Jornalismo precisa que academia se aproxime do mercado

Em nenhum momento da história da humanidade a comunicação teve um ritmo de mudança parecido com o atual. A eliminação da distância criou possibilidades para, pela primeira vez na história da humanidade, se pensar em sistemas de comunicação realmente universais. Contudo, tais mecanismos se desenvolvem, curiosamente, distantes dos centros de excelência de pesquisa das universidades – o que é uma verdadeira loucura. Nietzsche já alertava que a loucura no indivíduo é a exceção, mas nos grupos, é a regra. A academia se coloca à distância da procura para soluções no jornalismo num momento em que o jornalismo precisa desesperadamente da academia.

Não há possibilidade de não se admitir que o jornalismo enfrenta hoje sua crise mais séria desde a criação da imprensa. Todos os desenhos e modelos tradicionais parecem fadados ao desaparecimento. Por essa razão, a Academia deveria estar no centro do processo de desenvolvimento de soluções para a função jornalística. Mas não está. Raríssimos centros de estudo, como na Columbia University, ou no Instituto Poynter ou no NiemanLab estão debruçados sobre a mesa suando para apontar caminhos.

De uma maneira geral, a produção acadêmica ligada à atividade jornalística tem um desagradável cheiro de mofo. Estudos que sentam em cima de teóricos da comunicação de quatro, cinco décadas atrás têm muito mais espaço do que avaliações de quais os gargalos nos meios de produção, como as ferramentas digitais podem trazer fôlego para o novo jornalismo ou qual o impacto das mídias sociais nas relações de poder entre governos e corporações. No jornalismo, a academia é um fim em si mesmo e o mercado é visto quase como um palavrão.

O modo como as coisas se colocam fazem com que todo esforço de compreensão, delimitação e análise dos problemas seja jogado para indivíduos e start-ups, que eventualmente alcançam um impacto fenomenal na prática do jornalismo, mas na verdade não tinham exatamente isso como objetivo. Pensemos no Twitter como exemplo; é pouco provável que Biz Stone e seus colegas estivessem imaginando que a notícia captura do fugitivo mais procurado no mundo do pós-guerra, Osama Bin Laden, seria dada como breaking news pelo microblog que eles viriam a inventar, mas foi exatamente esse o caso.

A dissociação entre a academia e a prática no jornalismo não poderia existir por uma razão simples: não há jornalismo fora do mercado. Medicina, biologia, química e odontologia podem se dar ao luxo de reservar suas descobertas – em muitos casos, justamente – para universos em que o lucro não é uma finalidade. No caso do jornalismo, não. Ainda que se possa pensar em espaços jornalísticos que fujam da esfera econômica e que o jornalismo tem uma função na sociedade onde o lucro não pode ser a prioridade, é no mercado que o jornalismo passa a existir, até como protagonista no desenvolvimento da sociedade.

Há uma desconfortável conclusão em admitir que inovação não é uma característica que combina com o fomento público. Entidades estatais estão entre as menos inovadoras de todas e a pesquisa de certas áreas da universidade segue essa triste constatação. Uma rápida olhada nas teses de mestrado da ECA-USP disponíveis para consulta online sugere que orientadores e orientandos vivem num universo onde a crise devastadora do setor não é digna de atenção. A única outra conclusão possível é a de que a atitude é para não romper o pacto de mediocridade que se instala nos ambientes onde o esforço extra é visto como uma agressão e não como um mérito. Talvez a amostragem esteja falha e os centros de excelência em estudos na área dediquem grande parte de seus esforços buscando soluções, mas sinceramente acho que não é o caso. Isso, claro, lembrando que estamos falando da maior e melhor universidade da América Latina, onde estão os mais brilhantes mestres e doutores do país. Imagine então nas espeluncas com licença do MEC para vender diplomas sem nenhum compromisso com a obrigação de desenvolvimento que as instituições de ensino têm, moralmente, para com a sociedade.

Dos 81 resultados da busca feitas na produção acadêmica da escola, somente duas (2.46%) se debruçam sobre temas que estejam ligados à falência do modelo de negócios do jornalismo tradicional. Um observador menos atento pode argumentar que pesquisas sobre a deterioração dos jornais enquanto negócio não são tarefa para a Escola de Comunicação e Artes e sim para a vizinha Faculdade de Economia e Administração. E parte do problema está aí.

O mundo acadêmico vê-se num pedestal de nobreza, de onde todas as questões mundanas podem ser evitadas, dada a sua escassa relevância diante da pureza da intelectualidade. Uma parte imensa do fracasso dos modelos negociais jornalísticos se origina nesse ponto: o jornalista é treinado na ética e nos princípios fundamentais do jornalismo mas ao mesmo tempo aprende a desdenhar do funcionamento da máquina em que trabalha.

O erro de avaliação causa pelo menos dois problemas: cria profissionais cegos em relação a um aspecto que é determinante na sua indústria – incapazes de discutir saídas quando aparecem problemas não-jornalísticos – e entrega as empresas a profissionais que são capazes de gerenciar empresas jornalísticas, mas não entendem nada da prática em si. Em suma, cria uma torre de babel onde partes igualmente relevantes do todo são amestradas de forma a jamais compreender a interdisciplinaridade dos problemas. O resultado é a devastação do ambiente de negócios das empresas de notícias.

Não faltam vozes exigindo uma reformulação radical no ensino de jornalismo. As mudanças já eram necessárias quando a revolução digital ainda estava em seu limiar, mas agora, com uma velocidade frenética de mudanças nos meios de comunicação, a observação óbvia é que o estudo e ensino do jornalismo não têm somente que mudar – eles precisam adotar regras e diretrizes que consigam permanecer num estado de mudança permanente, para que se possa tomar passo das dramáticas evoluções e desenvolvimentos que, sim, trazem grandes possibilidades, mas implicam em novas (e imensas) responsabilidades, bem como em sérios e ainda desconhecidos, riscos. As discussões mofadas de membros de ambas as partes – academia e mercado – que têm medo de mudanças por conta de inseguranças particulares precisam ser deixadas de lado o quanto antes. Os maiores punidos não são os debatedores – é a sociedade como um todo.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.