Pressão por tendência de uso de vídeo não ajuda novos projetos

O binômio fundamental de aposta para o futuro no digital jaz em dois eixos extremamente claros: vídeo e mobile. Ainda que as duas vertentes ainda sejam um nó górdio no que diz respeito à monetização, não há nenhum player global que não esteja operando sua própria ‘bolsa de futuros’ sem considerar ambos como os mais importantes. Essa fixação levará boa parte do mercado a distorcer produtos de grande valor para acomodar operações de vídeo e dispositivos móveis e, provavelmente, a muito arrependimento no futuro.

Por incrível que pareça, mesmo com a enxurrada de apps, plataformas, formatos, trends, alternativas e novidades que o meio digital apresente a cada dia, há uma sensível falta de inovação no que diz respeito às linhas focais dos produtos. Dois indícios claros disso são as aquisições seriais por parte dos gigantes de tecnologia. A competitividade do mercado, paradoxalmente, leva a um conservadorismo no que diz respeito à estratégia. Quando o “mercado” acha que uma determinada tendência é a que deve ser seguida, o receio de se perder o bonde leva todos os players para as mesmas apostas e nenhuma iniciativa diferencial consegue encontrar o nível de investimento ou credibilidade satisfatório.

Vídeo e dispositivos móveis dão o tom agora, mas nem todos os negócios daqui para frente terão os dois elementos como carros-chefenecessariamente. Produtos excelentes continuarão a fazer dinheiro em outras paragens. Para a indústria de mídia, o paralelo é com as revistas de notícias “pendendo” para entretenimento mesmo quando os grupos dessas revistas já tem títulos de entretenimento. É raro uma mesma companhia ou uma mesma divisão de uma companhia (como no caso das megacorporações) conseguir suceder em mais de um ‘core business‘. Foco e especialização são os propulsores da inovação e dos produtos realmente relevantes.

Facebook e Twitter jogaram-se definitivamente na luta pelo mercado de vídeo adicionando recursos de vídeo às suas plataformas (o Facebook no Instagram e o Twitter com aquisição do Vine). Analistas de peso, como o excelente Geoff Livingston vêem na entrada do Instagram na seara de vídeos uma ameaça séria ao YouTube. Mas será que a disseminação global da tendência em favor do vídeo é mesmo onipotente?

Assim como o Facebook fez com o Instagram e o Yahoo! fez com o Tumblr, grande empresas “compram” projetos estabelecidos para entrar numa vertente na qual não sejam ainda competidores de peso (no caso, o Facebook para o social imaging e o Yahoo! para as mídias sociais). Entretanto, nem tudo tem um caráter versátil e de adaptação a novas tendências. Ferramentas como o Instagram e o Flickr, por exemplo, são famosas e bem-estabelecidas porque preenchem em cheio uma demanda dos usuários por um determinado hábito, mas é questionável imagina, por exemplo, se um percentual grande de usuários de um app de fotografias passariam a fazer vídeos porque a ferramenta cria um recurso para isso.

É bem verdade que nos casos citados (Instagram Video e Vine), as adições tratam de recursos com a mesma raiz (no vaso, fotos e vídeo). Mas cabe perguntar sobre o que não acontece. Ao empregar recursos para seguir uma tendência, não estão sendo deixados de lado os desenvolvimentos do ‘core’ daquele aplicativo?  Quantos usuários do Flickr, por exemplo, preferem o desenvolvimento de um novo aspecto do aplicativo em detrimento das melhorias para os próprios recursos de fotografia?

Evidentemente, os desenvolvimentos não são excludentes necessariamente, mas quem acompanha o trabalho de times de engenharia sabe que invariavelmente, por mais ricas que possam ser as companhias, ainda há uma quantidade finita de recursos. Compras de aplicativos e suas equipes por partes de companhias maiores são exatamente por conta desses recursos – mais até mesmo do que os próprios aplicativos. Só que dentro de uma grande companhia, o time de neocontratados passa a lidar com uma pressão muito maior e a ter de fazer a ferramenta se encaixar a prioridades que não são definidas por eles mesmos. Daí a razão para que grandes companhias escolham sabiamente deixar os novos times intocados e trabalhando sozinhos, como fez o Yahoo! com o Tumblr.

Por melhor e maior que sejam os crescimentos do Vine e do Instagram Video e da tendência de vídeos curtos (que são o must das duas ferramentas), o YouTube ainda está em melhor posição do que a concorrência por uma série de razões, que vão desde a escala da própria ferramenta até o posicionamento dos conteúdos na busca e sua eventual monetização. Vídeo é sem dúvida um formato que ainda tem muito a crescer, mas os caminhos pelos quais isso acontecerá ainda não estão definidos. O mercado exige apostas de vida ou morte porque em caso de uma aposta mal-feita, ele basicamente migra para outro asset.  As companhias, por outro lado, têm de arcar com as perdas. Justamente por isso é que uma medida de grande inteligência é a de proteger aplicativos/ferramentas com grande taxa de crescimento da obrigatoriedade de apresentar resultados prefixados (leia-se “receita”). Isso pode ser muito bom para acionistas, mas raramente o é para o produto em si e no fim das contas, é ele quem garante a manutenção da receita por um prazo maior.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.