia de massas não poderia ter sido mais bem-vindo.

Desde seu aparecimento, a mídia digital teve uma série de formatos que foram largamente adotados para publicação de informações: sites, blogs e IDs de redes sociais como Facebook e Twitter foram os mais largamente adotados na web, enquanto os dispositivos móveis adicionaram os aplicativos aos fundamentos das novas mídias. Com um formato baseado em comunicação fragmentada, horizontal e em tempo real, a Mídia Ninja e a PósTV não fizeram nenhum breakthrough tecnológico (transmissões em streaming usando mídias sociais e aplicativos móveis já tiveram inúmeros usos), mas conseguiram a admirável tarefa de conseguir organizar esforços de centenas de pessoas e oferecer à sua audiência fluxos de informação que eles reputam “sem cortes”. Pela primeira vez, o Brasil assistiu um player independente ganhar espaço entre os gigantes mediáticos.

Parte do problema começa aí. Depois da entrevista do Roda Viva (e este post intencionalmente foi adiado para que fosse possível se formar uma quantidade suficiente de referências para a crítica), a Mídia Ninja, que parecia ser uma entidade altamente independente, acêntrica e democrática, nasce da costela de um ‘coletivo’ psicossócioesquerdofrênico chamado Fora do Eixo, onde todas as belas noções de coletivismo se revelaram pura retórica. Com ligações umbilicais com o núcleo duro do petismo mais embolorado e com a ajuda de dutos de verbas públicas sendo golfadas para as suas entranhas, o FdE – oficialmente uma organização dirigida a eventis culturais – frauda artistas e colaboradores distribuindo seus recursos de modo autocrático e com independência nula fora do seu politburo feito em casa, onde o exótico Capilé seria uma espécie de Kim-jong-Il tropical, onde métodos quase fanáticos, supressão de discussão e crítica e alinhamento sistemático com políticos de uma determinada facção seriam os verdadeiros alicerces.

Para quem não acompanhava o movimento de perto, a desilusão com a MN veio tão rápida quanto o entusiasmo que tinha surgido no discurso de Capilé e Torturra na TV Cultura. O complexo sistema democrático desenhado pelos seus idealizadores era, na verdade, uma farsa, onde a entrada de dinheiro público era o verdadeiro sustentáculo do esqueleto que mantém a rede com um alcance tão longo. Todos os entusiastas de mídia digital bateram o queixo novamente no chão ao constatar que a viabilidade de um projeto como o apresentado dependia de um riacho de dinheiro público correndo em seu meio. Certo?

Errado. Apesar do Fora do Eixo ter sido deglutido pelo culto à personalidade de Capilé, a sugestão de um possível caminho para a atuação de miniorganizações mediáticas foi dado. Através do dramático desenvolvimento tecnológico, já está provado que grupos de pessoas, bem organizados, podem deitar grandes companhias no tatame no que se diz respeito à extensão da cobertura – especialmente quando algumas dessas companhias, como a Rede Globo, estão decididamente divorciadas das insatisfações populares, com seus repórteres sendo hostilizados e ouvindo palavras de ordem contrárias à empresa. Apesar das capilezadas, a Mídia Ninja é o embrião de um novo formato. Torturra, que parece ser infinitamente mais maduro e sensato que Capilé, faria bem em repensar a contribuição do parceiro na iniciativa.

Diante de uma categoria que, paradoxalmente, conservadora, a expressão “novo formato” de um modo geral é assustadora para os jornalistas. Parte pela origem estatal da indústria jornalística no país, parte pela insegurança quanto ao próprio futuro profissional, parte pelo sucateamento do ensino e da prática da profissão em si, os jornalistas se demonstraram mais céticos do que entusiasmados com os feitos da Mídia Ninja. Os profissionais com algum tempo de carreira sabem que têm um déficit notável de knowhow tecnológico em relação aos jornalistas que estão entrando agora no mercado e, não raro, apontam a fragilidade (real) dos neojornalistas no que tange aos fundamentos e éticos da profissão. Se a indústria de mídia terá alterações em sua fomação no sentido de uma fragmentação, ela não deve ser tão rápida quanto poderia porque os jornalistas ainda fazem muitas restrições.

De qualquer forma, a discussão seguida à entrevista de Capilé e Torturra no Roda Viva motivou salubérrimas polêmicas a respeito do que é jornalismo e como ele deve ser feito, gerando todo tipo de opiniões, indo desde o radicalismo tradicionalista quie classifica a MN de “lixo” e chama os ninjas de “moleques” até o extremo oposto, para quem as transmissões “cruas” e de horas a fio via streaming é muito mais genuíno do que o jornalismo feito com os olhos no Ibope e na carteira de anunciantes.

Como na maioria das vezes, os dois extremos dão menos caldo que as posições menos radicais, mas invaliodar o que a Mídia Ninja faz por conta de uma crudeza de formato é beirar a ignorância. Sim, a agenda política declarada causa vários erros de avaliação que fazem da MN uma experiência válida com um resultado final contaminado por uma agenda externa. Se, declaradamente, os ninjas são direcionados para mostrar os podres de um espectro político – como parece ser o caso – o teor jornalístico do seu produto se equipara ao de um jornaleco sindical. Mas o ponto é que a empreitada não acaba aí. Os ninjas mostraram que é possível mostrar o que realmente acontece sem depender dos matizes políticos das grandes empresas jornalísticas, para as quais o governo – qualquer governo – é o maior cliente.

Avaliar o que aconteceu nos protestos de junho só é possível para quem vê a história num espaço mais longo. Depois de dezoito anos de governo democrático e dez de gestão do ex-maior partido de oposição, uma frustração global se apossou do país, especialmente com os gastos criminosos e corrupção desenfreada que, capitaneados pelo governo federal, mas tendo ‘parcerias’ em todos os Estados e municípios envolvidos, transformou um futuro seguro novamente numa aposta, com termos como “inflação” e “escândalos” retornando ao vocabulário do dia-a-dia. A ascensão da Mídia Ninja no contexto de mídia é a representação disso no discurso público e, só por isso, já é um marco, independentemente da qualidade do jornalismo que faça. Se conseguir corrigir seus vícios de origem, pode se transformar em algo realmente novo e válido. Do modo como está, sua atividade é só mais um jornalismo pelego, entre tantos.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.