Jornais e revistas precisam ser salvos deles mesmos

“The basis of our governments being the opinion of the people, the very first object should be to keep that right; and were it left to me to decide whether we should have a government without newspapers or newspapers without a government, I should not hesitate a moment to prefer the latter”

A frase de Thomas Jefferson não vale absolutamente nada a menos do que quando ele a escreveu numa carta a Edward Carrington em 1787. O nível de desenvolvimento das sociedades se mede pela liberdade que a imprensa tem e pela responsabilidade com que ela aproveita da mesma. A indústria jornalística se colocou numa sinuca de bico sucateando seus produtos, inchando suas operações, comprometendo seus recursos em empréstimos e abertura de capitais e, mais que tudo, se negando a acreditar num futuro que era inevitável. Seja culpa de quem for, a sociedade precisa salvar jornais e revistas deles próprios – não com anistias fiscais, empréstimos ou subsídios, mas coagindo a indústria a se renovar. Assistir a derrocada dos principais pólos de jornalismo sem fazer nada é minar as fundações da própria sociedade.

Eu não quero que nos transformemos numa nação de blogueiros. Farei de tudo que pudermos fazer para ajudar as organizações noticiosas a encontrar novas maneiras de expressão, para que elas possam manter suas operações editoriais”. Steve Jobs fez essa afirmação numa conferência em 2011 e ele certamente tinha noção da necessidade de salvar as empresas noticiosas. Jornais e revistas, com os atuais modelos de negócio e produção, estão fadados ao desaparecimento. Há pelo menos duas décadas, as operações de empresas de comunicação estão inchadas, não houve desenvolvimento de produtos realmente novos, o jornalista se burocratizou tentando fazer uma defesa corporativista da profissão em vez de desenvolvê-la. O inchaço tirou as defesas dessas empresas que, num cenário pré-digital, não eram necessárias. Com a revolução digital, o ambiente das empresas de notícias, então em equilíbrio, viu a entrada de um predador que não está poupando ninguém de sua fúria.

A tarefa de salvar os jornais e o jornalismo não tem pai nem mãe. As próprias empresas, teoricamente deveriam ser as mais interessadas, mas a empreitada implica em cortes fundos na carne dos personagens que tomam as decisões; governos, de um modo geral, não tem nenhum interesse numa imprensa livre, não-suscetível a pressões e lobbies ou plural. A sociedade como um todo também demonstra muito raramente preocupação com a substituição do jornalismo genuíno por um infotainment rasteiro, que, diga-se de passagem, não surgiu agora, mas vem se instalando na mídia há mais de uma década.

Um problema básico de concepção está presente de alguma forma em 99% das redações: a dificuldade de compreender que o leitor alterou o paradigma de recepção de informação. Os modelos de produção anteriores limitavam os formatos e a quantidade de gerenciadores de informação. Em outras palavras, o leitor/ouvinte/espectador estava acostumado a receber somente o formato “notícia” através de meia dúzia de jornais e emissoras.

Digitalmente, o usuário passou a ser bombardeado com uma quantidade de informação sem precedentes da história da humanidade, e em formatos que eram até então ininteligíveis. Leitura de trends em tempo real, recebimento de informação sobre o trânsito ou mesmo mensagens sms que informam se um determinado produto atingiu o preço que o potencial comprador estava esperando são alguns em um universo de milhões de novos caminhos para o processamento de informação.

Esse excesso não passa sem deixar marcas ou causar danos. O livro de Wurman, Ansiedade da Informação e o filme Johnny Mnemonic são premonições de diferentes naturezas sobre como a sobrecarga cria uma série de consequências (que vão desde a depressão e a ansiedade até a alteração dos comportamentos diários dos indivíduos). O ser humano não passou a ser uma criatura atormentada com o advento do digital (ele já é atormentado desde sempre), mas suas aflições ganharam uma velocidade e uma dinâmica inéditas. Esse é o cenário em que vive o “novo” leitor: muito mais informado (bem e mal ao mesmo tempo), com diferentes necessidades e disponibilidades para gastar.

As grandes corporações de informação já perderam boa parte da vantagem que tinham acumulado no século XX tentando parar o furacão com as mãos. A negação das mudanças que vêm acontecendo fez com que, em grande medida, os jornais oferecessem aos leitores o mesmo produto que tinham há 20 anos – só que piorados, feitos por jornalistas mais novos, com piores salários, jornadas mais longas e prazos mais curtos. Não é surpreendente que a sensação diminui a confiança que o público tem numa instituição que é decisiva para o modo como a sociedade se comporta.

Os empresários de informação, de um modo geral, ainda encaram a crise como circunstancial e não sistêmica. Boa parte dos jornais do mundo está ou endividada ou alterando o foco editorial para buscar receitas e investimento, mas não vai adiantar. Sites de jornais assistem uma queda constante no preço pago pelos anúncios em suas páginas. Subsídios, incentivos, empréstimos, reorganizações ou quaisquer outras medidas da “velha” economia não vão mudar o rumo do cometa. Quanto mais rápido eles se dêem conta disso, menor será o tamanho do “buraco” informativo que teremos de preencher.

Start-ups de informação que trabalhem de maneira diversa têm melhores chances de cobrir o vazio deixado pela mídia tradicional porque entendem melhor as novas necessidades da audiência, têm menos custos, têm menos compromissos com negócios e operações pré-digitais, maior flexibilidade e um histórico menos pesado para carregar enquanto estiverem fazendo as mudanças que certamente serão necessárias.

Desenvolvimento de ferramentas de maior eficiência na entrega de anúncios, adequação das métricas  para transformar o inventário de exibições de página em um número finito (hoje, as publicações têm um número infinito de possibilidades de exibição de ads, fato que reduz drasticamente seu valor), desenho de novos modelos administrativos que enxuguem os custos sem ter menos jornalistas. Felizmente, é grande a quantidade de alternativas para retomar o pleno funcionamento do jornalismo e desinfetá-lo do infotainment que hoje impera na mídia.

O mercado terá uma forte relevância na determinação desse novo modelo jornalístico. Correr atrás do próprio rabo não adianta mais. Jornais e revistas precisam ‘desaprender’ a fazer o que fazem nas mídias tradicionais para reestabelecer novos processos princípios para desenvolver novos produtos, em formatos que se encaixem com o dia-a-dia das pessoas. A transposição entre as mídias chegou ao seu limite e não dá mais para fazer notícias no digital como se fazia há 10, 20, 100 anos. É hora de as grandes corporações abrigarem suas próprias start-ups em empresas que não dependam nem se submetam às coordenadas da “mídia-mãe” (a operação de onde a empresa realmente tire seus recursos). Como disse Steve Jobs, “é difícil desenhar produtos ouvindo o que dizem as pesquisas com grupos de foco, porque as pessoas nãos abem o que querem até que você mostre a elas”. Do desafio de inventar produtos que rompam com o passado, não dá para fugir.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.