Escândalo do PRISM reitera necessidade de mídia multifragmentada

E ao que tudo indica, o governo “Yes, We can” de Barack Obama revela-se refém de um sistema de poder maior, que ignora partidos, eleições, eleitores e qualquer outro tipo de respaldo. Edward Snowden, um analista de dados do NSA, uma agência de segurança americana, revelou documentos que provam que o governo obtinha dados sigilosos de indivíduos da parte de praticamente todos os gigantes de tecnologia – indo de Apple a Facebook, sem deixar – quase – ninguém de fora. A denúncia marca a confirmação do inconfessável “Big Brother” que o mundo de hoje proporciona e as repercussões disso serão profundas. Mas não, apesar da brilhante cobertura do Guardian, NYT e Washington Post, não significa um comeback do jornalismo ou das empresas tradicionais. O que se prova é exatamente o contrário: que só estaremos mais seguros quando não dependermos só de meia dúzia de empresas.

Primeiro, o que vem primeiro. A denúncia de Snowden tem peso parecido com o Wikileaks de Julian Assange. Vem do coração do serviço secreto americano e prova que agências governamentais americanas agem fora da lei. O programa da NSA, “Informante Infinito“, faz com que a NSA consiga informações privadas sem a necessidade de ordens judiciais, contando com, digamos, a leniência dos gigantes de tecnologia. O evento é de uma seriedade brutal, porque atinge o alicerce da democracia americana, onde o governo pàra de atender as decisões tomadas pelos eleitores.

As respostas das empresas foram vigorosas e até apaixonadas, naturalmente negando a extensão da acusação Em uníssono, os CEOs das companhias envolvidas no caso rebateram fortemente a questão. Independente da veracidade da coisa ou não, é impossível imaginar que não haja reverberação para os negócios dessas empresas. Sendo verdade, fazendo uma alegoria, basicamente a Apple não vende celulares – ela vende rastreadores que você paga para o governo saber onde está. Saber que essas companhias detêm uma quantidade surreal de informação sobre seus usuários é uma coisa; elas facilitarem as coisas para governos poderem descobrir o que querem é outra bem diferente. Dentre os grandes nomes da tecnologia, somente o Twitter aparece como ‘rebelde’ na decisão sobre dados de seus usuários. O microblog sai ileso da torradeira e inegavelmente terá benefícios em termos de imagem que são de um alcance estrondoso.

Com uma schadenfreude meio sádica, jornalistas e empresas de jornalismo estão dando sorrisos irônicos. A sensação é a de que isso provaria que as grandes empresas de tecnologia não seriam confiáveis para ter a responsabilidade de lidar com a obrigação de informar o público, tarefa para a qual a mídia tradicional é talhada, mas isso não é verdade. Naturalmente a denúncia é seríssima e pode vir a ter conseqüências drásticas para as empresas envolvida, mas não prova que “o velho jornalismo está de volta” nem que as grandes empresas noticiosas mereçam algum tipo de apoio por conta de sua lisura. A realidade, me parece, passa longe disso. Órgãos de mídia tradicional têm, em sua maioria, tanto ou mais da proximidade promíscua que Snowden diz acontecer por parte dos tech giants.

Independente da irresponsabilidade ou não das companhias, o problema não está aí. Grandes empresas fazem o que grandes empresas fazem – ganham dinheiro. Em sua missão, ignoram qualquer coisa. Isso não é uma novidade – é o normal. O episódio prova algo sim, mas certamente não que O Vale do Silício é menos confiável que a mídia tradicional. O que é claro e óbvio é que um ecossistema mediático mais saudável é aquele em que se tenham mais e mais players e onde a audiência não dependa de um ou alguns deles. Imagine, por exemplo, um país cuja mídia é dominada por meia dúzia de grupos familiares. Há alguma chance da cobertura nesse país ser transparente?

Vivemos num mundo de big data e isso não vai mudar. Os jornais, impressos e com seus modelos de negócios baseados em anúncios vão desaparecer. O formato de como processamos informação e a sociedade se informa seguirá em mutação. Denúncias como essa, não são resultado de uma longa investigação da mídia, mas uma denúncia de um informante muito corajoso. Há dois anos, quem estava no banco dos réus eram os tablóides ingleses que já, sim, tiveram relevância jornalística no passado. O problema é outro. A questão é decidir como vamos viver com isso. Como obrigaremos os governos – e as empresas de informação – a ter mais transparência? Como vamos delimitar os espaços onde ficam o ‘meu’, o ‘seu’, o ‘nosso’, o ‘deles’, o público e o privado? Como a sociedade vai garantir suas liberdades constitucionais sabendo que empresas seguem diretrizes que nem sempre são similares às da população? E como manter o governo dentro da lei?

Sociedades democráticas devem (ou deveriam) ter poder para legislar sobre isso e é aí que mora a grande desgraça do episódio. Estados de direito, regidos por um regime democrático estão sendo governados por interesses que não tomam conhecimento da fonte de onde emana o real poder – o eleitorado. Núcleos de poder como os das agências de segurança atravessam mandatos e governantes inalterados e intocados e não prestam conta ao Congresso, bancos ficam grandes o suficiente para comprometer a economia de países inteiros, políticos que criam modelos de governo para perpetuar o próprio poder e o fantasiam o populismo de vestes populares. Como diz este artigo de Jonathan Freedland, Obama sai desgraçadamente manchado da história. “George W. Obama”. Triste epitáfio para uma figura que já foi significado de esperança num país que já foi significado de democracia.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.