New Journalism precisa de reedição digital

“Ninguém vai pagar por um produto jornalístico que foi publicado também em mil outros lugares”. A observação óbvia é de um jornalista finlandês, feita num texto da OJR, uma revista online da University of Southern California. Por mais simples que pareça, o comentário está na raiz da incompreensão da migração digital do jornalismo. Mas não para aí. A prática do jornalismo, mesmo antes do digital, tinha sido reduzida à reprodução de matérias de agências, publicação de comunicados de imprensa e redução das redações para aumentar o lucro das empresas. Agora, como não há saída, a indústria pode aproveitar a mudança para tentar uma nova versão do New Journalism. Não há mais como evitar os riscos. Então, é melhor aproveitá-los bem.

Antes de mais nada, uma observação. O título deste post não é meu, mas de dois jornalistas que mantém um site sobre jornalismo, o Monday Note. Eles fazem uma reflexão muito pertinente em relação a como as práticas nas redações digitais ainda estão presas em manuais e diretrizes determinadas há mais de meio século e que, ou não têm mais sentido ou tiram a eficiência da coleta de notícias.

Frequentemente falo aqui do jornalismo praticado em jornais e como essa mídia atravessa uma tempestade para a qual não estava preparada. Mas, como mídia, não somente os jornais que estão na idade da pedra. Nos melhores casos – como a BBC – o estilo de reportagem ainda é incrivelmente parecido com o que se fazia há vinte anos. E na maioria esmagadora dos casos, nem isso. Assistir as matérias de qualquer emissora brasileira (e a maioria das estrangeiras também) é tão emocionante quanto ler um manual de 500 páginas escritas em letra sem serifa. O modo de narrativa na TV envelheceu, tornando-se repetitivo, burocrático e tedioso. No caso do rádio, a coisa ainda é pior, uma vez que todas as críticas feitas à TV se aplicam, mas com recursos drasticamente inferiores. A crítica de Fréderic Filloux à inacreditável escravidão jornalística em relação às práticas herdadas da imprensa impressa e audiovisual é absolutamente pertinente. Ele diz:

“A cada vez que leio um jornal (ou sua versão online), fico abismado com o jeito antiquado de se escrever notícias. Os diretores das empresas cuja matriz não é de mídias digitais não se deram conta de que as coisas mudaram. Por exemplo, os leitores não exigem mais aspas para dar peso a uma matéria. Eles querem ser levados de um ponto a outro da narração, com o melhor argumento possível, sem distrações ou perda de tempo”.

Há uma possível contradição no argumento de Filloux. Alguém pode dizer que o New Journalism (termo que foi cunhado pelo escritor Tom Wolfe) é a antítese do jornalismo hard news feito nas redações digitais. Trata-se do texto mais rico, trabalhado, requintado e em muitas vezes, muito mais literário do que jornalístico. A Sangue Frio, de Truman Capote (ou qualquer perfil que ele tenha feito para a New Yorker, como este de Marlon Brando) ou A Luta, de Norman Mailer são peças literárias por excelência e que hoje não teriam espaço nas redações.

A pergunta é: será que não mesmo? Ou será que é o mindset das redações (especialmente no Brasil) que está acostumado com a tríade salários baixos-tempo escasso-pautas sem risco? Um perfil feito pelo New York Times sobre Lindsay Lohan, seu estilo de vida junkie e a aposta do diretor Paul Schrader em tentar fazer um retorno triunfal ao cinema está bem longe da fórmula medíocre de encaixe de reportagem em manuais emburrecedores. Uma matéria do tipo dificilmente seria publicada em outros jornais. A produção de notícias que invariavelmente se repetem é uma exigência de editores estimulados a não ter coragem por parte da administração..

Redações digitais têm  de pensar, antes de mais nada, nos formatos que devem entregar e não o que se faz hoje – uma adaptação do material que é impresso. Equipes focadas em produção de hard news obrigatoriamente  precisarão analisar o comportamento dos usuários para tentar descobrir o que oferecer às suas audiências. Muita da informação com demanda em tempo real virá de fluxos de big data, grandes quantidades de dados que passarão apenas por curadoria de poucos profissionais. Eventos que exijam repercussão e suítes não aceitarão textinhos canastrões com duas aspas corriqueiras no lead e mais três parágrafos de “contexto” (eufemismo usado por muitos jornais para poder copiar o material de ontem na matéria de hoje sem muito pudor). Para se desdobrar e se aprofundar nessas matérias, reportagem de verdade e contexto de verdade. O jornalismo, longe de estar em crise, está evoluindo. A indústria jornalística, essa sim, passa por sérias dificuldades, como sugere este texto do Online Journalism Review.  Se a indústria sucumbir, será substituída por outra, mais adequada. Survival of the fittest, como dizia Darwin.

Sim, ainda resta uma incerteza sobre como será possível se patrocinar esse material de mais fôlego, mas o provável é que um novo ecossistema noticioso deve surgir nas brechas que ficarão do declínio das grandes empresas, da mesma maneira que em tecnologia, novas gerações de companhias – as start-ups que hoje dominam o cenário – surgiram conforme o mercado aumentou e os titãs IBM e Microsoft cederam terreno.  A única conclusão segura é a que Filloux levantou, a de que dificilmente assinantes que pagam por material aceitarão pagar por conteúdos mal-escritos e com um formato no qual eles não querem mais. A única saída para o jornalismo é apostar agressivamente em inovação. E esse movimento tem de ser de cima para baixo. Aliás, a mudança só é tão difícil porque tem de começar na parte de cima. Doutra feita, já teria começado. Mais uma vez, citando Filloux, estamos à espera de outro Tom Wolfe.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.