O atropelamento da mídia no #protestosp

Qualquer meio ou indivíduo fala para um público. Ninguém fala para as paredes. Na última semana, os meios no Brasil ficaram, sim, falando com a parede até que foram atropelados por uma avalanche digital. Não se tratava de jornalismo, mas de uma conversação pública que jamais tinha ocorrido. Depois de dias negando o inegável, uma após outra, as empresas começaram a ver que era melhor abandonar alianças convenientes porque o “outro lado” é basicamente a audiência toda. Datenas, Galvões, Biais, Schmidts, Estadões e variantes, provaram pela primeira vez a sensação de que eles não estão mais no controle. Numa comunidade inserida numa rede como a Internet, dominar um único grafo, por mais poderoso que ele seja, não significa nada.

Mas o que é um grafo? Segundo a Wikipedia, “um grafo é representado como um conjunto de pontos (vértices) ligados por retas (as arestas). Dependendo da aplicação, as arestas podem ser direcionadas, e são representadas por “setas”. A Teoria dos Grafos de Euler avalia quais as conseqüências que o maior ou menor número de relações que um determinado ponto tem em relação à comunicação com o todo. Uma excelente introdução ao assunto é o livro Linked – A Nova Ciência das Redes, de Albert Laszlo-Barabási. Simplificando muito, os grafos são os hubs por onde passa a informação nas redes. Um ponto na rede, por mais poderoso que seja – como a maior emissora de TV da América Latina, por exemplo – tem imenso poder na sociedade, mas não consegue reter mais a informação que conseguia antes da sociedade estar altamente conectada entre si.

Desde sempre, a mídia no brasil foi governista. Ela, aliás, nasceu do governo, com a Gazeta do Rio de Janeiro. Em alguns pequenos hiatos, houve sim empresas que se divorciaram dos interesses do Estado, mas rapidamente fecharam (sem dinheiro), foram fechadas (pela censura) ou entraram num acordo com o Estado. Por exemplo, hoje, antes de dizer que tal meio de comunicação é de “oposição”, verifique quanta publicidade nele é de origem pública. Mas a relação nem sempre é direta. Uma revista brasileira noticiosa respeitada tem, do atual governo, aval junto a anunciantes que sabem que anunciar nela significa agradar o Planalto. E em outros governos, as revistas foram outras. Mas a prática é sempre a mesma. Um eterno compadrio machadiano.

O entranhamento das redes na sociedade alterou o fluxo da informação. Grandes hubs como a Rede Globo, já puderam privar o país de informação desagradável a parceiros e sócios, mas hoje, não pode mais. Eventualmente, em casos de repercussão pequena, até conseguem, mas no levante de um protesto das dimensões do que acontecerão hoje em São Paulo, essas grandes companhias de mídia ficam vendidas.

O que é realmente curioso é notar como, a partir do primeiro protesto na semana passada até a repercussão da violência na manifestação de quinta-feira, a grande maioria dos meios de comunicação se esqueceu de que está em 2013 e não em 1981. Correligionária de primeira hora da Copa do Mundo no Brasil, a Rede Globo vem fazendo uma campanha de relações-públicas para o torneio desde sempre, deixando de lado qualquer ataque ao acinte que é a realização do torneio com dinheiro público. No sábado, tentou esconder que a presidente Dilma e o capo da Fifa, Sepp Blatter, foram vaiados como dois argentinos num estádio de brasileiros.

A Globo não está sozinha. Basta ver os “editoriais” de Veja e também do Estadão na semana passada. A Câmara de Vereadores, monumento à vergonha paulistana, também chamou os manifestantes de “baderneiros“. A Folha? Também estava lá, em plena sintonia com o viés anos 50 do conservadorismo udenista. O que há de surpreendente? Nada, sob o ponto de vista histórico do alinhamento automático às autoridades e não ao público.

A surpresa vem do fato de empresas de informação não terem se dado conta do desenho dessa nova sociedade em rede. Tamanha sinceridade no estímulo à repressão das manifestações só aconteceu, num lapso freudiano coletivo, porque a mídia no Brasil ainda vive num estágio pré-digital. Crê-se capaz de conter as informações e de externar os fluxos que têm a ver com suas opiniões, sem ser cobrada por isso.

Boa parte da falta de compreensão do meio digital como um todo ficou nítido na cobertura do evento e da adoção automática de velhas posturas. Para azar desses meios, a sociedade conseguiu novas formas de fazer a informação circular e certamente o confronto da realidade com o panorama desenhado pela mídia tradicional reforçou a sensação de que as informações da grande mídia não são confiáveis. Um novo ambiente de informação e notícias está nascendo e essa completa falta de sintonia com os anseios da sociedade no evento da “Marcha dos R$0,20” deixou isso mais claro que nunca.

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.