O cerco fecha e Internet tem cada vez menos liberdade

A ideia de que a Internet é um livre parlatório da sociedade é freqüentemente tida como verdadeira. A ideia de uma ágora virtual é agradável e catalisa os entusiastas da geração informacional que entrou na vida adulta com a web fora de seu período embrionário. Só que essa liberdade é muito mais frágil do que possa parecer. E os mocinhos da história podem perfeitamente virar vilões de uma hora para a outra.

A fragmentação do acesso à distribuição de informação levou a uma inequívoca mudança no modo como o poder é dividido entre corporações, governos e cidadãos. Eventos como a Primavera Árabe, por exemplo, jamais teriam acontecido sem a capilarização da rede de informação entre seus membros. Mas há um reverso da medalha: hoje, grandes companhias de tecnologia estão se tornando entidades com poderes paraestatais, podendo reter ou difundir informação, delatar ou não comportamentos e agrupamentos, limitar acesso ou disseminar “versões alternativas” da realidade.

Esse risco não é iminente – ele é real. A palestra da ativista Rebecca McKinnon no TED (acima) coloca um exemplo muito feliz de um comercial da Apple de 1984 que sugeria a tecnologia como um método de libertação e em seguida, decisões da Apple, que tendo passado de outsidermajor, claramente priorizaram seus relacionamentos corporativos e governamentais em detrimento do direito à liberdade de expressão individual.

Essa primeira questão não se restringe à Apple, naturalmente. Ela perpassa todos os protagonistas da indústria de tecnologia que arrebanharam uma quantidade de usuários grande o suficiente para poder exercer sobre eles poderes que somente Estados constituídos deveriam poder se tivessem sido democraticamente formados para isso. O mundo virtual não oferece instituições nem conjuntos de regras globalmente aceitos para que se possa exigir dessas empresas as prestação de contas que elas devem fazer aos seus usuários e, quando elas o fazem, é por uma decisão exclusivamente delas, levando em conta seus interesses econômicos, sua imagem e o nível maior ou menor de preocupação com o usuário.

Um segundo risco é a tendência cada vez maior dessas empresas de “fechar” o acesso de terceiros (sejam eles outras empresas, concorrentes ou não ou não-usuários) ao silo de informações coletadas desses usuários e/ou oferecidas a eles. Aparentemente, esse é um direito legítimo das companhias – o de não permitir que concorrentes se beneficiem de dados coletados de clientes que elas conquistaram. Contudo, quando uma empresa passa a ter pouco cerca de 15% da população do planeta em sua lista de clientes, como acontece com o Facebook, o interesse comercial corporativo passa a se chocar com o interesse público que ela oferece como serviço.

O cerne da ideia na gênese da Internet era o de uma rede que fugisse ao controle de uma entidade e que a queda de parte da rede (à época, por conta de uma guerra nuclear) não interferiria no funcionamento do resto dela. O florescimento de empresas no mundo digital sempre aconteceu com as empresas que respeitaram essa natureza pública da rede.

Gigantes do mundo da tecnologia que já foram líderes incontestáveis, como Microsoft e IBM começaram a perder suas coroas ao tentar bloquear caminhos para a concorrência. Mesmo com esse precedente estabelecido, a ideia da “fechar a porta” para estranhos ainda é sedutora para as companhias que momentaneamente lideram seus mercados por causa de uma pressão completamente alienígena ao ecossistema da web – a pressão dos acionistas das companhias por lucros cada vez maiores. Como acionistas jamais aceitarão uma diminuição nos dividendos em função de uma priorização do interesse público, parece certo que a entrada na Bolsa continuará a rotatividade entre os donos da bola. O ciclo da empresa que cresce exponencialmente, torna-se um fenômeno, abre seu capital e se complica ao começar a tomar decisões em função dos interesses dos acionistas em vez do interesses dos clientes parece ser o ciclo vital das empresas de tecnologia.

A solução para os dois problemas passa pelo fortalecimento de instituições dentro da sociedade, mas fora do Estado e do mercado. O Estado sempre vai servir aos interesses do governo do momento. O mercado, por sua vez, tende a se comportar com indícios de psicopatia, colocando lucros sempre à frente dos interesses públicos. A sociedade civil é a única chance – ainda que frágil – que ela mesma tem de manter a Internet livre do domínio de interesses de grupos políticos e/ou econômicos.

O ativismo digital precisa se multiplicar e sempre ter em mente que não pode cometer o erro dos sindicatos, que viraram fins neles mesmos. Desse complexo equilíbrio de forças depende o vigor da web como plataforma para desenvolvimento social, político e econômico de todos os países que não vivem sob ditaduras explícitas ou democracias anêmicas. Se trata de uma tomada de responsabilidade. A Internet entregou um imenso poder para a sociedade, que agora, precisa mostrar que está madura o suficiente para manuseá-lo bem.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.