Tecnologia na educação tem de ser abraçada mesmo que traga problemas

O mundo acadêmico reage à tecnologia e às mudanças. É uma
constatação que encontra exemplos na história. Basta pensar como a
academia rejeitou os artistas impressionistas, para citar um entre
tantos. As ferramentas digitais estão sendo demonizadas porque ameaçam o status quo acadêmico, que está mais do que precisando ser resetado. Independente do que os senhores feudais digam, é preciso insistir na tecnologia, ainda que ela traga novos problemas e riscos. Não temos saída além dessa.

O sistema educacional como conhecemos está falido. O problema é global, mas em países com uma flexibilidade moral, por assim dizer, no que diz respeito à observação da lei, como o Brasil, a falência é mais nítida do que em qualquer outro lugar.

Seguindo a contramão da imagem brasileira no exterior, qualquer profissional de ensino decente sabe que a maioria esmagadora dos cursos superiores brasileiros fornecem pouco além de semianalfabetos diplomados ao mercado, incapazes não só nas disciplinas que cursaram, mas também absolutamente alienígenas a qualquer avanço nos seus campos de atuação.

O diploma como conhecemos também tem seus dias contados. Sua função de atestar a capacidade de um indivíduo numa determinada atividade se perdeu completamente (especialmente em algumas disciplinas, como o jornalismo) por causa do desnível entre os poucos centros de excelência e o resto fizeram o documento virar um pedaço de papel que só tem valor efetivo dependendo da instituição que o emitiu (e às vezes, nem assim).

Uma demanda dormente por educação sempre existiu. O custo da educação sempre foi o responsável por delinear qual parcela da população teria acesso a ela. A Internet teve um impacto definitivo em destravar esse limite do custo, colocando grandes quantidades de informação em contato com uma audiência até então vendada. Os MOOCs foram somente uma formatação dessa avalanche informativa para o meio educacional. Eles não só não vão sumir como vão, queiram os defensores da academia tradicional ou não, substituir a maior parte dos fluxos educacionais no planeta.

Desde sempre, a parcela de professores universitários que gostava de lecionar em cursos de graduação foi pequena. Dar aula a graduandos não dá ao acadêmico o status que ele quer ter de seus pares. Essa vaidade intelectual também pode ser ajudada, uma vez que as universidades, que certamente não deixarão de existir, poderão reforçar a sua vocação de pesquisa, enquanto o ensino digital ganhará espaço na graduação em um grande número de disciplinas (as que não exigem instalações físicas).

Os MOOCs farão diferença e desestabilizarão o modelo de negócios do ensino em países desenvolvidos e em desenvolvimento, mas é nas economias subdesenvolvidas onde eles terão impacto gigantesco. A queda
vertiginosa do custo do acesso à web e o desenvolvimento de
processadores menores e mais baratos levarão possibilidade de
estudo para pelo menos 2 bilhões de habitantes (especialmente na
Ásia) que se encontram fora da curva de custo pré-Internet.

Em países como o Brasil, onde a fiscalização das autoridades na
qualidade de ensino é inexistente, os MOOCs funcionarão como um
“filtro” onde somente faculdades que tragam benefício real tenham
condição de competir. Todos os problemas que a tecnologia trouxer –
diminuição de contato com o docente, fraudes, diminuição da
capacidade de concentração, entre outros – devem ser aceitos e enfrentados por duas razões: primeiro porque valerá a pena; segundo, porque é um caminho sem volta. Os acadêmicos e professores fariam melhor em abraçar a ideia e tentar encontrar soluções para os novos problemas do que ficar choramingando uma “qualidade” sagrada que só existe na cabeça deles há décadas.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.