Mídia brasileira vive divórcio completo da realidade

Ontem, por volta das 21h, quem estivesse sintonizado no Sportv em algum lugar distante, sem contato com a Internet ou adjacências da Grande São Paulo, veria um cenário idilíaco: Galvão Bueno, a voz oficial do Brasil, recebendo convidados em seu programa “Bem Amigos”, num cenário montado nas piscinas de um luxuoso hotel em Fortaleza. Enquanto isso, São Paulo estava literalmente tomada por uma multidão protestando. O contraste é icônico. A mídia fala de uma sociedade que não existe para uma audiência entorpecida por anos de cabresto.

Na Avenida Faria Lima, em São Paulo, durante a passeata, a primeira observação era que a polícia estava à margem, mantendo um comportamento exemplar; a segunda observação é que a multidão não aceitava bandeiras de partidos, chegando a usar a força para baixá-las. Por fim, não havia jornalistas brasileiros visivelmente identificados, como de costume. A Rede Globo chegou ao surreal ponto de ter de se “esconder” da multidão tirando as identificações de seus microfones e repórteres. Enquanto isso, palavras de guerra eram contra a própria emissora, o prefeito, o governador e a presidente. Quem acompanhava de casa via na cobertura ao vivo apenas cenas de helicópteros (Record, Band e Globo News). Repórteres só chegavam ao cenário quando protegidos pela polícia ou sem identificação, no caso da Globo.

O cenário idilíaco da "pax officialis" da Rede Globo.
O cenário idilíaco da “pax officialis” da Rede Globo.

A aversão à Globo relembra tantos outros momentos nos quais a emissora falseava informações para beneficiar apadrinhados políticos – como nas Diretas Já, Proconsult e o apoio da cobertura à Copa do Mundo. Há uma completa dissociação entre o uso da concessão dado à emissora pelo povo, através do governo e o sentimento de raiva e frustração que o povo nutre pela emissora. A condução jornalística da emissora é muito mais próximo de uma TV estatal num Estado semidemocrático do que de uma empresa noticiosa numa democracia.

O divórcio entre empresas jornalísticas não se resume à Globo. A Band, do “jornalista” Luiz Carlos Datena e a Record, patrocinada com os subsídios fiscais dados à Igreja Universal do Reino de Deus também escolhiam a realidade conveniente para seus subprodutos pseudojornalísticos alarmistas. Datena e Record insistiam em dar um tom de “caos” para o protesto e foram vigorosamente calados, como mostra o vídeo abaixo. A Record, ainda mais agressiva, usava imagens dos confrontos de quinta-feira para manter o clima de “Alerta” que prega a sua cobertura policial barata.

Os jornais tiveram uma participação melhor (particularmente na Folha de São Paulo), mas somente depois de uma semana de protestos é que começaram a descobrir que não dominam mais o discurso. Mesmo empresas sabidamente mais conservadoras, como o grupo Estado e a revista Veja, mudaram o foco das suas coberturas para não perder o bonde da história.

A Globo é, sem dúvida, a que tem a posição mais agressiva. Na programação, a menção de que parte da manifestação foi até a Rede Globo foi quase escondida. Até um “comunicado” foi lido por Patricia Poeta no JN, dizendo que a Globo “só cumpre seu dever”. A Globo também é a que mais tem a perder. A Copa das Confederações serviu como catalisador para os protestos, diante dos gastos nababescos e da corrupção acerca da infraestrutura para a Copa do Mundo. Todos, eventos que são produtos comprados pela emissora e já vendidos por cotas milionárias a anunciantes.

Como eu já observei ontem, parte da miopia da imprensa está intimamente ligada à total desconexão e despreparo das empresas para entender que a chegada das ferramentas de novas mídias subvertem os fluxos informativos e a ordem do discurso – fatores fundamentais na compreensão do que está acontecendo nas capitais brasileiras. De certo modo e de uma forma alegórica, é possível dizer que o divórcio entre mídia e sociedade vai desde os eventos – como os desta segunda-feira histórica – até os hábitos – que fazem com que a adoção das ferramentas digitais dispare sem que as empresas consigam entender as demandas e oferecer produtos que as preencham.

O momento é de expectativa e imenso potencial para a ordem e para o caos. A ordem de um governo e instituições criadas para o século XVIII está sendo colocado em desuso à força por conta da adoção de novas práticas por uma sociedade que não se sente beneficiada pelos recursos que ela proporciona ao governo. Mais do que somente entender e fomentar as solicitações dos protestos, cabe aos executivos públicos e privados facilitar a transição ou então assistir à mesma ocorrer a força. Certamente o primeiro caminho é melhor – para ambas as partes.

Cassiano Gobbet

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