Mídias sociais causam mais caos em Boston – e arrastam o jornalismo

Para qualquer entusiasta das mídias sociais e seu uso no jornalismo, a semana passada foi uma tragédia. Ou melhor, uma tragédia dobrada. A tragédia em si foi o atentado sem sentido (cabendo a discussão sobre se algum atentado tem sentido) na maratona de Boston. Jornalisticamente, a devastação veio na cobertura da caça aos responsáveis, onde incompetentes bem-intencionados e oportunistas inescrupulosos se transformaram num exército de Brancaleone e onde a própria mídia tradicional não sabia se corria atrás do turbilhão digital ou se perdia audiência para informar direito. O episódio deixou claro que não existe “jornalismo-cidadão” e que, embora indispensáveis para a coleta de informação, as mídias sociais não bastam para substituir o jornalismo. A sociedade precisa de jornalistas e empresas adequados à nova realidade. Sem eles, haverá um preço a pagar.

O jornalista Andy Carvin fez um discurso no International Symposium of Online Journalists (ISOJ) bem enquanto a atrapalhada cobertura se desenrolava. Carvin, um advogado do uso de social media no jornalismo e um importante jornalista do meio digital nos Estados Unidos, pediu desculpas pelo modo inadequado como as mídias sociais tiveram um papel na cobertura. O próprio Carvin já foi protagonista de uma “barriga” ao tuitar que a senadora Giffords tinha morrido após um atentado no Texas.

Não é possível levantar todos os erros e bobagens feitas na caçada de Boston. Informações desencontradas emergiam no Twitter e eram passadas adiante por meios de comunicação; jornalistas de meios tradicionais confirmavam informações desencontradas que depois se revelavam falsas; o departamento de polícia de Boston tentava se manter como “a fonte” da informação, mas acabava adotando um tom sensacionalista em sua conta no Twitter, enquanto sua própria comunicação privada de rádio era tornada pública pelo whistleblower Anonymous. Autoridades, imprensa tradicional, jornalistas muito ativos em suas contas de mídia social e o público correram freneticamente para todos os lados entre quinta a tarde e sexta no final da manhã. Se você lesse os sites de dois meios de comunicação respeitáveis na madrugada de quinta, provavelmente veria informações diferentes. O que a Bloomberg chamou de “surreal caçada crowdsourced” foi na verdade o primeiro naufrágio jornalístico digital absoluto em 2013, com direito inclusive a erros arriscados, como apontar inocentes como culpados.

Acredito sinceramente na intenção do excelente Carvin, mas não acredito que ele mude seu estilo depois do fiasco de Boston. A corrida pelo furo sempre foi uma característica do jornalismo. Jornais e emissoras sempre apertaram o passo para ver quem dava a última informação relevante primeiro. O problema é que os prazos não são mais apertados – não há mais prazos. “Agora” transformou-se no deadline definitivo. Acossados pelas mídias sociais, os meios de comunicação resolveram tentar acompanhar o ritmo e se esfolaram espetacularmente, com raríssimas exceções. Esse desespero para correr contra o Deadline Zero não acabou na semana passada. Carvin, outros excelentes jornalistas e milhares de outros não tão bons ainda levarão tempo para aprender a não correr atrás da própria cauda.

O desserviço feito ao jornalismo vai além da cobertura mal-feita. É muito possível que as bombas de Boston sejam interpretadas como “a falência das mídias sociais”, com céticos com tecnologias e jornalistas mais conservadores apontando o dedo e dizendo “eu não disse?”.

A questão jaz muito longe disso. Logo após o atentado, um sensato post de Jenifer Vanasco no Columbia Journalism Review alertava para a possibilidade de trovoadas e tempestade na cobertura da busca pelos imbecis que explodiram as bombas em Boston. Jason Abruzzese, do Financial Times, fez um alereta similar, ainda no dia 18. O risco de conclusões precipitadas era fácil de ver porque é sempre grande quando os fatos ainda estão acontecendo (o El Pais que o diga), especialmente de qualquer pessoa cadastrada no Twitter se visualize como um Bob Woodward em potencial.

O rescaldo do fracasso da tentativa de informar (cujo passo-a-passo, você vê na íntegra neste outro post de Abruzzese para o FT) faz emergir três observações. Primeiro, que o jornalismo pode até ser feito por cidadãos, mas não existe jornalismo cidadão. A prática do jornalismo exige uma série de práticas, disciplinas, cautelas e iniciativa que somente algumas pessoas têm. Nesse grupo, aquelas bem treinadas por faculdades de jornalismo têm a vantagem de ter aprendido ou lapidado essas habilidades. Isso leva á óbvia implicação de que informações colhidas nas redes sociais podem ser ótimas pistas de onde começar a investigar, mas só são confirmadas quando forem confirmadas por você ou por algum meio de comunicação ou jornalista em quem você confie (e o risco de endossar a informação passa a ser dividido igualmente entre você e ele).

Segunda observação: jornalistas precisam aprender a lidar com as mídias sociais e o o Deadline Zero. Não importa se você é o editor-chefe do Financial Times ou se tem só uma atividade nas redes sociais se engajando em buscar fatos necessários para esclarecer um evento ou desdobramento. Qualquer atividade despreparada que se vista de jornalismo num momento como a Caçada de Boston é um desserviço e uma irresponsabilidade. “Opinião é livre, mas os fatos são sagrados“, como observava C.P. Scott, longevo editor do The Guardian no século passado.

Três: o desafio da tecnologia para o jornalismo agora é o de criar mecanismos de validação para as imensas quantidades de informação criadas pelo crowdsourcing nas redes sociais ou não. O tsunami de informação  não vai parar e isso não é necessariamente ruim. Grandes quantidades de dados possibilitam vislumbrar aspectos que jamais ganhariam a luz da discussão. Contudo, eles podem sim, como ocorreu em Boston, “sucumbir ao próprio peso” (para usar uma expressão de Jason Abruzzese).

As grande empresas noticiosas ainda têm a bola nas mãos, mas precisam de um contragolpe rápido e certeiro – que, diga-se, é quase impossível de se conseguir numa grande corporação, como já discuti diversas vezes neste blog. Elas ainda têm a influência necessária para poder propor um novo momento do jornalismo que será diferente em todos os aspectos – negocial, de processo, de audiência, relacionamento e outros mais. Se essa revolução não partir delas, a metamorfose será mais arriscada e dolorosa. Como não me lembro de revoluções propostas pelo establishment, creio que não haverá outro jeito.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.